Robô da Nasa encontra possíveis traços de vida microbiana antiga em Marte
Galileu [Unofficial]
June 25, 2026
O rover Perseverance, da Nasa, detectou moléculas complexas de carbono em rochas da cratera Jezero, em Marte, ampliando as evidências de que o planeta pode ter sido habitável bilhões de anos atrás. A descoberta foi feita em uma região que já havia chamado a atenção dos cientistas por apresentar estruturas minerais semelhantes às deixadas por microrganismos em ambientes terrestres antigos. Embora os resultados estejam longe de comprovar a existência de vida marciana no passado, os pesquisadores consideram os novos dados um avanço importante na busca por respostas sobre o passado do planeta vermelho. As análises foram conduzidas com o instrumento SHERLOC, que utiliza um laser ultravioleta para identificar compostos químicos e orgânicos em rochas, no afloramento Bright Angel, localizado em um antigo leito de rio que desembocava no lago que ocupava a cratera Jezero há bilhões de anos. A descoberta ganha relevância porque ocorreu na mesma área onde o Perseverance já havia apontado, em 2024, a presença de manchas e nódulos minerais que lembravam estruturas associadas à atividade microbiana na Terra. Os resultados encontrados pela equipe de pesquisa foram publicados na quarta-feira (24) em um artigo na revista Science Advances. Carbono orgânico, mas sem resposta definitiva O composto identificado pelo rover é conhecido como MMC (carbono macromolecular). Na Terra, esse material pode estar presente em matéria orgânica fossilizada, incluindo vestígios preservados de comunidades microbianas antigas. No entanto, o mesmo composto também pode ser produzido por processos geológicos sem qualquer participação biológica. Pontos de investigação do afloramento de Bright Angel NASA/JPL-Caltech/ASU/MSSS “Ele pode ter origem em fontes biológicas, como matéria orgânica fossilizada encontrada em tapetes microbianos e carvão”, explica Ashley Murphy, pesquisadora do Instituto de Ciências Planetárias do Arizona e principal autora do estudo, em entrevista ao jornal The Guardian. “Mas também pode se formar em reações entre rochas e água ou chegar com o impacto de meteoritos.” SHERLOC aponta ainda que o carbono orgânico está associado tanto aos sedimentos originais das rochas quanto a minerais formados posteriormente pela circulação de fluidos subterrâneos. Para os pesquisadores, isso indica que a matéria orgânica pode ter sido incorporada ao ambiente marciano em diferentes momentos da história geológica da região. Ambiente que poderia sustentar vida Os cientistas consideram que o contexto geológico da descoberta é tão importante quanto o próprio material encontrado. A cratera Jezero preserva vestígios de um antigo delta fluvial, o que indica que a região já teve água líquida em abundância em um passado remoto. Esses dados reforçam a ideia de que o local pode ter oferecido condições favoráveis à vida microscópica. As texturas observadas nas rochas e os vestígios de carbono básico sugerem um ambiente potencialmente habitável, caso organismos primitivos tenham existido naquele antigo delta marciano. Outra informação relevante é a distância entre os locais de Marte onde compostos orgânicos já foram identificados. Antes do Perseverance, o rover Curiosity havia encontrado matéria orgânica na cratera Gale, a mais de 3.200 quilômetros dali. Tal distribuição ampla pode indicar que a habitabilidade e a presença de compostos orgânicos não se limitaram a uma única região, mas podem ter sido comuns em Marte bilhões de anos atrás, sugere a Science News. Ainda assim, há várias explicações possíveis para a origem desse material: ele pode ter vindo de meteoritos ou poeira cósmica, ter sido produzido por reações químicas entre água e rochas ou até ter origem biológica. Respostas dependem de amostras trazidas à Terra Apesar da empolgação em torno dos resultados, os pesquisadores reconhecem que os equipamentos disponíveis em Marte não conseguem determinar se o carbono encontrado foi produzido por organismos vivos ou por processos químicos naturais. Vale lembrar que o Perseverance já armazenou 30 amostras de rochas marcianas para uma futura missão de retorno ao nosso planeta, incluindo um núcleo contendo o carbono orgânico recém-detectado. Entretanto, dificuldades orçamentárias e mudanças de prioridade levaram a Nasa a reformular os planos originais para trazer esse material. Uma nova missão está sendo estudada para a década de 2030, enquanto a China trabalha em um projeto próprio para retornar amostras marcianas até 2031. Para Mark Sephton, geoquímico orgânico do Imperial College London e coautor da pesquisa, a importância científica dessas amostras é enorme. “O carbono macromolecular é o principal componente tanto do carbono biológico fossilizado na Terra quanto do carbono não biológico no sistema solar”, afirma, ao The Guardian. “Esses tesouros de informação são enigmas que precisam ser resolvidos. E a melhor maneira de fazer isso é em laboratórios na Terra, após a coleta das amostras.”
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