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"textContent": "\nMeu ofício é um trabalho perigoso. Trabalhamos com emoções. Temos algumas técnicas para acessá-las, é verdade. Sabemos chorar quando estamos felizes e dar uma sonora gargalhada com o nosso coração dilacerado. Na maioria das vezes, convencemos. Denise Fraga: \"O homem feminista e antimachista\" Atuar nas emoções contrárias ao nosso estado de espírito é um desafio divertido e pode até nos alegrar quando estamos mais tristinhas. O perigo ocorre quando somos surpreendidas por um choro que dividimos com a personagem. Uma espécie de carona que pegamos, mesmo sem querer, quando uma personagem ou uma situação vivida na ficção nos oferece um ombro amigo para a vida real. \"Só o fato de pararmos uma vez por semana para narrar a nós mesmos o que temos sido é algo muito revelador” Freepik A matéria com que lidamos para trabalhar somos nós mesmos. Não é você e é você, ao mesmo tempo. Nossa caixa de ferramentas são nossas experiências vividas, encontros com pessoas, sensações, livros lidos, músicas, filmes, peças de teatro e cenas que imaginamos a partir de histórias que nos foram narradas, matéria de que somos todas feitas, na verdade, sendo artistas ou não. Mas nós, artistas, emprestamos o que somos para desenhar aquele outro que não existe e que agora vai existir efemeramente a partir de nós. Não tem como separar completamente essa outra criatura de seu criador artista. Alguma coisa sempre vai vazar e borrar essa fronteira delicada. Corremos juntas, numa união de forças, a nossa e a da personagem. Acontece que, em algumas dessas vezes, você é levada involuntariamente a abrir uma gaveta que nunca tinha aberto antes. E uma personagem na vida de um artista pode funcionar como uma cicerone dele mesmo, fazendo-o chegar a lugares desconhecidos de si. É perigoso. E fascinante. Sempre aconselho meus amigos atores e estudantes da profissão a fazer terapia. Na verdade, aconselho todo mundo a fazer terapia. Mesmo quando o profissional não é o melhor do mundo, só o fato de pararmos uma vez por semana para narrar a nós mesmos o que temos sido é algo muito revelador. Também sou da opinião que Teatro deveria ser disciplina obrigatória nas escolas. Ao menos por um ano. Para que fosse conhecido o milagre que acontece quando uma pessoa tenta fazer o papel de outra. O Teatro é o maior exercício de alteridade que existe. Ver alguém que não é ator tentando fazer uma personagem é de uma beleza infinita. Ver alguém tentando sentir o que o outro sentiu pode operar milagres de consciência em quem faz e em quem vê. Se todos fizéssemos Teatro alguma hora da vida, tenho certeza que nos compreenderíamos bem melhor. Dia desses, precisei fazer uma cena em que improvisei carregar-me no colo como bebê. Ensaiei algumas vezes com a Denisinha no colo, um amontoado de panos enrolados. Mas quando fui apresentar para o grupo com o qual estava trabalhando, resolvi na hora fazer com minha voz anasalada o chorinho da bebê. Algo aconteceu. Foi mágico. Experimente. Pegue uma boneca da sua filha ou filho ou, melhor ainda, enrole um trouxa de panos numa manta como eu fiz. Carregue-se devagar, com cuidado. Ganhe coragem e faça do seu jeito um chorinho de bebê. Concentre-se e pense com toda a sua fé que quem está ali é você. Você, pequenininha. Aumente o choro. Desespere a dor dessa criancinha. Aconchegue seu corpinho em seu peito, nine a pequena, carregue-a com o mesmo cuidado com que você cuida ou cuidou de seu bebê, dê pequenos tapinhas em sua bundinha. Faça tudo isso chorando o tempo todo esse chorinho pequeno, esse choro que ainda é seu. Depois, vá acalmando a bebezinha. Confie. Deixe-se levar pela experiência. Sinta. Sinta dentro de você essa criancinha que chora e a mãe de si mesma que vai surgindo nessa hora. É precioso. Fui surpreendida por um misto de emoções quando comecei a chorar em meu próprio colo. Cuidei profundamente daquela criança. E foi muito bom cuidar de mim. Acalmar meu próprio choro indefeso. Era uma cena, tinha gente olhando pra mim e, mesmo assim, a experiência me levou para bem além dali. Conto aqui essa história para dividir com vocês uma oportunidade de experiência concedida pelo precioso ofício que tenho e que sinto que, com um pouco de coragem, pode ser feita por qualquer um. Aqui vai. Bom proveito.",
"title": "Denise Fraga: \"Todo mundo deveria fazer terapia\""
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