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Cogumelo 'mágico' causa melhora inesperada em paciente com Alzheimer, diz estudo

Galileu [Unofficial] June 9, 2026
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Uma mulher de 80 anos, diagnosticada com doença de Alzheimer avançada, apresentou uma melhora temporária e inesperada de diversos sintomas da doença após receber doses elevadas de cogumelos contendo psilocibina, substância psicodélica popularmente associada aos chamados “cogumelos mágicos”. O caso, descrito no dia 27 de maio na revista Frontiers in Neuroscience, chamou a atenção da comunidade científica por registrar ganhos em áreas como comunicação, mobilidade, continência urinária e interação emocional — funções que normalmente estão severamente comprometidas nos estágios finais da condição. Apesar do resultado considerado intrigante, os próprios autores fazem um alerta importante: trata-se de um relato de caso único, sem grupo de comparação e sem condições de estabelecer uma relação de causa e efeito. Em outras palavras, a pesquisa não demonstra que a psilocibina seja um tratamento realmente eficaz contra o Alzheimer nem que a substância é capaz de reverter ou atrasar a progressão da doença. Administração dos cogumelos A paciente, uma mulher nipo-americana cujo nome não foi divulgado, convivia com o diagnóstico havia cerca de dez anos. Nos cinco anos anteriores à intervenção, encontrava-se em estágio avançado da enfermidade, com fala predominantemente monossilábica, dependência para locomoção e atividades diárias, dificuldades para engolir alimentos e incontinência urinária crônica. A intervenção com os cogumelos ocorreu em uma clínica privada, dentro da legislação local, e com a autorização dos responsáveis legais da paciente. Inicialmente, ela recebeu 5 gramas de cogumelos da variedade Enigma, uma cepa conhecida pela elevada concentração de compostos psicoativos. Os efeitos imediatos foram compatíveis com o esperado para uma dose considerada muito alta. A mulher apresentou suor intenso, suspeita clínica de hipertermia (aumento anormal da temperatura corporal) e permaneceu por longo período em um estado semelhante ao sono profundo. Aglomerado de Psilocybe caerulescens, uma espécie de cogumelo psilocibino que tem a psilocibina e a psilocina como principais compostos ativos Wikimedia Commons A mudança mais surpreendente ocorreu cerca de 19 horas depois. “Aproximadamente 19 horas após a administração, a paciente iniciou espontaneamente uma conversa autobiográfica que durou várias horas”, relataram os autores. Nos dias seguintes, familiares e profissionais observaram melhorias em diferentes aspectos do funcionamento. Entre elas, estavam a recuperação da continência urinária, maior capacidade de caminhar, aumento da comunicação espontânea, maior participação em interações sociais e respostas emocionais mais expressivas. De acordo com o estudo, ela passou a reconhecer familiares com mais facilidade, voltou a realizar algumas atividades de forma independente e demonstrou capacidade de recuperar memórias contextuais. Um mês depois da primeira intervenção, parte desses ganhos ainda permanecia. Foto de um dos quartos ​​da Universidade Johns Hopkins usados ​​em estudos clínicos para determinar os efeitos da psilocibina e de outras drogas alucinógenas Wikimedia Commons Diante da manutenção de algumas melhoras clínicas, especialmente da continência urinária, os responsáveis optaram por realizar uma segunda sessão supervisionada, desta vez com 3 gramas de cogumelos contendo psilocibina. Nessa experiência, a paciente apresentou maior fluência verbal, expressões faciais mais variadas, episódios espontâneos de humor e lembranças autobiográficas carregadas de emoção. Também observaram maior agilidade ao caminhar e aumento da reciprocidade emocional. Embora o caso tenha gerado interesse, os pesquisadores ressaltam que ainda não é possível explicar exatamente por que a paciente apresentou essas mudanças. O estudo não contou com exames de neuroimagem, biomarcadores específicos da doença, testes cognitivos padronizados ou monitoramento fisiológico detalhado. Além disso, por envolver apenas uma pessoa, não é possível descartar completamente a influência de flutuações naturais do quadro clínico. Interesse pela psilocibina não é de hoje Como destaca o portal IFLScience, a psilocibina passou a ser estudada em diversas áreas da medicina nos últimos anos. Pesquisas investigam seu potencial uso no tratamento de depressão resistente, ansiedade associada a doenças graves, transtorno de estresse pós-traumático e dependência química. Quando metabolizada pelo organismo, a substância é convertida em psilocina, que atua sobre receptores cerebrais ligados à serotonina, neurotransmissor associado ao humor, à cognição e à percepção. Estudos anteriores sugerem que esse mecanismo pode favorecer a chamada plasticidade neural (a capacidade do cérebro de reorganizar conexões entre neurônios), além de influenciar grandes redes cerebrais responsáveis por memória, atenção e processamento emocional. Até agora, porém, a maior parte das pesquisas envolvendo pessoas com Alzheimer concentrou-se no tratamento de sintomas como ansiedade e depressão associados à doença, e não na tentativa de recuperar funções cognitivas perdidas. Para os pesquisadores, o relato não fornece respostas definitivas, mas aponta uma direção que merece investigação mais aprofundada. “A capacidade funcional residual pode persistir na doença de Alzheimer avançada e pode tornar-se transitoriamente acessível após a modulação induzida pela psilocibina em redes cerebrais de grande escala”, concluem os autores, no texto. Estudos maiores e controlados ainda são necessários para alterar práticas clínicas ou recomendar o uso da substância em pacientes com demência.

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