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Proibir celular na escola impacta bem-estar, mas não melhora notas, diz estudo nos EUA

Galileu [Unofficial] May 5, 2026
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Nos últimos anos, muitas escolas de países na Europa e Estados Unidos têm restringido — ou, pelo menos, tentado restringir — o uso de celulares pelos alunos durante o período escolar. Pais, educadores e governos tinham a expectativa de que essa redução melhorasse significativamente as notas dos alunos, a frequência escolar e diminuísse problemas como distração em sala de aula e bullying. O Brasil adotou o caminho em 2025, e já proíbe o uso na educação básica pelos mesmos motivos. Mas em quais aspectos a medida é realmente eficaz? Até o momento, a experiência norte-americana sugere que essas expectativas foram atendidas apenas de forma parcial, segundo um estudo preliminar divulgado nesta segunda-feira (4) pela organização sem fins lucrativos National Bureau of Economic Research (NBER). Para a realização do estudo, os pesquisadores analisaram dados de mais de 40 mil escolas nos EUA entre 2019 e 2026, incluindo notas de provas, registros escolares, pesquisas com professores e alunos e informações da empresa Yondr, que fabrica capas com travas magnéticas usadas para guardar os telefones. O estudo, realizado por pesquisadores de diferentes universidades dos Estados Unidos, aponta que escolas que aplicaram proibições mais rígidas — como o uso de capas para celulares com trava — registraram uma redução significativa no uso de dispositivos em sala de aula. Já instituições que não adotaram esse tipo de bloqueio e permitiam o uso entre as aulas ou exigiam apenas que os aparelhos fossem mantidos guardados também apresentaram queda no uso, mas de forma menos expressiva. Apesar disso, a média das notas dos alunos em provas não apresentou melhora significativa. Segundo os pesquisadores, esse resultado pode estar relacionado ao fato de que o desempenho acadêmico é influenciado por diversos fatores, como o ambiente familiar e a qualidade do ensino, por exemplo. Além disso, outras tecnologias, como notebooks, não foram proibidas, o que pode ter mantido fontes alternativas de distração. Os dados também mostram que, nas escolas que adotaram dispositivos de trava, houve, já no primeiro ano, um aumento nos incidentes disciplinares e uma queda no bem-estar dos alunos. Para os autores, isso pode estar relacionado à frustração com as restrições, à percepção de perda de autonomia e ao aumento da vigilância por parte dos professores. No entanto, esses efeitos diminuíram com o tempo. No segundo ano de implementação das restrições, os alunos passaram a relatar melhora no bem-estar, enquanto os incidentes disciplinares também apresentaram queda. Além disso, professores dessas instituições relataram menos distrações durante as aulas e se mostraram satisfeitos com as medidas adotadas. Segundo E. Jason Baron, professor de economia da Universidade Duke e autor do estudo, a melhora no bem-estar ao longo do tempo pode estar associada a diferentes fatores. “O mais óbvio, claro, é que [os alunos] agora conversam mais com seus colegas. Eles podem não estar mais rolando a tela do celular o dia todo sem parar”, afirmou o pesquisador em entrevista ao jornal The Washington Post. O estudo também aponta que, no terceiro ano de proibição com o uso das capas protetoras, os sinais de celular emitidos pelas escolas tiveram uma queda de 30%. Segundo os pesquisadores, essa mudança provavelmente está ligada à perda de acesso dos alunos aos próprios aparelhos, uma vez que os adultos nas instituições ainda conseguiam utilizar seus celulares, e os dispositivos bloqueados continuam recebendo sinais, como e-mails e mensagens de texto. Pesquisas com professores também indicaram que a proporção de alunos que utilizavam celulares em sala de aula — muitas vezes para fins não acadêmicos — caiu de 61% para 13% nas escolas que adotaram os dispositivos de trava, sugerindo que os alunos, em geral, não violaram as restrições impostas. Apesar desses resultados positivos, o estudo aponta que as proibições tiveram um efeito “consistentemente próximo a zero” nas notas dos alunos. Para os pesquisadores, isso pode estar relacionado não apenas a fatores externos ao ambiente escolar, mas também a possíveis mudanças na dinâmica das aulas, já que professores podem passar mais tempo monitorando o uso de dispositivos, o que fragmenta o ensino. Enquanto a frequência escolar e a percepção de bullying online também não apresentaram melhora, as suspensões de alunos cresceram em média 16% após as restrições nas escolas. Em entrevista ao jornal The New York Times (reproduzida pelo O Globo), Thomas S. Dee, professor e economista da Universidade Stanford, sugere que o aumento dos incidentes disciplinares pode estar relacionado tanto a alunos que violaram as proibições quanto por aqueles que passaram a enfrentar mais conflitos com colegas, intensificados pela ausência do uso constante de celulares. Ainda assim, Dee afirma que políticas de restrição não devem ser descartadas com base apenas nesses resultados iniciais. Para ele, é necessário manter esse tipo de medida por mais tempo para que seus possíveis benefícios possam ser observados de forma mais completa.

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