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“Cuidar da infância exige, antes, um adulto que consiga não ocupar tudo com pressa”, diz educador

Crescer - O principal portal de notícias para pais, mães e gráv… March 19, 2026
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Há palavras que não se deixam capturar por uma tradução. Palavras que resistem ao dicionário porque não querem caber em um significado único. No japonês, isso acontece com frequência. São palavras que não nomeiam apenas uma coisa, mas um estado. Não descrevem um objeto, mas uma relação. Não apontam um sentido fechado, mas uma disponibilidade diante do mundo. "A criança que pode sentir medo sem ser julgada aprende algo precioso sobre si e sobre o mundo", reflete educador Ma é uma dessas palavras. Costuma-se dizer que Ma é o espaço vazio, a pausa, o intervalo. Mas isso é pouco. Ma não é ausência, é presença em suspensão. É o tempo que não corre, o espaço que não precisa ser preenchido, o silêncio que não constrange. Ma é o entre. Entre um gesto e outro, entre uma palavra e outra, entre o que foi e o que ainda não é. Coluna de Marcelo Cunha Bueno, educador Freepik Ma é um acontecimento delicado. Surge quando algo não é apressado, quando não se ocupa tudo, quando se confia que o sentido também nasce do que não foi dito, do que não foi feito, do que ficou em aberto. Na arquitetura japonesa, Ma aparece nos espaços vazios que permitem a circulação do ar, da luz, do olhar. Na música, vive nas pausas que sustentam o ritmo. Na vida cotidiana, habita o silêncio dos trens, o intervalo respeitado numa conversa, o tempo de espera que não vira ansiedade. Ma organiza o mundo sem precisar controlá-lo. E talvez seja por isso que Ma dialogue tão profundamente com a infância. A infância vive de Ma. A criança sabe permanecer. Ela não precisa preencher todos os instantes com produtividade. Ela se demora, observa, repete, se distrai. Cria mundos inteiros a partir de um intervalo. O tempo da infância não é o tempo da eficiência, é o tempo da experiência. O problema não está na criança, mas no adulto que perdeu o contato com esse espaço interno. O adulto que teme o vazio, que se apressa diante do silêncio, que precisa explicar tudo, organizar tudo, responder a tudo. Um adulto assim encontra dificuldade em sustentar a infância do outro porque já não sustenta a própria. Reconectar-se com a infância não é regredir, é recuperar o Ma perdido. É reaprender a estar disponível, a escutar sem interromper, a olhar sem antecipar sentido, a conviver com o inacabado, aceitar que nem tudo precisa de resposta imediata. Cuidar da infância das crianças exige, antes, um adulto que reconstrua, dentro de si, esse espaço de pausa, de escuta e abertura. Um adulto que consiga não ocupar tudo com sua pressa, suas expectativas, seus medos. Que entenda que educar também é deixar espaço para que algo aconteça. Ma nos lembra que a vida não se dá apenas no que fazemos, mas também no que permitimos. Que o vínculo nasce no intervalo, que o afeto cresce quando não é sufocado, que a infância precisa de chão, mas também de respiro. Talvez educar seja, no fundo, aprender a não preencher demais, e confiar que, no espaço deixado, a vida sabe se colocar. Marcelo Cunha Bueno é um educador apaixonado pela infância. É pai do Enrique, 12 anos. Diretor da Escola Estilo de Aprender, autor dos livros 'Sopa de pai' e 'No chão da escola: por uma infância que voa' (Foto: Divulgação) Crescer

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