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  "textContent": "\nA ideia de colocar mais de 1,7 milhão de satélites em órbita da Terra representa uma ameaça sem precedentes para a astronomia e pode comprometer a capacidade humana de observar o Universo a partir do solo. A conclusão é de um novo estudo do ESO (Observatório Europeu do Sul), que propõe limitar o número total de satélites em órbita a cerca de 100 mil unidades pouco brilhantes, invisíveis a olho nu, para evitar danos permanentes às observações astronômicas. Atualmente, o número de satélites em órbita está em torno de 14 mil. Mas há propostas de empresas pelo mundo que planejam expandir e muito esse número, chegando a um total próximo dos 1,7 milhão questionados pelo ESO. Em janeiro deste ano, a empresa Starlink, do bilionário sul-africano Elon Musk, entrou com um pedido para lançar, sozinha, mais 1 milhão de satélites, destinados a centros de dados espaciais. O relatório também considerou iniciativas como as constelações Cinnamon, da empresa ESpace, e CTC-1 e CTC-2, desenvolvidas na China. O novo estudo, que será publicado na revista Astronomy & Astrophysics, é o primeiro a calcular os efeitos combinados de grandes constelações de satélites sobre o brilho natural do céu. Usados para serviços como internet, comunicação e armazenamento de dados, esses satélites podem cruzar o campo de visão dos telescópios, espalhando luz pela atmosfera, reduzindo o contraste entre os objetos celestes e o fundo escuro do espaço. Essa característica os torna uma pedra no sapato de astrônomos, já que dificulta a observação de galáxias distantes, exoplanetas e asteroides. “Até agora, conseguimos lidar com a situação, mas está piorando”, afirma o astrônomo Olivier Hainaut, autor do estudo, em comunicado à imprensa. “Mesmo com iniciativas adotadas por algumas empresas para reduzir o brilho dos satélites, as propostas atuais estão indo além do limite do que a astronomia pode suportar.” As simulações indicam que, em boa parte da noite, centenas de satélites seriam visíveis simultaneamente e, em determinados momentos, esse número poderia chegar a milhares. Essa quantidade é comparável ao total de estrelas que uma pessoa consegue enxergar a olho nu em um céu escuro e sem poluição luminosa. Satélites-espelho transformam a noite em dia Entre as propostas consideradas, uma das que mais preocupam os pesquisadores é a da startup norte-americana Reflect Orbital. A empresa pretende desenvolver satélites equipados com grandes superfícies refletoras para direcionar luz solar a regiões específicas da Terra durante a noite. O objetivo é fornecer iluminação artificial para atividades comerciais e industriais. Segundo o estudo, esses satélites seriam os objetos artificiais mais brilhantes já colocados em órbita. Quando um feixe refletido incidisse diretamente sobre uma região, cada satélite poderia parecer até quatro vezes mais brilhante que a Lua cheia. Mesmo fora do feixe principal, continuariam tão luminosos quanto Vênus, um dos corpos mais brilhantes do céu noturno. Os cálculos de Hainaut apontam que, caso a constelação planejada de 50 mil satélites seja concluída, centenas deles estariam permanentemente visíveis no céu e fariam o brilho natural da noite aumentar entre três e quatro vezes. Em centros urbanos com intensa iluminação artificial, como Munique, na Alemanha, esses satélites poderiam se tornar praticamente os únicos pontos luminosos perceptíveis no céu. Rastros comprometem os telescópios O impacto das megaconstelações não se limita ao brilho do céu. Sempre que um satélite atravessa o campo de visão de um telescópio durante uma exposição fotográfica, ele deixa um traço luminoso na imagem. Como os satélites refletem muito mais luz do Sol do que objetos extremamente distantes do Universo, esses rastros podem ocultar completamente informações científicas importantes. “Os satélites, iluminados pelo Sol, são muito mais brilhantes do que as galáxias distantes. Quando um satélite cruza o que observamos, ele deixa um rastro brilhante em nossa imagem, ofuscando tudo o que estiver atrás dele”, explica Hainaut. Para estimar esses impactos, o pesquisador e sua equipe simularam a posição, o movimento e o brilho de todas as constelações atualmente existentes e das que já foram propostas. As projeções mostram que o VLT (Very Large Telescope), um dos principais observatórios do ESO instalado no deserto do Atacama, no Chile, poderia registrar dezenas de rastros de satélites em cada imagem obtida poucas horas após o anoitecer. Em alguns casos, quase um terço do campo observado seria perdido. Os efeitos seriam ainda mais severos em equipamentos especializados em grandes levantamentos do céu, como o Observatório Vera C. Rubin, nos Estados Unidos. Caso os satélites sejam um pouco mais brilhantes do que o previsto, parte significativa das imagens poderá tornar-se inutilizável durante várias horas todas as noites. Com base nas simulações, Hainaut conclui que a única forma de preservar a astronomia terrestre é estabelecer um limite global para o número de satélites em órbita, aliado a exigências para reduzir seu brilho. Segundo ele, cerca de 100 mil satélites suficientemente fracos representariam um impacto comparável às perdas técnicas já enfrentadas rotineiramente pelos observatórios. “Este não é um número rígido, como 99.999 ser bom e 100.001 ser ruim. Claramente, eu preferiria 50 mil. Mas 100 mil causa perdas no mesmo nível de outras perdas técnicas, como falhas de equipamentos”, descreve o autor. Ele ressalta, porém, que esse teto só seria viável caso os satélites fossem pouco luminosos. Se parte deles permanecer visível a olho nu, o número aceitável precisaria ser ainda menor. Debate vai além da astronomia Além dos prejuízos científicos, o estudo destaca que as megaconstelações podem gerar impactos ambientais e sociais ainda pouco compreendidos. A poluição luminosa provocada por satélites muito brilhantes pode interferir nos ritmos biológicos de animais e seres humanos, enquanto o grande número de lançamentos aumenta as emissões associadas aos foguetes e a reentrada dos equipamentos na atmosfera também produz poluentes. “O envio de milhares de satélites tem implicações econômicas, ecológicas e astronômicas”, pontua Hainaut. “Meu trabalho é astronomia, então eu quantifico os efeitos na astronomia. Espero que outros avaliem os demais impactos em suas áreas de especialização.” As propostas mais ambiciosas da SpaceX e da Reflect Orbital estão atualmente sob análise da FCC (Comissão Federal de Comunicações), órgão regulador dos Estados Unidos responsável por autorizar esse tipo de operação. O estudo serviu de base para o posicionamento oficial apresentado pelo ESO, em parceria com a Royal Astronomical Society e a União Astronômica Internacional. O diretor-geral do ESO, Xavier Barcons, defende que a expansão da infraestrutura espacial precisa ser conciliada com a preservação da capacidade de estudar o Universo: “A astronomia gera um enorme valor para a humanidade, incluindo benefícios científicos, técnicos, econômicos e educacionais. O grande número de satélites planejados para a órbita baixa da Terra ressalta a necessidade de limitar os lançamentos futuros e de que astrônomos, engenheiros, operadores de satélites e outras partes interessadas trabalhem juntos para adotar medidas rigorosas de mitigação”.",
  "title": "Plano de ter 1,7 milhão de satélites no espaço é ameaça grave à astronomia, diz estudo"
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