"Essa ideia de que tudo depende só de você é falsa, perigosa, faz adoecer e pode até matar", alerta terapeuta familiar
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February 16, 2026
Tenho viajado pelo Brasil escutando as pessoas dizerem que está muito difícil ter esperança. Temos vivido avessos civilizatórios importantes, chocantes, que nos deixam muito mais do que cabisbaixos. Numa rotina que cobra de nós mais do que temos para dar, ainda nos deparamos com um mundo que parece esfarelado demais. Alexandre Coimbra: "Quando os filhos desenham o que não conseguimos ver" Alexandre Coimbra: "Quando o texto de um jovem me faz renascer em esperança" Assim, a desesperança aparece como aquela visitante que parece proprietária de um terreno em que antes havia uma brecha para o sorriso. A escuridão sabe nascer aos poucos. Ela vem sorrateira, oferecendo faíscas de luz como alternativas aos inevitáveis momentos sombrios. Não é de hoje a sensação de que a vida anda mais difícil. Nossos adoecimentos mais vorazes têm relação com coisas maiores do que nós. "Essa ideia de que tudo depende só de você, da sua força de vontade e da sua motivação ou gratidão pela vida é falsa, perigosa, faz adoecer e pode até matar" Freepik A desmotivação com o trabalho pode ter relação com experiências de assédio moral que ainda não foram reconhecidas pelo ambiente. O afastamento emocional em um casamento pode ser consequência de falas e atitudes que machucam, humilham, que vão impedindo a pessoa de se sentir minimamente em paz ao lado daquele ou daquela com quem divide a vida. Uma criança negra pode ter problemas sérios de aprendizagem escolar porque vive o racismo em atos sutis que degeneram sua atenção, concentração e memória. Uma mãe-solo pode explodir em gritos com seu filho, apesar de todos os manuais de parentalidade não violenta, porque está sendo pressionada a terminar um relatório para o trabalho, mas não consegue se concentrar porque o ex-marido não pagou a pensão e o boleto vence no dia seguinte. Um adolescente gordo que começa a pensar em se afastar de todos e não comparecer ao churrasco do fim de semana sofre com uma cultura que celebra apenas alguns tipos de corpos, e diminui o que ele é, o que ele consegue ser, o que não pode ser trocado simplesmente na imediatez de uma compra de mercadoria. As dores vão se acumulando porque a vida é complexa, porque as variáveis que fundam os sofrimentos não são únicas, nem simples, nem dependem exclusivamente de cada uma e cada um de nós. Essa ideia de que tudo depende só de você, da sua força de vontade e da sua motivação ou gratidão pela vida é falsa, perigosa, faz adoecer e pode até matar. Entender que não é tudo culpa sua pode ajudar a abrir janelas de compreensão e de enfrentamento bastante novas, necessárias e mais verdadeiras com a complexa organização do mundo em que vivemos. A esperança não é um conceito individual, mas uma construção coletiva. Eu sei que fundamental é mesmo o amor, mas esse amor não pode ser ingênuo: é impossível esperançar sozinho. Alexandre Coimbra Amaral é mestre em Psicologia pela PUC do Chile, palestrante, escritor, terapeuta familiar e de casais. Pai de Luã, 15, Ravi, 13, e Gael, 8. Colunista do Valor Econômico e consultor de saúde mental em escolas e empresas Crescer
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