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"textContent": "\nA decisão de voltar ao trabalho depois da maternidade ainda é um dos momentos mais desafiadores da vida de muitas mulheres. Entre culpa, insegurança e amor intenso pelo bebê, não é raro que mães considerem pausar — ou até abandonar — a carreira. Mas, na prática, essa escolha costuma ser atravessada por histórias pessoais, referências familiares e, sobretudo, pela construção da própria identidade. Aline Cristina Gonçalves Garanhani e a filha, Luiza Arquivo Pessoal Foi exatamente esse turbilhão que viveu Aline Cristina Gonçalves Garanhani, 31 anos, Gerente de Marketing da Qualicorp, ao se tornar mãe da pequena Luiza, atualmente com 1 ano e 2 meses. Mesmo com uma carreira em ascensão, ela se viu, pela primeira vez, cogitando abrir mão de tudo. “Quando a minha filha nasceu, eu me senti completamente consumida pela maternidade. Era como se aquilo fosse a única coisa da minha vida. Eu pensava: ‘não quero fazer mais nada, só quero viver para ela’. Foi um sentimento muito intenso, muito novo. E, de certa forma, assustador também”, comenta ela. A fala traduz um comportamento comum entre mães no pós-parto. Especialistas apontam que fatores hormonais, exaustão, adaptação à nova rotina e pressão social contribuem para essa sensação de “fusão” entre mãe e bebê, o que pode afastar, temporariamente, outros papéis da mulher. Para a psicóloga Ana Carolina Bueno, coordenadora pedagógica da pós-graduação em Estudos Familiares da Rede Amparo, o conflito é histórico e social. “Desde o século 20, convivemos com dois ideais femininos quase incompatíveis: o da profissional independente e o da mãe totalmente dedicada. Quando a mulher se torna mãe, esses modelos entram em choque dentro dela. Ela quer ir, mas também quer ficar”, resume. Por que 75% das empreendedoras decidem abrir o próprio negócio após a chegada dos filhos? O peso das referências: quando a história se repete — ou se transforma No caso de Aline, havia ainda um elemento silencioso, mas poderoso: o exemplo da própria mãe. Ela cresceu vendo a mãe abrir mão da própria trajetória profissional para se dedicar integralmente à criação dos filhos, uma escolha comum em gerações anteriores, mas que deixou marcas. “Eu vejo que ela se dedicou totalmente à família e, hoje, carrega um sentimento de que não teve uma vida própria. Como filha, isso gera até uma certa culpa. É como se a gente ficasse devendo algo. E eu não queria isso para a minha filha. Não queria que ela sentisse que eu abri mão de mim por causa dela.” Essa percepção foi determinante para que Aline começasse a questionar a ideia de não voltar ao trabalho. Mais do que uma decisão prática, tratava-se de um posicionamento sobre o tipo de exemplo que queria deixar. \"Existe uma expectativa implícita de que a maternidade vai comprometer a performance profissional\", diz diretora premiada A virada de chave: o papel da rede de apoio Curiosamente, o ponto de virada veio de uma amiga que vivia a maternidade ao mesmo tempo, mas com uma realidade diferente. Enquanto Aline ainda estava imersa na licença, a amiga precisou voltar ao trabalho poucos meses após o parto. “Ela me disse: ‘calma, você ainda não sabe como vai ser quando voltar. A gente se reconecta’. Aquilo ficou na minha cabeça. E foi exatamente o que aconteceu.” Ao retomar a rotina profissional, ainda em home office, Aline teve uma espécie de reencontro consigo mesma. “Quando voltei, pensei: onde eu estava com a cabeça? Eu continuo querendo estar com a minha filha o máximo possível, mas também quero ser mulher, quero ser profissional. Quero crescer. E não só por mim, por ela também, para que ela tenha orgulho da mãe que tem.” Gestantes em trabalho temporário passam a ter direito à estabilidade, decide TST Por que tantas mães pensam em não voltar a trabalhar? A dúvida vivida por Aline não é exceção — é regra. Entre os principais fatores que levam mulheres a reconsiderar a carreira após a maternidade, estão: Culpa materna: a sensação de estar “faltando” com o filho ao priorizar o trabalho Exaustão física e mental: especialmente nos primeiros meses, com privação de sono e sobrecarga Falta de rede de apoio: ausência de familiares, creche ou políticas corporativas adequadas Pressão social: a idealização da “mãe integral”, ainda muito presente Mudança de prioridades: o desejo genuíno de desacelerar ou redirecionar a vida Ao mesmo tempo, o retorno ao trabalho também pode representar algo essencial: a reconexão com a própria identidade. Para Aline, o ambiente profissional ganhou um novo significado após a maternidade. “No meio de tantas incertezas, o trabalho virou um lugar seguro. Ali, eu sabia quem eu era. Era a Aline profissional, a Aline mulher. E isso me deu força. Me lembrou de tudo que eu construí até ali e do quanto ainda quero construir.” Meses depois, veio a confirmação: ela foi promovida a gerente. Um reconhecimento que, segundo ela, reforçou uma percepção importante. “Não somos melhores profissionais apesar de sermos mães. Somos melhores profissionais por sermos mães. A maternidade desenvolve habilidades que levamos para o trabalho: organização, empatia, resiliência, capacidade de priorizar.” Ser mãe e ser mulher: papéis que coexistem A experiência de Aline evidencia um ponto central no debate sobre maternidade e carreira: não se trata de escolher entre um ou outro, mas de construir um caminho possível entre ambos. Isso não significa ausência de culpa ou dificuldades. Pelo contrário. “Todos os dias são difíceis. Todos os dias eu penso que queria ficar mais com ela, que vou perder algum momento importante do desenvolvimento dela. Mas também me lembro que gosto do que faço. E que isso faz parte de quem eu sou. Vi minha mãe desistir dos sonhos dela. Não queria que minha filha sentisse essa culpa, como eu senti.” No fim, a maternidade não apagou sua identidade, pelo contrário, a ampliou. E, talvez, seja esse o principal aprendizado para tantas mulheres que se veem diante da mesma encruzilhada: voltar ao trabalho depois da maternidade não é abandonar o filho. É, muitas vezes, uma forma de ensinar — pelo exemplo — que uma mulher pode ser múltipla. Mãe, profissional, indivíduo. Tudo ao mesmo tempo. E tudo com valor. \"Quero que a Luiza, um dia, fale para os amigos dela que a mãe trabalha com marketing, em uma grande empresa, que fez aquele projeto, aquele outro, com os olhos brilhando, sabe? Quero dar orgulho para a minha filha também\", conclui.",
"title": "“Vi minha mãe desistir dos sonhos dela. Não queria que minha filha sentisse essa culpa, como eu senti”, diz mãe sobre voltar a trabalhar depois da licença"
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