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Pareidolia: por que o cérebro enxerga rostos onde não deveria ver?

Galileu [Unofficial] May 15, 2026
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Quem é velho de internet lembra desta: em 2004, viralizou a notícia de que a americana Diana Duyser notou o rosto da Virgem Maria estampado numa fatia de sanduíche de queijo. Segundo ela, o lanche tinha sido preparado cerca de 10 anos antes, tendo permanecido armazenado todo esse tempo sem mofar. Guardá-lo foi um instinto natural para a moça, encantada pela visão de Maria conservada na crosta abençoada de fosfato de sódio, gordura e emulsificante. Algo tão raro devia ganhar status de relíquia: não à toa o sanduíche foi leiloado no eBay por US$ 28 mil. O que alguns apontam como sinais místicos, os cientistas explicam como pareidolia, um fenômeno em que o cérebro humano identifica padrões reconhecíveis no que é, na verdade, um objeto ou arranjo inanimado aleatório. A palavra é derivada dos termos gregos “para” (errado, com problema) e eidolon (imagem, formato). A pareidolia pode se manifestar de várias formas. Você pode enxergar formatos, rostos e objetos conhecidos nos mais diversos lugares, como nas nuvens, na sujeira, num amontoado de roupas, na comida, nas gotículas de água derramadas em uma superfície, no mofo da parede, etc. Também não há regra para o que você enxerga: pode ser um rosto humano, um animal, um símbolo, uma textura familiar e até mesmo pessoas famosas — em 2011, o jornal The Guardian publicou uma coletânea de “aparições” de Jesus Cristo em locais diversos, desde a gordura de uma frigideira até uma batata frita. Embora seja menos conhecida, também existe a pareidolia auditiva, quando escutamos palavras ou frases onde elas não existem, seja dentro de músicas ou em ruído branco. Algumas famosas teorias da conspiração em que palavras podem ser ouvidas desacelerando uma música ou a colocando pra tocar ao contrário são pura pareidolia. Que tal esta carinha cuidadosamente esculpida pela natureza em uma queda d'água? Ludovico Ceroseis/Unsplash Por que ela ocorre O conceito da pareidolia é conhecido desde 1866, mas só ganhou nome em 1962. Ela existe porque ver não é só receber informação dos olhos — o cérebro também “chuta” o que está vendo e completa o resto. A imagem chega aos olhos como um monte de formas, sombras e contrastes e a parte de trás do cérebro (o córtex visual posterior) analisa esses sinais crus: linhas, bordas, brilho, simetria. Ao mesmo tempo, a parte da frente (o córtex frontal) usa memória e expectativa: “isso parece um rosto?”, “já vi algo assim antes?”. O córtex frontal então envia um “palpite” de volta ao sistema visual. Se o que estamos enxergando bate minimamente com a sugestão (dois pontos e uma linha, por exemplo), o cérebro fecha o quebra-cabeça e você vê um rosto completo. Em 2014, cientistas da Universidade de Toronto tentaram desvendar o problema. Eles colocaram 20 voluntários para observar ruído branco enquanto conectados a um aparelho de ressonância magnética. Esse ruído, às vezes, tinha imagens reais escondidas, e às vezes não. Os participantes precisavam apertar um botão quando achavam que estavam vendo alguma coisa. Uma semana depois, os voluntários repetiram o teste, mas, desta vez, sem que eles soubessem, não havia nenhuma imagem escondida no ruído branco. Mesmo assim, eles reportaram ver rostos em 34% dos casos e letras em 38% dos casos. “Nossos resultados sugerem que é comum as pessoas enxergarem características inexistentes porque o cérebro humano é singularmente programado para reconhecer rostos, de modo que, mesmo quando há apenas uma leve sugestão de traços faciais, o cérebro a interpreta automaticamente como um rosto", afirmou o professor Kang Lee, que liderou o estudo. Outros cientistas pensam na mesma linha. "Acredito que o cérebro está tão bem programado para processar informações faciais que esse mecanismo entra em ação assim que algo que se assemelhe a um formato de rosto esteja presente, mesmo que vagamente", afirmou o cientista cognitivo Ed Connor, diretor do Instituto Krieger de Mente e Cérebro, à John Hopkins Magazine. Os pesquisadores também descobriram que as pessoas podem ser levadas a ver imagens diferentes – como rostos, palavras ou letras – dependendo do que esperam ver, o que, por sua vez, ativa partes específicas do cérebro que processam essas imagens. Casos famosos O Sudário de Turin é um dos casos mais famosos de pareidolia de que se tem notícia. Por muitos anos, acreditou-se que as manchas nele formavam a fisionomia de um homem, o qual muitos acreditavam ser Jesus Cristo, sugerindo que o pano pudesse ser a mortalha do personagem bíblico. Análises em laboratório mostram que o pano tem origem no final do século 13 ou começo do 14. Diversas formações rochosas no mundo são alvo de pareidolia. A Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro, para muitos lembra um rosto humano. A Saru Iwa (pedra do macaco), no Japão, lembra um macaco olhando para o mar. Nos EUA, no estado de New Hampshire, uma formação rochosa apelidada “old man on the mountain” (o velho na montanha) era símbolo local até desabar, em 2003. Na Islândia, a pedra do elefante, que parece um elefante mergulhando a tromba no mar, é bastante famosa entre os turistas. Em 1976, a sonda Viking 1, da NASA, capturou uma imagem do solo lunar que parecia mostrar um rosto humano esculpido. As fotos viralizaram nos tempos pré-internet. Imagens posteriores do mesmo local mostraram que a formação rochosa não se parece em nada com um rosto humano. Em 1996, uma cafeteria dos EUA chamada Bongo Java produziu um pão de canela idêntico à Madre Teresa. A religiosa inclusive teria ficado sabendo do caso e se divertido com ele pouco antes de morrer. Em 2005, o pão foi roubado e nunca mais visto.

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