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"textContent": "\nBullying por peso na infância não é “brincadeira de criança”. É violência. E violência deixa marcas no corpo, na mente e na forma como essa criança passa a se ver no mundo. A ciência mostra que viver esse tipo de agressão aumenta o risco de ganho de peso, depressão e adoecimento ao longo da vida. Com a volta às aulas e as taxas de obesidade infantil só piorando, esse assunto delicado é algo que precisamos falar. Obesidade infantil Freepik Um terço das crianças e adolescentes terá obesidade ou sobrepeso em 2050, diz pesquisa Obesidade infantil: mães contam como lidam com o problema, que atinge cada vez mais crianças e adolescentes Quando o corpo da criança vira alvo Crianças e adolescentes com excesso de peso costumam ser alvos frequentes de gozações, apelidos cruéis, exclusão das brincadeiras, xingamentos em grupos de WhatsApp da turma e até humilhações dentro da sala de aula. Estudos mostram que eles têm maior risco de isolamento social e sofrem bullying verbal, relacional, físico e também virtual. Ou seja, não é algo pontual nem restrito ao recreio ou à aula de educação física. O ataque ao corpo pode acontecer em qualquer espaço da escola. Para a criança, a mensagem que fica é simples e devastadora: “Meu corpo é errado. A culpa é minha.” Com o tempo, muitos passam a acreditar nesses rótulos. É o que chamamos de internalização do estigma de peso. Quando isso acontece, a violência deixa de vir apenas de fora. A própria criança passa a se agredir por dentro, se chamando de preguiçosa, “sem força de vontade”, menos digna de amizade, respeito e cuidado. As cicatrizes emocionais e físicas do bullying por peso O consenso internacional sobre estigma da obesidade, publicado em 2020, é claro: o bullying por peso vai muito além de baixa autoestima. Ele está associado a depressão, ansiedade, solidão, estresse, queda da autoconfiança e até maior uso de substâncias na adolescência. Essas crianças também tendem a evitar atividades físicas e a usar a comida como forma de conforto emocional, o que pode agravar o ganho de peso ao longo do tempo. Um ponto pouco discutido é o impacto biológico desse sofrimento contínuo. Crianças e adultos expostos à discriminação por peso apresentam maior ativação do eixo do estresse, com níveis mais altos de cortisol e marcadores inflamatórios, como a proteína C reativa. Com os anos, isso se traduz em maior risco cardiometabólico e até aumento da mortalidade. Em outras palavras, o bullying não machuca apenas emocionalmente. Ele adoece o corpo. Obesidade na adolescência: taxa no Brasil é quase o dobro da média global “Motivar pela vergonha” funciona? A ciência responde: não Ainda é comum ouvir frases como: “Quem sabe sendo zoado ele cria vergonha e emagrece.” A ciência mostra exatamente o oposto. O estigma de peso está associado a mais sedentarismo, maior evitamento de exercício, pior relação com a comida e maior ganho de peso ao longo do tempo, em crianças, adolescentes e adultos. Expor a criança, comentar seu corpo em público ou usar apelidos “para ver se ela reage” não educa, não motiva e não cuida. É violência. E piora o problema. O consenso internacional também alerta para campanhas e discursos de saúde que culpabilizam exclusivamente o indivíduo, como “é só comer menos e se exercitar mais” ou “falta força de vontade”. Além de cientificamente incorretos, esses discursos reforçam a ideia de que a obesidade é uma falha moral, e não uma condição multifatorial que envolve genética, biologia, ambiente alimentar, sono, estresse e contexto social. Quando tudo é reduzido a “vergonha na cara”, o bullying encontra terreno fértil. O papel da escola: do recreio à sala dos professores A escola é um dos principais cenários onde o estigma de peso se manifesta, tanto entre alunos quanto entre adultos. Crianças e adolescentes com obesidade relatam mais bullying, piores relações sociais e maior prejuízo no aprendizado e no bem-estar escolar. Por isso, não basta não incentivar o bullying. É preciso agir ativamente para preveni-lo. Algumas atitudes concretas que fazem diferença: Política clara contra bullying por peso: incluir explicitamente a discriminação por peso no código de conduta da escola, ao lado de racismo, homofobia e outras formas de violência. Essa mensagem precisa aparecer em reuniões de pais, murais e projetos pedagógicos. Formação de professores e equipe: professores, coordenação, funcionários de cantina e do recreio devem ser capacitados para reconhecer o estigma de peso, evitar comentários sobre corpos e intervir de forma rápida, firme e acolhedora. Cuidado com linguagem e práticas: evitar pesar alunos em público, comparar corpos nas aulas de educação física ou usar termos pejorativos. Falar de saúde de forma ampla, incluindo sono, movimento, emoções e alimentação possível, sem reduzir tudo ao número da balança. Ambiente físico e social inclusivo: garantir cadeiras, carteiras, banheiros e uniformes que atendam diferentes corpos sem constrangimento. Nas aulas de educação física, priorizar participação, prazer e diversidade de movimentos, não desempenho ou exclusão. Trabalho com os colegas: programas de educação socioemocional ajudam a desconstruir estereótipos como a ideia de que quem tem obesidade é preguiçoso, relaxado ou menos inteligente. Ensinar empatia e respeito à diversidade corporal é tão formativo quanto qualquer conteúdo acadêmico. Como família e escola podem proteger a criança Quando os pais percebem que o filho está sendo alvo de bullying por peso, alguns passos são fundamentais: Levar o relato da criança a sério, acolher o choro e evitar minimizar, como dizer “isso é besteira” ou “todo mundo passa por isso”. Não transformar a criança em um projeto de emagrecimento como resposta ao bullying. O foco deve ser proteção, bem-estar e cuidado integral, não punição disfarçada de dieta. Procurar a escola, registrar os episódios e cobrar medidas concretas, como observação no recreio, conversa com a turma, orientação aos professores e envolvimento da coordenação. Diante de sinais de sofrimento mais intenso, como isolamento, queda no rendimento, queixas físicas frequentes ou alterações de sono e alimentação, buscar apoio psicológico especializado. Por fim, é importante deixar algo muito claro. Combater o bullying por obesidade infantil não significa ignorar a saúde ou normalizar doenças. Significa separar duas coisas que não podem ser confundidas. De um lado está o cuidado com a saúde da criança, que deve ser feito com base em ciência, acompanhamento profissional e respeito. Do outro está a recusa absoluta da ideia de que um corpo maior merece menos dignidade, afeto, amizade ou oportunidades. Essa é a linha que escola, família e sociedade precisam traçar, com responsabilidade, clareza e, acima de tudo, humanidade. Estudo mostra que crianças brasileiras estão cada vez mais altas e obesas 3 receitas para levar na lancheira Ideias de lancheiras para as crianças Reprodução E aproveitando essa época de volta às aulas, segue abaixo três opções de receitas para levar na lancheira escolar! 1. Muffin de banana e aveia Ingredientes (rende ~8–10 muffins pequenos) 2 bananas bem maduras amassadas 2 ovos 1 xícara de aveia (pode misturar flocos finos e farinha de aveia) 1 colher de chá de fermento em pó Canela a gosto 2–3 colheres de sopa de óleo ou azeite 2–3 colheres de sopa de leite (pode ser vegetal) Modo de preparo Misturar bem banana e ovos até ficar homogêneo. Acrescentar aveia, óleo, canela e por último o fermento, ajustando com um pouco de leite até formar massa cremosa. Distribuir em forminhas de muffin e assar a 180 °C por cerca de 15–20 minutos, até dourar. Sugestão lancheira: 1–2 muffins + fruta fresca (uva, morango ou maçã em fatias). 2. Sanduíche integral de frango desfiado Ingredientes (1 sanduíche) 2 fatias de pão integral 2–3 colheres de sopa de frango desfiado cozido 1 colher de sopa de cenoura ralada fina 1 colher de sopa de iogurte natural ou maionese caseira para dar liga Folhas de alface ou outra verdura que a criança aceite Sal e ervas a gosto Modo de preparo Misturar frango desfiado, cenoura ralada e iogurte, temperando levemente. Montar o sanduíche com a pasta e as folhas verdes entre o pão. Cortar em dois ou em quadradinhos para facilitar o consumo. Sugestão lancheira: sanduíche + tomatinhos-cereja ou palitos de cenoura. 3. Homus com palitos de legumes e pão Ingredientes para base de homus (rende várias porções) 1 + 1/2 xícara de grão-de-bico cozido 2–3 colheres de sopa de tahine (opcional, pode reduzir para paladar infantil) Suco de 1/2 limão 1/2 dente de alho (ou sem alho, se a criança não gostar) 1 colher de chá de sal Água do cozimento para ajustar textura Modo de preparo Bater grão-de-bico, tahine, limão, alho e sal, adicionando um pouco da água do cozimento até virar um creme espesso. Guardar em pote fechado na geladeira por até alguns dias. Sugestão lanches 2–3 colheres de sopa de homus em potinho com tampa. Palitos de cenoura/pepino para mergulhar. Alguns cubinhos de pão integral ou torradinha + uma fruta (ex.: banana ou tangerina). Paula Pires é especialista em Endocrinologia, membro da Endocrine Society, Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e da Associação Brasileira para Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO). Também é idealizadora do projeto \"Médicos na Cozinha\" e editora do livro \"Médicos na Cozinha\" Arquivo pessoal",
"title": "Bullying por peso na infância é violência — e deixa marcas para a vida toda"
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