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"textContent": "\nA jornalista Débora Saueressig, 47, de Porto Alegre (RS), e a empresária Sarita Melo, 28, de São Paulo, sabem o que é atravessar a vida sem um diagnóstico. Foi só depois de se tornarem mães e descobrirem o autismo dos filhos que veio a revelação: elas também estão no espectro. Suas histórias evidenciam uma realidade ainda pouco discutida - o diagnóstico tardio de autismo em mulheres. Sarita com Elisa e Débora com Benjamin Arquivo pessoal Nesta quinta-feira (2), em que se celebra o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, Débora e Sarita relembraram suas jornadas até o diagnóstico em entrevista à CRESCER. Confira! Autismo em três gerações: como mãe descobriu que é autista após o diagnóstico dos quatro filhos Mãe descobre que é autista após diagnóstico dos cinco filhos: 'Pude parar de fingir' Descoberta do diagnóstico de Benjamin Desde que o filho, Benjamin, era pequeno, Débora percebia alguns sinais. \"Foram diferenças bastante importantes e precoces no desenvolvimento social e comunicativo. Interesses muito restritos, respostas sensoriais intensas, questões motoras relevantes e uma forma muito própria de se relacionar com o ambiente. Nunca foi um atraso isolado, era um padrão de desenvolvimento aquém do esperado\", conta. Ela decidiu conversar com especialistas e foi indicado que Benjamin passasse por uma avaliação. \"O diagnóstico veio antes dos dois anos de vida. Foi um processo técnico, criterioso e muito embasado em percepções que já estavam ali há bastante tempo\", ressalta. Débora já esperava que o filho fosse autista, por isso, a notícia não foi uma grande surpresa. \"Recebi com impacto, mas também com razoável clareza. O diagnóstico não criou nada novo, apenas nomeou o que já estava ali e o que a gente já enxergava\", diz. Quando o filho estava maduro o suficiente para compreender, ela contou a ele sobre o diagnóstico. \"Contei com naturalidade, como parte da identidade dele. E a medida em qu ele vai crescendo, hoje está com 7 anos, vamos juntos entendendo mais e melhor como abordar o tema\", afirma. 'Muitas experiências da minha vida ganharam contexto e explicação' O diagnóstico do filho abriu os olhos de Débora para si mesma. Ela começou a reparar que tinha algumas semelhanças com Benjamin. \"Alguns traços sempre estiveram presentes: hipersensibilidade, rigidez de comportamentos, exaustão social. Mas só passaram a fazer sentido depois do diagnóstico dele\", diz. Então, começou a investigar se também poderia estar no espectro. \"Minha busca começou a partir da convivência com o diagnóstico do meu filho. Ao estudar o tema com profundidade, comecei a reconhecer padrões na minha própria história\", explica. Após passar por uma série de avaliações com especialistas, descobriu que também é autista, aos 47 anos. Apesar de ter suas suspeitas, a confirmação a pegou de surpresa. \"Não vou mentir e dizer que foi fácil, não foi, mas de alguma maneira foi um alívio. Muitas experiências da minha vida ganharam contexto e explicação\", destaca. \"Trouxe menos culpa, mais autocuidado e uma leitura mais justa e afetuosa sobre mim mesma.\" Débora descobriu que era autista após o diagnóstico do filho Arquivo pessoal A notícia foi libertadora. “Recebi meu diagnóstico depois de uma vida inteira colecionando rótulos que nunca explicavam nada: sensível demais, ingênua demais, cansada demais, rígida demais. Por décadas, a sensação foi a de estar sempre um pouco fora do lugar, como se existisse um código que todos soubessem ler menos eu”, relata. “O diagnóstico me devolveu a minha história inteira com sentido. Desde então, venho construindo outra forma de existir: mais consciente dos meus limites, mais cuidadosa comigo, menos refém de cobranças que nunca foram minhas. Não virei outra pessoa de um dia para o outro, mas finalmente comecei a me tornar alguém em quem posso confiar.” Para Débora, nenhum laudo afeta a relação com Benjamin. \"Mudou minha forma de compreender alguns aspectos, mas não a relação. O amor, nesse quesito, é sempre soberano e se sobrepõe a qualquer diagnóstico\", afirma. Apesar dos desafios, há também dias profundamente recompensadores. “Existe a sobrecarga estrutural, o abandono institucional e o despreparo social. Mas há, igualmente, muitas alegrias - como a intensidade do nosso vínculo e a lucidez que o autismo me trouxe sobre o mundo”, afirma. Mãe de SC viraliza ao compartilhar sinais de autismo da filha quando era bebê: \"Já estava ali\" O diagnóstico de Elisa Elisa e Sarita Arquivo pessoal Sarita tem uma história semelhante. Desde que a filha, Elisa, era bebê, suspeitava que ela era diferente das outras crianças. \"O primeiro sinal que ela teve foi o fato de não apontar. Ela teve uma involução, que depois descobrimos que estava ligado ao autismo regressivo - ela perdeu habilidades. Ela não tinha habilidades como as demais crianças\", conta. A mãe falou com a pediatra, que recomendou que a menina passasse por avaliações de especialistas. Em 2020, com 1 ano e seis meses, Elisa foi diagnosticada com autismo nível 3 de suporte. \"Nós iniciamos uma intervenção super precoce, mas ela já era uma autista grave e a evolução dela é lenta. Dali, ela começou as terapias e todo o processo de tratamento\", lembra. Receber a notícia de que a filha era autista foi choque de início. \"Eu idealizei uma criança. Desde a gravidez já idealizava como seria. Acho que quanto mais tempo você passa idealizando algo, maior é sua frustração quando você entende que sua vida vai mudar. Então, primeiro veio a negação. A aceitação veio com o tempo, não foi de uma vez\", explica. Mas, hoje ela lida muito bem com isso. \"Eu mostro para outras mães que o diagnóstico não é o fim. Ele é um ponto de partida para realmente você entender que as pessoas são diferentes e que existem, sim, pessoas autistas e elas merecem respeito, merecem aceitação e merecem ter um mundo que as entendam\", destaca. 'O amor é o principal ponto para qualquer conscientização' Ainda assim, existem momentos desafiadores. \"A Elisa tem deficiência intelectual e é não verbal. Ela não sabe o que é autismo, ela não entende as dificuldades dela\", explica. \"As involuções são uma realidade que as mães passam. No período de férias, minha filha involuiu muito, passou a não pentear mais cabelo, passou a não botar mais sapato, passou a agredir. Imagine a frustração de saber que você está remando e tudo pode voltar atrás.\" Segundo Sarita, outra questão difícil contar sobre o diagnóstico da filha para a família, pois muitos não aceitavam. \"Parecia que o conforto de algumas pessoas era dizer que aquilo não era autismo, que ia dar tudo certo\", lembra. \"Mas, na verdade, a conscientização inicia na família, ela tem que se estender para os seus amigos, para todas as as pessoas ao redor, para que realmente entendam as peculiaridades daquela criança e que ela precisa de suporte, de rede de apoio e de muito carinho. Acho que o amor é o principal ponto para qualquer conscientização acontecer\", ressalta. Apesar dos desafios, a maternidade atípica também traz muitas alegrias. \"Você realmente dá valor para pequenas vitórias que a gente vence todo dia\", afirma. Sarita descobriu que é autista após o diagnóstico de Elisa Arquivo pessoal 'Tenho que viver de acordo com o que o autismo me permit' A partir do diagnóstico da filha, Sarita decidou passar por uma avaliação e também descobriu que era autista nível 1 de suporte, aos 28 anos. Além de Elisa, outros membros da família estão no espectro. \"A genética do autismo é presente na minha família. Tenho três sobrinhos, um de 4 anos, outro de 12 anos e outro de 19 anos. Todos de diferentes níveis de suporte, do nível 1 a nível 2\", conta. A notícia trouxe muitas transformações para a sua vida. \"O diagnóstico não só mudou, como muda todos os dias a minha vida. Eu tenho que viver de acordo com o que o autismo me permite. Eu tenho que entender que a minha filha tem limitações e que dentro dessas limitações, tenho entender as dificuldades e me moldar a partir daquilo. Todos os dias eu trabalho o meu dia diante das dificuldades e das limitações que o autismo me traz\", diz. Mãe conta por que ignorava sintomas de autismo do filho 'Meninas e mulheres continuam sendo tratadas pelo que parecem — e não compreendidas pelo que são' As histórias de Débora e Sarita não são casos isolados. O autismo em mulheres ainda é subdiagnosticado no Brasil. Apesar do avanço no reconhecimento do Transtorno do Espectro Autista (TEA), meninas e mulheres ainda são diagnosticadas mais tarde ou simplesmente não são diagnosticadas. Isso contribui para quadros de ansiedade crônica, depressão, burnout e histórico de tratamentos psiquiátricos inadequados. Dados do CDC (2023) indicam que o autismo é identificado aproximadamente quatro vezes mais em meninos do que em meninas. Pesquisas recentes, porém, sugerem que essa diferença pode estar relacionada à subdetecção feminina e não necessariamente a uma incidência real tão discrepante. \"Há uma lacuna consistente na literatura e na prática clínica quando se trata de meninas e mulheres com menor necessidade de suporte. Muitos quadros passam despercebidos porque os critérios diagnósticos foram historicamente calibrados a partir de amostras predominantemente masculinas\", explica Paulo Liberalesso, neuropediatra. Luciana Xavier, neuropsicóloga Arquivo pessoal Estudos da Universidade de Cambridge apontam que mulheres autistas desenvolvem com maior frequência estratégias de “camuflagem social”, um esforço consciente para imitar padrões comportamentais e evitar exclusão. Essa adaptação constante tem alto custo psíquico e está associada a maior risco de ansiedade, depressão e ideação suicida na vida adulta. Para a neuropsicóloga Luciana Xavier, referência nacional em avaliação do autismo no feminino, o problema vai além do mascaramento. “Ainda reconhecemos melhor um modelo mais masculino de autismo. Meninas tendem a compensar socialmente, imitar comportamentos e internalizar emoções, o que pode mascarar sinais importantes”, explica. Segundo ela, romper o ciclo exige três mudanças práticas: formação de profissionais de porta de entrada — como pediatras e escolas — para reconhecer sinais sutis; instrumentos de rastreio mais sensíveis ao fenótipo feminino; e avaliação longitudinal, baseada na história evolutiva e no funcionamento real da pessoa. “Sem uma avaliação contextual e especializada, meninas e mulheres continuam sendo tratadas pelo que parecem — e não compreendidas pelo que são”, afirma. No Brasil, o cenário se repete nos consultórios: muitas mulheres recebem diagnóstico apenas após o filho ser identificado no espectro ou depois de décadas acumulando rótulos imprecisos. \"Isso resulta em subdiagnóstico, diagnósticos tardios e anos de sofrimento psíquico não reconhecido. Qualificar o olhar clínico e ampliar a formação dos profissionais são passos fundamentais para corrigir essa distorção epidemiológica e assistencial”, reforça Paulo Liberalesso. Paulo Liberalesso, neuropediatra Arquivo pessoal",
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