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"textContent": "\nO maior acelerador de partículas do planeta, o LHC (Grande Colisor de Hádrons), instalado na fronteira entre a França e a Suíça e operado pelo CERN (Centro Europeu para Pesquisas Nucleares), entrou, nessa segunda-feira (29), em um período de manutenção e modernização que deve durar até 2030. Ao fim das obras, o instrumento voltará a funcionar em uma versão mais poderosa, capaz de produzir um volume muito maior de colisões entre partículas e ampliar as chances de revelar fenômenos ainda desconhecidos da física, como a natureza da matéria escura. A interrupção faz parte da chamada Terceira Parada Longa (LS3), a maior intervenção já realizada no complexo desde o início da sua construção, em 1998. O projeto inclui substituição de equipamentos, reformas estruturais e instalação de tecnologias que transformarão o LHC no HiLumi LHC (Grande Colisor de Hádrons de Alta Luminosidade). Mesmo com o desligamento, o equipamento não deixará de render descobertas, uma vez que os pesquisadores continuarão trabalhando na análise dos dados acumulados ao longo dos últimos anos de operação. O que é o LHC? O Grande Colisor de Hádrons é um acelerador de partículas — uma máquina que impulsiona partículas subatômicas, como prótons, até velocidades próximas à da luz antes de fazê-las colidir. Essas colisões reproduzem, em escala microscópica, condições semelhantes às que existiam instantes após o Big Bang, permitindo que cientistas investiguem como o Universo surgiu e como a matéria é formada. Este equipamento funciona em um túnel circular de 27 quilômetros de extensão, localizado cerca de 100 metros abaixo do solo. Para acelerar as partículas, utiliza ímãs supercondutores, dispositivos capazes de conduzir eletricidade praticamente sem perdas quando resfriados a temperaturas extremamente baixas. Engenheiros civis trabalham em melhorias para transformar o Grande Colisor de Hádrons no Grande Colisor de Hádrons de Alta Luminosidade, aumentando significativamente a taxa de colisões de partículas da instalação CERN Desde que entrou em operação, em 2008, o LHC se tornou um dos instrumentos científicos mais importantes da história. Seu feito mais conhecido ocorreu em 2012, quando os experimentos ATLAS e CMS confirmaram a existência do bóson de Higgs, partícula prevista quase 50 anos antes e responsável por explicar como outras partículas fundamentais adquirem massa. A descoberta rendeu o Nobel de Física de 2013 aos físicos Peter Higgs e François Englert. Além disso, o acelerador permitiu a descoberta de dezenas de novas partículas, aprofundou estudos sobre a diferença entre matéria e antimatéria e forneceu medições importantes para diversas áreas da física e da astrofísica. Por que o acelerador precisa ser desligado? A paralisação permitirá uma modernização completa do acelerador e de seus detectores. Segundo o CERN, serão substituídos cerca de 1,2 quilômetro de ímãs e outros componentes do acelerador. Paralelamente, dezenas de obras serão realizadas em diferentes instalações do laboratório, incluindo reformas na rede elétrica, sistemas de segurança e outras áreas experimentais. “O LS3 representa um empreendimento logístico e de engenharia enorme e complexo”, afirma Jean-Philippe Tock, responsável pela coordenação da parada, em comunicado à imprensa. “Só no LHC, 1,2 km de ímãs e componentes serão removidos e substituídos por novos equipamentos.” Os detectores ATLAS e CMS também passarão por uma ampla atualização. Na prática, eles serão reconstruídos para operar em um ambiente mais robusto, capaz de registrar centenas de colisões praticamente ao mesmo tempo. O que muda no HiLumi LHC? A principal mudança será o aumento da chamada luminosidade. Apesar do nome, o termo não tem relação com brilho. Em física de partículas, luminosidade representa a quantidade de colisões que um acelerador consegue produzir em determinado intervalo de tempo. O HiLumi LHC deverá elevar essa capacidade em até dez vezes em relação ao projeto original. Com isso, os cientistas poderão reunir conjuntos de dados muito maiores e observar fenômenos extremamente raros que hoje passam despercebidos. Enquanto o LHC atual registra cerca de 60 colisões sempre que dois feixes de prótons se cruzam, a nova versão deverá produzir entre 140 e 200 colisões nesse mesmo intervalo. No total, serão bilhões de interações por segundo. Engenheiros civis trabalham em melhorias para transformar o Grande Colisor de Hádrons no Grande Colisor de Hádrons de Alta Luminosidade, aumentando significativamente a taxa de colisões de partículas da instalação Samuel Joseph Hertzog/CERN O volume de informações será tão grande que nem todos os eventos poderão ser armazenados. Para lidar com esse desafio, novos sistemas automatizados, apoiados por inteligência artificial, selecionarão em tempo real quais colisões apresentam maior potencial científico. Ainda assim, a decisão final continuará dependendo dos pesquisadores. “A IA não substitui os físicos”, ressalta Nedaa-Alexandra Asbah, pesquisadora do experimento ATLAS, em entrevista à AFP. “Trata-se de uma ferramenta poderosa que nos ajuda a fazer melhor uso dos dados.” Em busca das maiores perguntas da física A expectativa é que o novo acelerador aprofunde o estudo do bóson de Higgs e aumente significativamente as chances de encontrar evidências de fenômenos que ainda escapam ao chamado Modelo Padrão, a teoria que descreve as partículas fundamentais conhecidas e suas interações, mas que não consegue explicar toda a composição do Universo. Uma dessas lacunas envolve a matéria escura, substância invisível cuja existência é inferida pelos efeitos gravitacionais observados em galáxias e aglomerados, mas que jamais foi detectada diretamente. Estima-se que toda a matéria comum — estrelas, planetas, gases e seres vivos — represente apenas cerca de 5% do Universo. Os outros 95% estariam distribuídos entre matéria escura e energia escura, dois componentes que permanecem entre os maiores enigmas da cosmologia moderna. Outro objetivo é observar, pela primeira vez, a produção simultânea de dois bósons de Higgs. Segundo os pesquisadores, entender como essas partículas interagem entre si pode revelar pistas sobre os primeiros instantes após o Big Bang e sobre a evolução inicial do Universo. “Queremos procurar novas partículas”, resume Filip Moortgat, coordenador de operações do detector CMS, à AFP. Ciência continua, mesmo sem colisões Embora nenhum feixe de partículas circule durante a modernização, a atividade científica do CERN não será interrompida. Pesquisadores continuarão analisando o enorme banco de dados acumulado durante os últimos anos, o que deve resultar em novas publicações e descobertas antes mesmo do retorno do acelerador. Paralelamente, engenheiros e técnicos prepararão toda a infraestrutura do complexo para o reinício gradual das operações. Inicialmente, o projeto prevê a retomada das atividades nos laboratórios do acelerador para 2028, antes do início de funcionamento do HiLumi LHC em 2030. “O LHC superou todas as nossas expectativas”, observa Oliver Brüning, diretor de Aceleradores e Tecnologia do CERN, no comunicado. “Por quase duas décadas, transformou nossa compreensão do Universo e inspirou gerações de cientistas, engenheiros e cidadãos em todo o mundo. Hoje, nos despedimos do LHC como o conhecemos, enquanto nos preparamos para receber seu sucessor.”",
"title": "Por que o maior acelerador de partículas do mundo parou — e ficará assim até 2030"
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