O que é a esporotricose, doença letal em gatos que acendeu alerta em cidades paulistas
Galileu [Unofficial]
June 27, 2026
A Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo emitiu um alerta em maio para o crescimento dos registros de esporotricose em diferentes municípios paulistas. A enfermidade, provocada por fungos do gênero Sporothrix, afeta animais e pessoas e exige atenção para evitar novos casos. A esporotricose é considerada uma zoonose, ou seja, uma doença que pode ser transmitida entre animais e pessoas. Os gatos são os principais responsáveis pela disseminação do fungo, especialmente quando apresentam lesões na pele. O contágio pode ocorrer por meio de arranhões, mordidas ou do contato direto com feridas de animais infectados. A doença já matou milhares de gatos, infectou mais de 11 mil pessoas e pelo menos 200 cães na América do Sul desde seu surgimento no Brasil na década de 1990, como notou a ScienceNews. O fungo se espalhou pelo Paraguai, Chile, Argentina e, mais recentemente, no Uruguai. “O que temos agora é um surto gigantesco e contínuo de Sporothrix brasiliensis no Brasil”, destacou o micologista médico Shawn Lockhart, consultor sênior dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, durante a conferência ASM Microbe, realizada em Washington, D.C., em 7 de junho. O especialista se preocupa que o fungo se dissemine em grandes cidades como Istambul e Bangkok, onde “os gatos estão por toda parte”, e em áreas rurais dos Estados Unidos, onde grandes populações de gatos de fazenda vagam livremente. “Basta um viajante [da América do Sul] trazer seu gato consigo para que o fungo surja em qualquer lugar”, afirmou. “Isso é algo que nos preocupa muito, muito mesmo”. Sintomas Entre os gatos, a esporotricose costuma causar feridas que não cicatrizam, nódulos e secreções, principalmente na cabeça, nas patas e na cauda. Sem tratamento com antifúngicos, a infecção pode atingir o sistema respiratório e se espalhar pelo organismo. Em humanos, a doença geralmente se manifesta por lesões na pele após o contato com um animal infectado. Em pessoas com o sistema imunológico debilitado, pode evoluir para quadros graves e até ser fatal. O risco de transmissão é ainda maior porque os sintomas podem demorar a aparecer. Em 2022, autoridades de saúde relataram o caso de dois integrantes de uma família que desenvolveu a doença três anos após se mudar do Brasil para o Reino Unido. Um dos gatos da família estava infectado pelo fungo Sporothrix brasiliensis, e até mesmo o veterinário que o tratou contraiu a infecção. Alerta da Prefeitura de Cajamar Prefeitura de Cajamar Como outros fungos presentes no solo, os fungos do gênero Sporothrix são dimórficos, ou seja, podem assumir duas formas. "Ele é um bolor no frio e uma levedura no ar", explicou Lockhart. No ambiente, cresce como filamentos microscópicos chamados hifas; ao infectar pessoas ou animais, transforma-se em levedura unicelular. A maioria das infecções fúngicas ocorre pela inalação de esporos ou, no caso da esporotricose, quando eles entram na pele por arranhões ou perfurações. O diferencial do S. brasiliensis é sua capacidade de se espalhar também na forma de levedura, o que não acontece com nenhum dos outros fungos dismórficos. Segundo Lockhart, o comportamento dos gatos ajuda a explicar sua alta suscetibilidade ao fungo. “Quem tem gato sabe que eles fazem duas coisas: demonstram carinho uns pelos outros, se lambem e se acariciam, ou brigam, mordem e arranham. Essas são as duas atividades mais frequentes, e ambas permitem a transmissão do Sporothrix brasiliensis de um para o outro”. O muco contaminado eliminado pelo nariz dos gatos também representa risco após a saída do animal do ambiente. Isso porque o fungo consegue sobreviver por longos períodos em superfícies. Em testes de laboratório, o S. brasiliensis permaneceu viável por até dez semanas em discos de aço inoxidável que simulavam mesas de atendimento veterinário. Em comparação, a Candida albicans sobreviveu por cerca de 48 horas, enquanto a Candida auris resistiu por aproximadamente um mês. Essa resistência aumenta o risco de transmissão em clínicas e hospitais veterinários caso a higienização não seja completa. A boa notícia é que o fungo pode ser eliminado com produtos comuns, como água sanitária e álcool. Prevenção Especialistas destacam que medidas simples ajudam a reduzir o risco de transmissão. Manter os gatos dentro de casa e investir na castração são estratégias que diminuem a circulação dos animais e o contato com possíveis focos da doença. As autoridades também recomendam que tutores procurem assistência veterinária ao perceber sinais suspeitos nos animais. O uso de tratamentos caseiros não é indicado e pode agravar o quadro. Durante os cuidados com pets doentes, a orientação é utilizar equipamentos de proteção, como luvas, e evitar o contato do animal com outros bichos. Quem sofrer mordidas, arranhões ou tiver contato com lesões de animais possivelmente infectados deve buscar avaliação médica. Segundo a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado são essenciais para conter o avanço da doença e reduzir os riscos à saúde pública.
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