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Como falar com as crianças sobre imagem corporal na "era Mounjaro"?

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Quando recebi a pauta dessa reportagem, passou um filme na minha cabeça recordando todas as vezes que já disse para as minhas filhas Maria Fernanda, 8 anos, e Beatriz, 5, que estou de dieta e insatisfeita com meu corpo. Uma noite dessas, na mesa do jantar, eu servi o prato delas com arroz, feijão, batata assada, legumes e filé de frango. No meu, no entanto, coloquei apenas frango e legumes em uma quantidade pequena. “Mamãe está de dieta”, expliquei diante do olhar incrédulo delas com tão pouco alimento no prato. Como falar com as crianças sobre imagem corporal na 'era Mounjaro' Freepik Não vou negar. Vivo de dieta, faço exercícios físicos e as tais canetas emagrecedoras viraram uma tentação que ainda não me rendi. Mas, o assunto está sempre rondando as minhas rodas de amigos. Algumas mães de amigos delas estão usando e fico surpresa com os quilos perdidos em tão pouco tempo. Não há como não comentar, seja ali na porta da escola ou nas festinhas infantis. Minhas filhas ouvem tudo, claro. Ouvem também os meus lamentos quando saio da linha ou quando resisto fortemente a tentação de acompanhá-las no pastel de feira ou de um pedaço de bolo. A situação se tornou tão corriqueira que até a minha filha mais velha passou a questionar se precisava de dieta. Aos 8 anos, muitas vezes, ela se sente incomodada com a barriguinha, mesmo estando dentro das curvas de peso e altura, sem nenhum alarde feito pela pediatra. A caçula passou a me questionar se eu continuava de dieta quando me via comendo uma batata-frita, por exemplo. Meu alarme acendeu quando ela passou a falar sobre o corpo de outras pessoas na rua. Busca por canetas emagrecedoras cresce entre mães no pós-parto, revela pesquisa Canetas emagrecedoras invadem o lar das famílias O que acontece na minha casa não é um caso isolado. A cultura da perda de peso rápida virou pauta cotidiana — inclusive no pós-parto. Segundo um estudo publicado no periódico científico Journal of the American Medical Association (JAMA), o movimento de puérperas utilizando canetas emagrecedoras para acelerar a perda de peso após o parto disparou. Em 2018, os registros eram inferiores a cinco usuárias a cada 10 mil partos na Dinamarca e no Canadá. Seis anos depois, essa mesma taxa saltou para 173 pessoas por 10 mil nascimentos. Ao todo, entre as mais de 382 mil gestações analisadas, 1.549 mulheres recorreram às canetas no pós-parto. Esse fenômeno não é limitado ao país europeu. Médicos brasileiros também já observam uma maior procura por esses medicamentos. “Desde a popularização das medicações agonistas do GLP-1, percebo um aumento da procura por mulheres no pós-parto”, afirma o endocrinologista Carlos André Minanni, do Hospital Israelita Einstein. Falar sobre imagem corporal com as crianças sempre foi um desafio, mas ficou ainda mais complexo em um ambiente saturado por redes sociais, programas de TV e conteúdos que transformam o corpo em vitrine permanente. "Desde a popularização das medicações agonistas do GLP-1, percebo um aumento da procura por mulheres no pós-parto", afirma o endocrinologista Carlos André Minanni, do Hospital Israelita Einstein. Freepik Como virar o jogo com as crianças? São desafios de “antes e depois”, vídeos de “o que eu como em um dia”, análises de “shape” e mães influenciadoras exibindo a rápida perda de peso após o parto. Nesse bombardeio diário, a mensagem que atravessa as telas — ainda que ninguém a diga explicitamente — é simples e perigosa: ser magro é melhor. Diante desse cenário, o que podemos fazer, como pais, para que nossos filhos aprendam a amar e respeitar seus corpos — e entender que não existe um único padrão? Dê o exemplo O primeiro passo é compreender a força das nossas atitudes. “O exemplo é a ferramenta mais importante. A criança aprende muito mais pelo que vê do que pelo que ouve. Quando os adultos falam mal do próprio corpo, vivem em dieta permanente ou associam valor à magreza, isso é internalizado. Um adulto que se respeita corporalmente ensina isso sem precisar explicar”, afirma o psiquiatra e psicanalista Roberto Santoro, coordenador do Grupo de Trabalho de Saúde Mental da Sociedade Brasileira de Pediatria. Faz todo sentido. Se as minhas filhas estão ouvindo as conversas na porta da escola, também estão aprendendo algo sobre o que significa ter um corpo. Crianças não escutam apenas palavras soltas, constroem sentido a partir da repetição. Quando falamos, uma e outra vez, que estamos “de dieta”, que “jacamos”, que “precisamos compensar”, a mensagem que pode ficar não é sobre saúde. É sobre inadequação. Corpo real, não ideal Santoro reforça que, com crianças, é fundamental tirar o corpo do lugar do desempenho e colocá-lo no lugar do cuidado. “Em vez de falar de corpo ideal, falamos de um corpo real, que brinca, corre, se cansa, sente fome e descansa.” A mudança parece sutil, mas altera completamente a lógica: o corpo deixa de ser um projeto estético e passa a ser um instrumento de experiência. Obesidade na adolescência: quando usar a caneta emagrecedora? Remédios tratam doenças Quando surgem comentários sobre medicamentos para emagrecer, como o Mounjaro, a explicação precisa ser simples e honesta. “Esses remédios são tratamentos médicos indicados para adultos em situações específicas, não ferramentas para mudar a aparência. Assim como antibióticos não são para quem “quer”, mas para quem precisa, esses medicamentos também têm critérios claros de uso. Trazer a conversa para o campo da saúde, e não da aparência, ajuda a tirar o glamour que as redes sociais insistem em colocar”, alerta a endocrinopediatra Latife Tyszler, membro do Departamento de Obesidade Infantil da Associação Brasileira para Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica. Crianças e adolescentes precisam aprender a valorizar a autoimagem Freepik Aprender os sinais do nosso corpo O respeito pelo corpo começa pela atenção ao corpo. Ensinar a criança a reconhecer fome, saciedade, cansaço, emoções e limites corporais é uma estratégia potente de prevenção. Isso significa não usar comida como castigo ou recompensa, evitar rótulos sobre aparência e valorizar rotinas de cuidado, como um sono adequado, alimentação variada, movimento e tempo de brincar. A criança precisa sentir que é amada e valorizada para além da sua imagem. Normalize as diferenças Comparar-se faz parte do desenvolvimento e tende a se intensificar, com mais consciência, a partir dos 8 anos. Cabe ao adulto ajudar a criança a atravessar esse processo. O primeiro passo é normalizar a diferença: corpos são diferentes e crescem em ritmos diferentes. O segundo é retirar o julgamento. Diferente não é melhor nem pior. O foco deve permanecer na saúde e no bem-estar, não na adequação a um padrão. Controle as telas Vivemos em uma cultura de imagens editadas e padrões irreais de beleza. Por isso, além de estabelecer limites para o tempo de tela, é essencial conversar sobre o que aparece nas redes sociais e explicar que muitos daqueles corpos são filtrados, posados ou manipulados. Também é importante orientar familiares e amigos a evitarem comentários sobre peso e aparência na frente das crianças. Corpo não é projeto de aprovação social. É lugar de saúde, de cuidado e de vida. Pela primeira vez, há mais crianças e adolescentes obesos do que desnutridos no mundo Abra espaços para a conversa Tenho aprendido que, quando minha filha pergunta se precisa de dieta, a resposta mais importante não é “não”. É perguntar de onde veio essa ideia. Quem disse? O que ela sente? Abrir espaço para a conversa talvez seja o primeiro passo para que o corpo deixe de ser um problema a resolver — e volte a ser apenas o lugar onde a vida acontece.

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