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"A criança que pode sentir medo sem ser julgada aprende algo precioso sobre si e sobre o mundo", reflete educador

Crescer - O principal portal de notícias para pais, mães e gráv… February 14, 2026
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O medo do escuro raramente é apenas sobre a ausência de luz. Ele trata de algo mais profundo, mais antigo e mais humano. Fala do desconhecido, do que não se vê, do que ainda não tem nome. "Quando não estamos inteiros, a criança percebe e as telas ocupam rapidamente o lugar do colo", alerta educador Quando uma criança diz que tem medo do escuro está dizendo, à sua maneira, que o mundo ainda é grande demais para atravessar sozinha. O problema começa quando o adulto tenta resolver esse medo rapidamente. Quando acende a luz para silenciar o choro, quando diz que não é nada, quando explica demais, preocupa-se demais, apressa demais. Na tentativa de proteger, acaba ensinando que sentir medo é errado, exagerado ou inconveniente. E a criança aprende, pouco a pouco, a esconder aquilo que sente. Educardo reflete sobre acolhimento Freepik O medo do escuro é um convite. Um convite à presença, à escuta, ao corpo que fica por perto. Não para eliminar o medo, mas para atravessá-lo junto. Porque crescer não é deixar de sentir medo, mas aprender que não se está só quando ele aparece. Há uma tendência adulta de querer preparar a criança para um mundo duro, competitivo e iluminado demais. Um mundo onde não há espaço para fragilidades. Mas a infância não é treinamento para a vida adulta, a infância é vida e, nela, o medo tem função: ele organiza, protege, sinaliza, ensina limites, pede cuidado. Quando respeitamos o medo do escuro, respeitamos também a singularidade da criança. Cada uma sente de um jeito. Algumas precisam de silêncio, outras, de uma luz baixa, outras, de uma história, outras, apenas de alguém sentado ao lado da cama. Não existe fórmula, existe relação. O que sustenta uma criança não é a ausência de medo, mas a presença de um adulto que não se assusta com ele. "Criança não nasce para realizar os sonhos que ficaram pelo caminho dos adultos", diz educador Um adulto que não ridiculariza, não minimiza, não abandona. Um adulto que permanece, que diz com o corpo e com o gesto: eu estou aqui. É nesse lugar que a educação acontece. Não na correção imediata do comportamento, mas na construção de segurança interna. A criança que pode sentir medo sem ser julgada aprende algo precioso sobre si e sobre o mundo. Aprende que suas emoções têm lugar, que pode confiar, que não precisa endurecer para existir. O escuro, então, deixa de ser apenas ameaça, vira território de imaginação, de criação, de sonho. Vira espaço onde a criança experimenta o mundo interno, organiza pensamentos, cria narrativas. Quando o adulto não invade esse espaço com pressa ou controle, ele se torna fértil. Talvez o maior gesto educativo diante do medo do escuro seja simples e difícil ao mesmo tempo. Ficar. Acompanhar. Sustentar. Não para apagar o medo, mas para mostrar que ele pode ser atravessado com cuidado. Porque educar não é formar crianças sem medo, e sim formar crianças que saibam que, mesmo no escuro, não estão sozinhas. Marcelo Cunha Bueno é um educador apaixonado pela infância. É pai do Enrique, 12 anos. Diretor da Escola Estilo de Aprender, autor dos livros 'Sopa de pai' e 'No chão da escola: por uma infância que voa' (Foto: Divulgação) Crescer

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