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  "textContent": "\nLogo no início da nossa conversa, Kaká avisou que havia preparado um roteiro. “Como sou autista, já fico ansiosa”, explicou a escritora Karine Koerich Busch Lobe, 48 anos. A necessidade de planejamento é uma característica comum no autismo. Kaká tem dois filhos com TEA Arquivo Pessoal Conforme o papo avançava, ela mesma reconheceu seu estilo direto. “Eu já queria falar tudo o que tinha escrito”, contou. Para Kaká, compreender as particularidades das pessoas autistas, sem julgamentos, é essencial para um convívio mais leve e respeitoso. Em um momento marcante, ela ouviu da cunhada: “Kaká, o que podemos fazer por vocês?”. A pergunta ficou ecoando. Mãe de dois filhos autistas nível 1 e diagnosticada aos 44 anos, ela não estava acostumada a esse tipo de escuta e acolhimento. Foi dessa experiência que nasceu Autismo – 10 gestos de amor (Versos Editora, R$ 97, 2025), escrito em parceria com os filhos Pedro, 18, e Matheus, 13. A proposta é ampliar o diálogo para além da comunidade autista e aproximar mais pessoas desse universo. A escritora publicou o livro 'Autismo 10 Gestos de Amor' no ano passado Thiago Trindade Floriani Natural de Blumenau (SC), Kaká percorreu um longo caminho até compreender a diversidade do transtorno do espectro autista (TEA). “Para mim, era como no filme Rain Man (1988), em que o personagem, vivido por Dustin Hoffman, é um gênio, mas se vê impossibilitado de viver em sociedade”. O diagnóstico dos filhos e, depois o próprio, foi um divisor de águas. Após o luto inicial, surgiu uma missão: levar informação sobre o autismo a mais famílias. Para celebrar o Dia Mundial da Conscientização do Autismo (2), ela fala com a CRESCER sobre os desafios que enfrentou e o aprendizado que transformou sua trajetória: cuidar de si mesma é tão importante quanto cuidar dos filhos. CRESCER: Seu filho caçula foi o primeiro da família a ser diagnosticado com autismo. Como foi receber a notícia? Karine Koerich Busch Lobe: Foi em 2014. A pediatra desconfiou, porque nós o chamávamos e ele não olhava. Achei que era bobagem. Para mim, autismo era outra coisa. Quando veio o diagnóstico, meu mundo acabou. Esperei seis meses por uma consulta com um especialista. Queria que ele dissesse que o outro médico estava enganado. No final, foi maravilhoso. Ele nos indicou para fazer a ABA (Análise do Comportamento Aplicada, que visa desenvolver habilidades sociais e comunicativas dos autistas). C.: Você percebeu algum sinal de alerta? K.: Eu não percebia, mas meu marido já notava que o Matheus não respondia quando a gente chamava. Ele também queria sempre brincar sozinho e eu pensava: “nossa, que independente!”. Às vezes, queria pegá-lo no colo e ele não dava bola; pensava que não gostava de mim. Não via nada de errado, mas, quando recebemos o diagnóstico, começamos a enxergar. Para mim, o autismo era como no filme Rain Man (1988) — um longa com Dustin Hoffman, em que o personagem é um gênio, mas se vê impossibilitado de viver em sociedade”. Kaká e a família Arquivo Pessoal C.: Como foi iniciar a terapia? K.: Saí do consultório sem saber nada sobre ABA, mas decidida a aprender. Pesquisei na internet e só tinha sites gringos. O terapeuta falava: “Faz isso” e, se a criança fazia, ganhava um biscoito. Pensei: “será que meu filho vai ter que fazer isso?”. Mas, quando começamos, percebemos que era algo totalmente diferente. A ABA evoluiu muito. Hoje, seguimos a liderança da criança. Como não havia muitos especialistas em Santa Catarina, íamos sempre para São Paulo. Imagine um bebê de 2 anos no avião; ele vomitava daqui até São Paulo. Lá, eu aprendia como fazer e aplicava em casa. Foi, então, que o desenvolvimento dele aumentou exponencialmente, o que me inspirou a publicar tudo que aprendemos, com base na ciência, para outras famílias. Kaká Pedro Waldrich O Matheus tinha atraso de fala, se isolava. Dpois que começamos a ABA, ele superou todos esses atrasos. Foi incrível o desenvolvimento dele. C: Seis anos depois, veio o diagnóstico do mais velho. O que levou você a procurar um especialista? K.: Comecei a ficar preocupada em 2020. Em meio à pandemia, as crianças começaram a ter aula em casa e a ficar sem ver ninguém. Na época, o Pedro, com 13 anos, não via nenhum amigo. Percebi que ele tinha dificuldade em levar as amizades para fora da escola. Eu o levei ao neurologista e, logo depois, veio o diagnóstico de autismo. Ao mesmo tempo, o Matheus foi diagnosticado com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade). Ele não conseguia se concentrar, ficava plantando bananeira no meio da aula. Começou uma nova fase de luto na minha vida, aquela coisa de primeiro ficar com raiva, depois, deprimida. É bem difícil para uma mãe. C: No livro, você comenta que recebeu seu próprio diagnóstico de autismo com 44 anos, e depois, de um burnout. Como foi passar por esse momento? K.: Eu estava hiperfocada no tema autismo. Respondia cada direct, não tinha dia da semana nem horário. Fiz um site, escrevi um livro. Acolhia cada mãe e dizia como estimular a linguagem e a interação. No final de 2021, tive um burnout. Não conseguia escovar os dentes, não saía da cama, meu braço parecia que tinha 50 quilos. Marquei uma consulta com uma amiga que era neuropediatra. Ela me pediu para marcar uma avaliação neuropsicológica, que confirmou o diagnóstico. C: É comum haver subdiagnóstico de autismo em meninas, pois elas costumam usar uma máscara social [quando uma pessoa oculta um comportamento para se enquadrar às regras sociais]. Como isso impactou você? K.: Na infância, não percebia. Mas, com o diagnóstico, passou um filme na minha cabeça. Minhas amizades sempre ficavam na escola. Comecei a perceber também que tinha algumas estereotipias, como cutucar a pele dos lábios [Transtorno de Escoriação]. E as pessoas diziam: “Uma menina tão bonita não pode fazer isso”. Sem querer, aprendemos a mascarar. Criei um personagem, mas foi totalmente inconsciente. Também não olhava nos olhos das pessoas. E, na época, havia um pensamento de que, se não olhasse no olho, não estava falando a verdade. Me esforçava para não desviar o olhar e falar mais alto. Eu ainda era hiperfocada em Barbie. A maioria das meninas também amava a boneca. Mas, elas conseguiam fazer outras coisas, como jogar bola. Eu queria sempre aquela brincadeira repetitiva. Hoje, ao encontrar uma amiga, fico ensaiando o que vou dizer, porque já dei várias bolas fora. Já abri minha vida para alguém que não conheço direito, já dei gargalhadas em enterro. C.: Como surgiu a ideia de fazer uma obra interativa como o Autismo – 10 gestos de Amor? K: Os meus primeiros dois livros foram criados para a bolha de famílias de autistas. Um dia, minha cunhada perguntou: “Kaká, o que podemos fazer por vocês?”. Isso ficou na minha cabeça. Em geral, as pessoas, muitas vezes, têm aquela atitude preconceituosa, que parece inofensiva, como dizer: “todo mundo é um pouco autista”. No fundo, estão dizendo “eu não valido seu diagnóstico e não vou fazer nada para te acolher”. C.: Quais são os desafios de ser uma mãe atípica? K.: Bem grandes. Hoje, o Matheus é completamente independente, mas, no começo, foi muito difícil. As pessoas não têm paciência com a gente. Vivo isso na pele e sei que meus filhos também. Todo dia, é uma batalha para incluir. É você chegar, por exemplo, para almoçar com sua família e não ter a comida aceita pelos seus filhos, por causa da seletividade alimentar. Não é uma corrida de 100 metros, é uma maratona diária. Por isso, cuido da minha saúde mental. Tive que esperar a bomba explodir para juntar os caquinhos e conhecer a Kaká. Eu não sabia quem eu era. Agora, pude me conhecer pela primeira vez.",
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