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  "textContent": "\nDurante muito tempo, parte importante da expansão agropecuária brasileira foi sustentada pela lógica de que abrir novas áreas era mais barato do que recuperar terras degradadas, investir em produtividade ou adotar sistemas mais eficientes de produção. Esse raciocínio, que tem começado a mudar, ajudou a moldar a ocupação econômica do país nas últimas décadas, especialmente em regiões de fronteira agrícola. No entanto, essa conta não leva em consideração as externalidades geradas pela expansão agropecuária em áreas de floresta. O mercado internacional tem olhado mais ativamente para essas externalidades e começa a enxergar o desmatamento como um fator de risco econômico, financeiro e produtivo. Hoje, investidores, tradings, seguradoras, bancos e grandes compradores internacionais precisam avaliar o desmatamento sob a ótica da estabilidade de longo prazo das cadeias produtivas. A lógica é relativamente simples: não existe agronegócio competitivo em um cenário de colapso hídrico, degradação climática e instabilidade produtiva. O debate deixou de ser apenas ambiental e passou a ser uma discussão sobre resiliência econômica, segurança alimentar e capacidade de manter acesso aos mercados mais valiosos do mundo. Não por acaso, uma das formulações mais precisas sobre esse novo cenário aparece justamente em uma das discussões que embasaram este artigo: “não investir em natureza é colocar valor comercial de produção em risco”. Os sinais dessa mudança já são concretos. O relatório The Resilience Dividend, da The Nature Conservancy, mostra que apenas cinco commodities de alto risco de desmatamento – soja, carne bovina, café, cacau e óleo de palma – já representam mais de 20% do valor das importações agrícolas da União Europeia. Ao mesmo tempo, o continente depende fortemente de poucos países produtores para garantir abastecimento dessas cadeias, tornando-se altamente vulnerável a choques climáticos, secas prolongadas e perdas de produtividade. Em 2022, a combinação entre guerra na Ucrânia, secas na América Latina e problemas de oferta agrícola contribuiu para uma inflação recorde de alimentos de 10,6% na União Europeia. Entre 2022 e 2024, interrupções na produção de cacau na África Ocidental provocaram um aumento de 400% nos preços da commodity e pressionaram em 18% os preços do chocolate no mercado europeu. O mercado internacional começou a associar instabilidade produtiva à instabilidade climática, diretamente vinculada ao aumento do desmatamento, que historicamente é tratado como parte da dinâmica de expansão produtiva, mas que, hoje, é reconhecido como responsável pela perda de importantes serviços ambientais que geram resiliência. A destruição de florestas e ecossistemas naturais afeta diretamente os serviços ambientais que sustentam a produção agrícola: chuva, regulação térmica, fertilidade do solo, disponibilidade hídrica e estabilidade climática. Quando esses sistemas entram em desequilíbrio, os custos aparecem rapidamente na cadeia produtiva. A necessidade de irrigação aumenta, o estresse térmico reduz produtividade, pastagens degradam mais rápido e eventos extremos passam a comprometer safras, logística e previsibilidade de produção. O próprio relatório da TNC apresenta números bastante contundentes sobre isso. Segundo o estudo, o desmatamento na Amazônia e no Cerrado já reduziu em 6,6% a produtividade da soja brasileira, gerando perdas estimadas em US$ 760 milhões. O documento mostra ainda que áreas agrícolas localizadas até 100 quilômetros de regiões desmatadas registram aumento médio de temperatura de 3°C, intensificando o estresse térmico sobre as lavouras. Em outras palavras, o desmatamento deixa de ser um problema “ambiental” e passa a afetar diretamente a rentabilidade agrícola. Essa percepção vem sendo reforçada por estudos científicos brasileiros. Pesquisa publicada na Nature Communications demonstrou que o desmatamento na Amazônia reduz chuvas e receitas agrícolas em escala regional, criando um cenário descrito pelos autores como um “jogo econômico de soma negativa”. Os ganhos pontuais obtidos com abertura de novas áreas acabam sendo superados pelas perdas sistêmicas provocadas pela degradação climática e hídrica. O estudo estima que a continuidade do desmatamento pode gerar perdas agrícolas de até US$ 1 bilhão por ano apenas na parte sul da Amazônia brasileira. Outro levantamento, desenvolvido pelo CPI/PUC-Rio e Amazônia 2030, aponta que a redução das chuvas associada ao desmatamento já afeta diretamente setores estratégicos da economia nacional, incluindo agricultura e geração hidrelétrica. Segundo o estudo, as perdas anuais decorrentes do desmatamento histórico podem chegar a US$ 91 milhões para Itaipu e US$ 117 milhões para Belo Monte. Existe ainda o risco de perda financeira que costuma receber menos atenção no debate público. O The Resilience Dividend estima que riscos ligados ao desmatamento podem representar US$ 78,6 bilhões em passivos financeiros potenciais para empresas globalmente. Entre empresas de alimentos e agricultura, estudos já projetam redução de até 26% no valor de mercado até 2030 para organizações sem estratégias robustas de mitigação climática e ambiental. Isso ajuda a explicar por que mecanismos de rastreabilidade, monitoramento e cadeias livres de desmatamento vêm se tornando centrais para bancos, seguradoras e investidores institucionais. Na prática, o mercado começa a diferenciar ativos resilientes de ativos vulneráveis. Produtores associados a cadeias rastreáveis e livres de desmatamento tendem a acessar melhores mercados, crédito mais barato e contratos mais estáveis. Já operações ligadas à conversão de vegetação nativa enfrentam risco crescente de exclusão comercial, aumento de custo financeiro, especialmente à luz de novas exigências regulatórias e perda de competitividade internacional. O próprio debate que embasou este artigo chama atenção para esse movimento ao destacar três consequências econômicas centrais do desmatamento: aumento do custo produtivo, encarecimento do custo de financiamento e deterioração das condições comerciais. Além de reduzir riscos, esse novo contexto abre espaço para uma lógica econômica mais equilibrada, na qual produtores que mantêm florestas em pé e adotam práticas produtivas responsáveis passam a ser reconhecidos e recompensados. Diferenciação de mercado, melhores condições de crédito, contratos de longo prazo e instrumentos de remuneração por serviços ambientais deixam de ser concessões e passam a funcionar como investimentos na resiliência do próprio agronegócio brasileiro. O mais importante é que o Brasil não precisa desmatar para continuar expandindo sua produção agropecuária. O país possui dezenas de milhões de hectares de pastagens degradadas e subutilizadas aptas para recuperação produtiva. Estudos clássicos sobre uso eficiente da terra mostram que apenas a intensificação de uma parcela das áreas já abertas seria suficiente para expandir significativamente a produção sem novas derrubadas. Um levantamento de Strassburg et al. demonstrou que aumentar a produtividade pecuária de 60 kg para 150 kg de carne por hectare ao ano em apenas 21% das pastagens amazônicas existentes liberaria área suficiente para expansão agrícola sem nenhum novo desmatamento. Isso altera completamente a lógica econômica da discussão. Se existe terra disponível, infraestrutura instalada e potencial de produtividade nas áreas já abertas, desmatar para produzir deixa de ser uma necessidade produtiva e passa a representar uma estratégia de risco crescente, especialmente em um cenário internacional no qual rastreabilidade e critérios socioambientais tendem a se tornar cada vez mais relevantes para comércio, crédito e investimentos. O próprio histórico brasileiro desmonta a narrativa de que conservação e crescimento econômico são incompatíveis. Entre 2004 e 2012, o Brasil reduziu em cerca de 80% as taxas de desmatamento na Amazônia enquanto o PIB agropecuário continuou crescendo. Ao mesmo tempo, experiências como a Moratória da Soja demonstraram que era possível expandir produção sem avanço sobre áreas desmatadas. O verdadeiro debate, portanto, não é mais entre produção e conservação. A questão central é qual modelo agrícola será capaz de permanecer competitivo em um mundo mais quente, mais regulado e mais sensível aos riscos climáticos. O agronegócio brasileiro depende profundamente da estabilidade climática produzida pelos próprios ecossistemas naturais que ainda possui. Florestas e savanas não são apenas ativos ambientais. São parte da infraestrutura econômica que sustenta chuva, produtividade, geração de energia, fertilidade do solo e segurança hídrica. Ignorar isso talvez seja, hoje, um dos maiores riscos econômicos para o próprio agronegócio brasileiro. Este artigo foi escrito por Marina Aragão, Líder em Economia e Finanças para Amazônia da TNC Brasil.",
  "title": "O desmatamento e o risco econômico para o agronegócio brasileiro"
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