Adolescente fechado no quarto: quando o isolamento deixa de ser normal e vira sinal de alerta?
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March 26, 2026
É comum que, na adolescência, o quarto se torne um refúgio. Mas, quando a maior parte do tempo é passada em isolamento, o convívio familiar é evitado e as telas viram quase um item acoplado, há um limite sendo ultrapassado. Para o psicólogo e pesquisador Hugo Monteiro Ferreira, autor do livro A geração do quarto (Record), o fenômeno tem se tornado cada vez mais frequente e os pais precisam ficar atentos, porque pode ser indício de um sofrimento emocional importante. Adolescente que se isola e evita o convívio: pode ser um pedido silencioso de socorro Freepik “O que faço com meu filho que não sai do quarto e vive grudado no celular?”. Esta era uma das perguntas que Monteiro, escritor e palestrante especializado em saúde mental e emocional de crianças e adolescentes, ouvia de pais e mães. Foi do contato com esta angústia, cada vez mais frequente, que surgiu o interesse pelo tema. A repetição dessa inquietação levou o pesquisador a desenvolver uma investigação científica para entender o que acontece nesse isolamento. “Decidi construir uma pesquisa cujo objetivo geral era compreender o que se passava dentro do quarto com essas crianças e adolescentes”, explica, em entrevista exclusiva a CRESCER. O que ele descobriu foi um cenário que merece atenção e ação imediata. “Os resultados apontam que nossas crianças e adolescentes estão adoecidos mentalmente, apresentam comportamentos autodestrutivos, heterodestrutivos (quando as atitudes machucam os outros), sintomas e sinais psicopatológicos e usam excessivamente as redes sociais digitais”, descreve. Uma rápida olhada no noticiário comprova que ele tem toda a razão. Ficar no quarto: é sempre um sinal de problema? Nem todo adolescente que prefere ficar sozinho está em sofrimento. O problema, segundo o especialista, surge quando o isolamento vem acompanhado de mudanças emocionais ou comportamentais. “Esse comportamento começa a ser um problema quando ele demonstra sinais de adoecimento mental, tais como síndromes depressivas, síndromes ansiosas, comportamentos autodestrutivos como ideação suicida, autolesão sem intenção suicida e tentativa de suicídio”, explica. Ele também alerta para sinais de agressividade e violência: “Estar no quarto é um perigo quando o quarto se torna sinônimo de isolamento doentio, de violência contra si ou contra o outro. O quarto passa a ser espaço e tempo de agressividade”, descreve. Em "A geração do quarto", o professor e pesquisador Hugo Monteiro Ferreira fala sobre a saúde mental de crianças e adolescentes Divulgação Sofrimento silencioso Muitas famílias só percebem o problema quando a situação já está avançada. Os primeiros sinais acabam passando batido por um motivo, segundo o pesquisador: os adultos frequentemente subestimam o sofrimento emocional dos jovens. “Eles não creem que crianças e adolescentes sofram e que possam fazer sofrer. Por essa razão, não conseguem ver, entender, compreender quando eles adoecem”, avalia. As telas têm ganhado cada vez mais espaço no cotidiano dos adolescentes pvproductions/Freepik O papel das telas O uso excessivo de tecnologia aparece como um dos elementos centrais no comportamento do adolescente que só fica no quarto. Para o especialista, a relação pode ser intensa e preocupante. “As telas em excesso são ruins. As telas com IA são péssimas para qualquer ser humano, imagine a seres humanos em desenvolvimento cujo cérebro ainda está por formar”, afirma. “A vida digital deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade”, descreve. Monteiro também alerta para o conteúdo consumido: “Crianças e adolescentes aprendem a viver a vida digital de um modo perigoso, consumindo absolutamente tudo, inclusive violência, medo, terror”, enumera. As consequências disso não são nada positivas. Outra dúvida comum é até que ponto os pais devem respeitar o espaço do adolescente. O especialista defende uma postura ativa e cuidadosa. “A parentalidade consciente é aquela que não se omite e nem negligencia, mas cuida”, afirma. “Pais e mães conscientes não ‘invadem e nem se omitem’, porém tentam, de modo amoroso, proteger”, diferencia. Segundo ele, a chave é a proteção com diálogo: “Proteger é não deixar o filho à mercê e sempre incluir o filho nos temas que o envolvem”. O que as famílias podem fazer? Para enfrentar o isolamento, o primeiro passo é fortalecer vínculos longe da tecnologia. “É fundamental que famílias criem espaços de diálogo, de troca, de permuta, tudo longe das telas”, orienta. “É hora de lentificar a vida de meninos e meninas, tentar voltar a tempos mais artesanais, menos tecnológicos”, orienta. O pesquisador também sugere reduzir o uso cotidiano de tecnologia sempre que possível. “Por vezes, é melhor ensinar a meninos e meninas a viverem momentos que lhes permitam perceber um mundo sem a tecnologia”, aponta. Que tal uma caminhada pelo bairro? Uma viagem de acampamento? Um sorvete na padaria da esquina? Inclua momentos de conexão offline, por mais simples que sejam, no cotidiano. Não se engane: seu adolescente quer (e precisa!) de conexão Apesar de parecerem buscar isolamento, muitos jovens estão, na verdade, pedindo conexão. “Os adolescentes, verdadeiramente, não gostam de ficar sozinhos… O que querem mesmo é respeito, acolhimento, atenção, proteção, companhia para conversar”, explica. Por isso, ficar sempre fechado no quarto não é algo que deva ser naturalizado. “O isolamento do adolescente não deve ser visto como algo rotineiro, comum e natural. O isolamento deve ser investigado, porque sua presença indica que algo necessita ser conversado”, reforça. Como reabrir o diálogo com um adolescente que não sai do quarto? Para famílias que se sentem perdidas, o especialista sugere começar com gestos simples. “Comecem pela aproximação física, pelo carinho, pelo aconchego. Em seguida, se ponha à disposição para escutar e, depois, escute sem julgar”, orienta. Monteiro também destaca a importância da autoridade afetiva. “O filho quer ver em você uma pessoa que pode ajudá-lo a resolver questões que sozinho ele não resolve. Busque o tom do cuidado para falar, o ritmo do amor para conduzir essa relação”, indica. O adolescente que só fica no quarto não deve ser ignorado. O comportamento pode ser um pedido silencioso de ajuda e a presença dos adultos continua sendo o fator mais importante para quebrar esse isolamento. Isso, nenhuma tecnologia pode substituir.
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