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  "textContent": "\nUm novo estudo, publicado na revista PLOS Neglected Tropical Diseases em 20 de fevereiro, investigou um dos patógenos mais raros e letais já identificados no país: o vírus Sabiá, que circula silenciosamente no Brasil há cerca de 142 anos e vem sofrendo mutações capazes de driblar os testes diagnósticos existentes. A descoberta surgiu a partir da investigação de dois casos fatais registrados no estado de São Paulo, em 2019 e 2020, envolvendo pacientes que desenvolveram uma síndrome hemorrágica e neurológica aguda. As investigações foram conduzidas por cientistas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e do Imperial College London, do Reino Unido. Vírus ‘Sabiá’? O vírus Sabiá é um arenavírus extremamente raro. Desde 1990, apenas quatro casos fatais haviam sido registrados no estado paulista. O primeiro ocorreu em Cotia e serviu de base para o desenvolvimento dos testes laboratoriais usados até hoje. Mas, como acontece com praticamente todos os vírus de RNA, o tempo mudou o jogo. “A cepa de referência do vírus Sabiá data de 1990. Como se passaram mais de 30 anos, era muito provável que o vírus tivesse sofrido mutações”, explicou Ingra Morales Claro, da USP, em entrevista à Agência FAPESP. Segundo a pesquisadora, as alterações genéticas acumuladas ao longo das décadas afetaram justamente regiões utilizadas pelos testes diagnósticos, impedindo que os exames identificassem corretamente as cepas mais recentes. Foi necessário, então, redesenhar os chamados “primers”, ou seja, os pequenos fragmentos de DNA usados para detectar a presença viral em laboratório. A equipe desenvolveu novos marcadores genéticos e os encaminhou ao Instituto Adolpho Lutz. Os genomas analisados apresentaram cerca de 89% de identidade genética em relação às cepas descritas anteriormente. Pode parecer muito, mas, no universo viral, pequenas diferenças podem significar falhas completas de detecção. “Ao analisar os novos genomas, identificamos mutações exatamente nas regiões-alvo dos testes anteriores. Modificamos essas regiões e agora conseguimos detectar as cepas circulantes”, afirmou Claro. Análise estrutural das mutações do vírus Sabiá PLOS Neglected Tropical Diseases O mais intrigante é que o vírus não foi encontrado por métodos tradicionais. O caso registrado em 2020 só foi identificado graças a uma abordagem metagenômica, isto é, uma técnica capaz de detectar múltiplos microrganismos em uma amostra sem que os cientistas precisem saber previamente o que estão procurando. O paciente era um homem de 52 anos, morador de Sorocaba, que tinha hábito de fazer caminhadas em áreas florestais. Ele procurou atendimento médico no fim de dezembro de 2019 com sintomas inicialmente compatíveis com febre amarela e foi transferido para o Hospital das Clínicas da USP. Com os exames para febre amarela e para o próprio vírus Sabiá terem dado negativos, ele morreu em janeiro de 2020. Foi somente após análises posteriores que o patógeno finalmente apareceu. A descoberta levou os pesquisadores a revisarem amostras antigas de pacientes com síndrome hemorrágica aguda sem causa definida. Entre elas, surgiu outro caso fatal: um trabalhador rural de 63 anos da cidade de Assis, internado em dezembro de 2019 e morto apenas dois dias depois. Em ambos os pacientes, os pesquisadores observaram alterações em proteínas usadas pelo vírus para se ligar às células humanas. Essas mudanças ajudam a explicar não apenas as falhas diagnósticas, mas também podem oferecer pistas sobre a adaptação evolutiva do patógeno. Memória genética Para reconstruir a trajetória do vírus, os cientistas recorreram a análises filogenéticas, uma espécie de árvore genealógica molecular. O resultado revelou que o vírus Sabiá provavelmente circula em território brasileiro desde o fim do século 19, muito antes de ter sido oficialmente descoberto. “Provavelmente houve outros casos no passado que nunca foram identificados”, alertou Ester Sabino, também da USP. Para ela, compreender como o vírus evoluiu geneticamente é essencial para antecipar novos casos e possíveis surtos. Mapa dos municípios do estado de São Paulo indicando as localidades onde foram detectadas infecções naturais pelo vírus Sabiá Ingra Morales Claro Sabino não é novata em rastrear ameaças invisíveis. Sua equipe liderou o primeiro sequenciamento do SARS-CoV-2 no Brasil, em março de 2020, além de estudos importantes sobre mpox, zika, febre amarela e a variante Gamma da Covid-19 em Manaus. Agora, o foco recai sobre um vírus raro, mas considerado um dos mais perigosos do país em ambientes laboratoriais. Isso porque o Sabiá apresenta potencial de transmissão por aerossóis durante manipulação em laboratório, exigindo o mais alto nível de biossegurança existente, estrutura que ainda não está disponível na América do Sul. Outro ponto que ainda demanda confirmação diz respeito ao animal que serve como reservatório natural do vírus, ainda que roedores silvestres sejam os principais suspeitos. Todos os casos identificados ocorreram em áreas rurais ou de contato próximo com ambientes florestais, onde a interação entre humanos e fauna é mais intensa. Novos estudos poderão ajudar a responder a questão, ampliando o arsenal de vigilância genômica necessário para o monitoramento da doença e de eventuais novos casos.",
  "title": "O que é o vírus sabiá, que circula no Brasil há 142 anos e pode matar"
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