Análise de DNA revela causa da morte de dois irmãos Médici há 500 anos, encerrando mistério
Galileu [Unofficial]
July 2, 2026
Uma análise de DNA extraído dos restos mortais de dois irmãos da conhecida família Médici confirmou que ambos morreram de malária, colocando fim a um mistério que atravessou quase cinco séculos. O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade Yale, nos Estados Unidos, em parceria com paleopatologistas da Universidade de Pisa, na Itália. Os resultados aparecem em um artigo publicado no dia 17 de junho na revista iScience. A equipe encontrou evidências do protozoário Plasmodium falciparum, responsável pela forma mais grave da malária, nos ossos do cardeal Giovanni de Medici e do grão-duque Francesco de Medici. No caso de Francesco, os pesquisadores também identificaram vestígios de uma segunda espécie do parasita, o Plasmodium malariae, descartando de forma definitiva a hipótese de que ele teria sido envenenado com arsênico. Para além de esclarecer o episódio histórico, as descobertas ainda oferecem novas pistas sobre a evolução da malária ao longo dos séculos. “Nós podemos usar métodos avançados de laboratório de DNA antigo para mapear a história desse patógeno mortal”, afirma Serena Tucci, professora de antropologia em Yale e autora sênior do estudo, em comunicado. Fim de um mistério renascentista A morte de Francesco de Medici, em 1587, sempre despertou suspeitas. O governante da Toscana morreu poucos dias depois da esposa, Bianca Cappello, após apresentar febres recorrentes. Como seu irmão e rival político, o cardeal Ferdinando de Medici, assumiu o poder logo em seguida, espalhou-se o rumor de que o casal teria sido assassinado por envenenamento com arsênico. Cardeal Giovanni de Medici (à esquerda) e Grão-Duque Francesco de Medici (à direita) Wikimedia Commons Esta nova investigação, porém, reforça o que médicos da corte já descreviam na época: os sintomas eram compatíveis com a chamada "febre terçã", caracterizada por episódios de febre alta que retornam em intervalos regulares e hoje reconhecida como uma manifestação típica da malária. Os registros históricos também mostram que os pacientes foram submetidos a sangrias — retirada de sangue, prática médica comum na época, mas atualmente considerada ineficaz e potencialmente prejudicial. “Podemos agora afirmar com certeza científica que a malária, e não o envenenamento, matou o grão-duque Francesco de Médici”, declara Valentina Giuffra, professora de História da Medicina da Universidade de Pisa e coautora do estudo. Ela destaca que os resultados confirmam tanto os relatos históricos quanto análises imunológicas anteriores realizadas pela equipe italiana. Resquícios de malária no DNA antigo Para chegar às conclusões, os pesquisadores extraíram DNA de quatro amostras de costelas dos irmãos. Em Giovanni, que morreu aos 19 anos em 1562, foi encontrada uma variante até então desconhecida de Plasmodium falciparum. Essa espécie é responsável pelos casos mais graves de malária em humanos e continua sendo a principal causa de mortes provocadas pela doença atualmente. Já Francesco apresentava sinais de infecção por duas espécies diferentes do parasita: P. falciparum e P. malariae. A presença simultânea de ambas pode indicar uma coinfecção — quando uma pessoa é infectada por mais de um agente causador de doença ao mesmo tempo —, embora os autores ressaltem que estudos adicionais ainda são necessários para confirmar esse cenário na Itália do século 16. A cepa identificada em Giovanni também chamou atenção por apresentar duas mutações genéticas inéditas, que os pesquisadores acreditam ter surgido durante a expansão do parasita pela Europa. “O estudo do DNA antigo nos oferece a oportunidade não apenas de diagnosticar malária em restos mortais de indivíduos do passado, mas também de compreender a evolução das espécies de malária. Isso pode ajudar os cientistas a entenderem melhor como o patógeno se adaptou ao longo do tempo”, explica Alexander Ochoa, primeiro autor do estudo e pesquisador da Universidade Yale. Circulação do parasita entre os membros da família As conclusões também ajudam a explicar por que diversos integrantes da família Médici morreram após viagens a regiões pantanosas da Toscana, onde os mosquitos transmissores da malária eram abundantes durante o Renascimento. Placa com o nome do túmulo do Grão-Duque Francesco de Medici, que faleceu vítima de malária em 1587 Valentina Giuffra Giovanni provavelmente contraiu a doença em uma viagem ao litoral toscano ao lado da mãe, Eleonora de Toledo, e do irmão Garzia. Os três morreram em poucas semanas. Já Francesco e Bianca Cappello adoeceram após visitar uma propriedade cercada por áreas alagadas utilizadas para o cultivo de arroz, ambiente propício para a proliferação dos mosquitos. Na época, a malária era comum em grande parte da Itália Central e permaneceu endêmica na região até o século 20, quando campanhas de controle eliminaram a transmissão local. Apesar disso, a doença continua sendo um grave problema de saúde pública em diversas partes do mundo. Passado pode ajudar a combater doenças atuais Para os pesquisadores, o valor da descoberta vai além da resolução de um enigma histórico. Ao reconstruir geneticamente cepas antigas do parasita, os cientistas conseguem acompanhar sua evolução e entender como ele mudou ao longo do tempo, produzindo informações que podem contribuir para pesquisas atuais sobre a doença. “Nosso trabalho não apenas ajuda a esclarecer eventos do passado, como também gera dados que podem orientar pesquisas atuais e futuras sobre a malária, que continua sendo uma doença mortal e afeta milhões de pessoas em todo o mundo", ressalta Adalgisa Caccone, pesquisadora do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade Yale e coautora do estudo. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), estima-se que, em 2024, 282 milhões de novos casos de malária tenham sido identificados em todo o mundo, além de 610 mil mortes pela doença. Neste mesmo período, o Ministério da Saúde registrou quase 142 mil casos confirmados só no território brasileiro.
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