Ondas nascidas na Antártida cruzam 14 mil quilômetros até o Alasca, revela estudo com boias
Galileu [Unofficial]
June 7, 2026
Quando observamos as ondas quebrando em uma praia é natural imaginar que elas tenham sido produzidas pelos ventos locais. Mas uma nova pesquisa mostra que a história é muito mais complexa. Cientistas conseguiram rastrear ondas oceânicas desde sua origem em tempestades no Oceano Antártico até sua chegada ao Alasca, após uma jornada de cerca de 14 mil quilômetros. O estudo, publicado na revista Journal of Geophysical Research: Oceans, utilizou dados de uma rede global de 300 boias oceânicas à deriva para acompanhar o deslocamento das chamadas ondulações oceânicas (swells), que podem viajar por semanas através dos mares. “Tendemos a pensar que as ondas são geradas pelo vento no ambiente circundante. Na verdade, desde a década de 1960, os cientistas sabem que a maioria das ondas é gerada por ventos fortes em tempestades nas regiões polares, sendo que grande parte delas começa sua formação no Oceano Antártico”, afirma Ian Young, da Universidade de Melbourne e autor principal do estudo, em comunicado. Uma viagem de quase duas semanas Para realizar o estudo, os pesquisadores analisaram dados coletados ao longo de 2023 por boias da empresa de previsão oceânica Sofar. Pouco maiores que uma bola de basquete, esses dispositivos flutuam livremente, acompanhando correntes e ondas enquanto transmitem sua posição e medições regularmente. A equipe concentrou sua atenção na região do Equador. Como os ventos locais são relativamente fracos, as ondas observadas ali costumam ter sido geradas em lugares muito distantes. “As ondas no Equador são muito longas, chegando a ter até 300 metros de distância umas das outras. Graças a essas boias, conseguimos identificar a origem e o destino das ondas que passam por essa região”, explica Young. “Em todos os casos, elas foram geradas por uma tempestade. Rastreamos ondas desde a Antártida até o Alasca, a 14 mil quilômetros de distância.” As trajetórias são codificadas por cores para indicar a data em cada local, sendo o azul o início de 2023 e o vermelho o final de 2023 (conforme a barra de cores à direita). Sofar Os resultados revelaram que as ondas mais longas e energéticas percorreram essa rota em apenas 12 dias. Ondas menores e mais lentas precisaram de até 17 dias para completar o trajeto. Ao longo da viagem, elas também perderam grande parte de sua força. Ondulações que começaram com cerca de 10 metros de altura próximo à região de origem chegaram ao Alasca reduzidas a aproximadamente 10 centímetros. Impactos para o clima e para as cidades costeiras Embora muitas vezes passem despercebidas, as ondas exercem papel importante em diversos processos ambientais. Elas influenciam a erosão das praias, as inundações costeiras, a segurança da navegação marítima e até as trocas de gases entre oceano e atmosfera. “As ondas são difíceis de medir, mas têm um impacto significativo nas inundações costeiras, na erosão das praias, nas rotas de navegação e na atmosfera, já que os níveis de dióxido de carbono no ambiente são afetados pelas ondas”, destaca Young. A nova metodologia também oferece aos cientistas uma ferramenta inédita para monitorar a dinâmica dos oceanos em escala global. Algo que era extremamente difícil antes da disponibilidade de redes extensas de boias autônomas. O que as mudanças climáticas têm a ver com isso? Além de desvendar o comportamento das ondas, o estudo reforça preocupações sobre os efeitos do aquecimento global nos oceanos. O Oceano Antártico abriga algumas das tempestades mais intensas do planeta, e evidências indicam que esses eventos estão se tornando mais frequentes e mais fortes. “Não há dúvida de que, com as mudanças climáticas, estamos vendo um aumento na frequência e no tamanho dessas tempestades no Oceano Antártico”, afirma o principal autor do estudo. Se essa tendência continuar, os impactos poderão ser sentidos muito além das águas geladas da Antártida. Afinal, como o novo estudo demonstra, uma tempestade no extremo sul do planeta é capaz de enviar sua assinatura através de oceanos inteiros, alcançando costas situadas a milhares de quilômetros de distância.
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