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"textContent": "\nPouco mais de dois anos atrás, eu acompanhava um evento chamado \"Golem Fest\". Acontecia em Valência, na Espanha. É um encontro anual e internacional de escritores, pesquisadores, roteiristas, ilustradores e artistas que lidam com fantástico e congêneres (horror, ficção científica, fantasia, realismo mágico etc). David Roas, renomado pesquisador espanhol da literatura fantástica, dava uma palestra sobre expressões do gênero na literatura latinoamericana. Comentava obras de tudo quanto é lugar do continente — todas de países hispânicos. Destacava temas, motivos, procedimentos do fantástico que correspondessem à região, às vezes a cada país. Em certo momento, não me contive. Ergui a mão e perguntei: “E o Brasil?” Sei que Roas lê em português e conhece bem alguns de nossos grandes autores do século 20, como Murilo Rubião, J.J. Veiga e… pouquíssima gente mais, é a verdade. À minha pergunta, ele respondeu algo próximo do que eu já tinha ouvido algumas vezes, antes. Não foram bem essas palavras, mas sei que o sentido foi esse: “o Brasil tem uma tradição que sei ser muito rica, mas ainda a ser descoberta pelo restante da América Latina. Existe a barreira do idioma.” A mesma questão me veio à cabeça enquanto lia Archipiélago, um diário de leituras da argentina Mariana Enriquez. No livro, ela conta como se formou leitora e, em consequência, escritora. Enriquez fala com honestidade de suas paixões e desgostos, de seus hábitos (nunca lê em aviões e ao ar livre) e do fazer literário. São muitas, centenas de citações de nomes de prosistas e poetas, de todos os lugares do mundo, que contribuíram para a formação dela. Do Brasil, só um nome aparece: o de Adelia Prado, cujos versos “Quarenta anos: não quero faca nem queijo / Quero a fome” servem de epígrafe à coletânea de contos As coisas que perdemos no fogo. Sim, temos a barreira do idioma, essa cúpula que nos recobre e quase invisibiliza para o restante do continente. Mas é verdade que temos tido boas notícias a esse respeito, com indicações de traduções de livros brasileiros em premiações importantes, tipo o \"Booker Prize\". Como o caso recente da Ana Paula Maia, que aliás costuma ser vinculada ao horror. Mas quando me pergunto “E o Brasil?” e, em particular, “e o horror criado no Brasil?”, me ocorre que a questão vai além dessa barreira idiomática/cultural. Porque nós mesmos, aqui dentro, tratamos o gênero (também me refiro ao fantástico) de maneira contraditória. E nesse ponto é difícil escaparmos ao estigma do vira-lata. Exaltamos o que vem de fora, somos quase indiferentes ao que nasce dentro. É antigo o debate sobre o tratamento dado por editoras a ficcionistas gringos em relação aos brasileiros. Durante décadas, foi assim com autores anglófonos ou europeus (e no geral, ainda é). Até aí, sem novidade. A ferida volta a abrir e dói para valer quando contemplamos o mais recente fenômeno de magnitude no horror: a autoria latinoamericana, especialmente de mulheres. Certo, nem tão recente. O movimento já se observa faz quase dez anos, tendo as argentinas Enriquez e Samanta Schweblin à frente e trazendo a reboque muita gente incrível. Só que dói porque, a despeito da cúpula que nos separa, os temas e os impulsos que levam à escrita reforçam a nossa vizinhança, a nossa proximidade — muito mais do que acontece com autores anglófonos ou europeus, eu diria. Sombras da ditadura, violência urbana, contrastes sociais e um cotidiano que extrapola em muito a ficção mais desvairada são só alguns pontos de contato. Um aspecto que precisa ser considerado é a familiaridade estética, que vem do convívio dessas autoras com o fantástico, com o horror. Desde sempre. Sigamos com os exemplos de Enriquez e Schweblin. Em entrevistas e em livros como Archipiélago, as duas deixam claro como sempre tiveram, à cabeceira, obras dos gêneros, de seus próprios países ou de fora. Quero dizer que países hispânicos sempre lidaram melhor com as expressões mais imaginativas da literatura, menos documentais — como é o nosso caso. Por esse desinteresse, podemos até tentar culpar os portugueses, considerando o fato de que eles próprios nunca foram grandes praticantes da chamada ficção especulativa (ao menos não como a entendemos aqui). Mas não pretendo colocar a nossa historiografia cultural e literária no divã. Me interessa olhar para hoje. E o fato é que, hoje, nós mesmos mal conhecemos o que se fez e o que se faz de arrepiante por aqui. Me refiro a uma grande escala, da mesma medida que atingem os nomes que vêm de fora. Claro que temos as bolhas, e bolhas que vão aumentando aos poucos. E claro que temos boas notícias recentes, como editoras abrindo mais espaços pra nomes nacionais, premiações, legitimações da crítica “oficial” (ainda que tímidas em relação a nossas vizinhas e nossos vizinhos). Temos também ficcionistas que começam a furar as bolhas, como Verena Cavalcante e sua boa estreia no romance com Como nascem os fantasmas, ou Bruno Ribeiro e o recém-lançado O dono e o mal, romance com muitos toques de horror. Há outros exemplos, mas cito os dois porque sei que circulam bastante pelo gênero, tanto em termos de mercado quanto de crítica (aqui incluo a esfera acadêmica). Ainda assim, são movimentos tímidos em relação aos que vêm de fora. Acho importante mencionar que, esteticamente, considero que o trabalho de ambos não deve nada aos grandes nomes mencionados aqui. Penso, também, ser importante analisar de onde vem todo o nosso FOMO (Fear of Missing Out), ou, no espírito desta coluna, do MEFIFÓ, Medo de Ficar de Fora. Certa vez, um editor me disse que “escritor brasileiro [de fantástico e horror] é muito machucado”, e acho que ele tinha razão. Sobreviver ao mercado editorial em um país que lê pouquíssimo é, em si, um desvario. Ainda temos a impressão de que já largamos atrás de qualquer nome que venha de fora — um machucado que dói mesmo. E piora se não nos enquadramos nas vertentes hegemônicas da literatura brasileira contemporânea, como dramas psicologizantes, autoficção, ficção histórica, realismo social, e por aí vai. Dá mesmo pavor de ficarmos sempre para trás, ainda mais quando boa parte dos leitores dessas correntes hegemônicas começa a prestar atenção ao horror e ao fantástico que vêm das vizinhanças. Mas também não acho que ficar gritando “ouça o que temos pra dizer!” ou “leia autores e autoras nacionais!” vá resolver. O que temos, de fato, para dizer? E como pretendemos dizer? Mais ainda: será que todos temos a mesma coisa pra dizer? Claro que não. Cada autor e autora tem seu próprio universo ficcional, seu próprio projeto — desde que seja para valer. Vejo muita gente encarando a literatura como uma ponte pro audiovisual, o que não acho que vá ajudar a causa, pois a potência literária vai muito além de roteiros maquiados. E também vejo muita gente ainda com pouca familiaridade estética com o horror. Com pouco repertório de leitura, é a verdade. Fica ainda pior quando se trata de lermos a nós mesmos, no passado ou no presente. De minha parte, como operário do gênero, tento nunca ficar parado. E faço a mea culpa: quando abracei para valer a carreira literária e a pesquisa acadêmica, doze anos atrás, não fazia ideia do tremendo e riquíssimo passado que existia à minha espera. Graças à boa estrela sob a qual nasci, virei amigo de grandes pesquisadores do assunto, como o Júlio França e o Daniel Augusto Pereira. Desses encontros surgiram Tênebra (biblioteca digital e livros) e tantos outros projetos que me deram a certeza de que, em termos de tradição no fantástico e no horror, não devemos nada a hermanos. Nada mesmo. Já do presente, venho me ocupando com a minha própria pesquisa. Lendo tudo que posso, me inteirando de tudo o que acontece no gênero por aqui. Minha tese nasceu, basicamente, da pergunta que batiza essa edição — e ali só ensaiei uma resposta. Aqui, passados três anos, acho que encerraria com outra possível resposta: o horror nacional ainda tem um lugar bem acanhado em relação ao que vem de fora. Mas esse espacinho vai aumentando, ainda que aos centímetros. Sei que temos autores e autoras perfeitamente capazes de reivindicar mais amplitude. E seguimos trabalhando pra que leitores e leitoras se deem conta disso — aqui mesmo, na nossa terra, pra depois irmos de fato além.",
"title": "Uma reflexão sobre a literatura de horror brasileira"
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