Cérebro de cães começou a diminuir nos últimos 5 mil anos
Galileu [Unofficial]
April 30, 2026
Os cães, mais conhecidos como “o melhor amigo do homem”, convivem com os humanos há pelo menos 15 mil anos. Ao longo desse processo de domesticação, esses animais passaram por grandes mudanças — incluindo uma redução do tamanho do cérebro em comparação com seus ancestrais, os lobos. Por muito tempo, cientistas não chegaram a um consenso sobre quando esse encolhimento começou. Agora, uma nova pesquisa sugere que ele não ocorreu no início da domesticação, como se imaginava, mas apenas milhares de anos depois, possivelmente há cerca de 5 mil anos. No estudo, publicado em 29 de abril na revista Royal Society Open Science, pesquisadores europeus compararam crânios de canídeos — grupo que inclui, além de cães e lobos, chacais, coiotes e raposas — antigos e modernos. Para isso, analisaram tomografias computadorizadas de 22 lobos e cães pré-históricos, que viveram entre cerca de 35 mil e 5 mil anos atrás, além de 104 cães e 59 lobos modernos. Além disso, os cientistas criaram modelos digitais tridimensionais do interior da cavidade craniana, uma representação que permite estimar a forma e o tamanho do cérebro que antes ocupava essa região. Com isso, puderam comparar o volume da cavidade craniana em relação ao comprimento do crânio, usado como um indicador do tamanho corporal. Essa abordagem evita que cães de pequeno porte sejam associados a cérebros menores apenas por seu tamanho. Modelo digital do crânio de um lobo do século XIX, com uma reconstrução do cérebro posicionada dentro da caixa craniana. A imagem mostra o crânio em diferentes ângulos, incluindo vistas lateral e superior Royal Society Open Science Um ponto de virada há 5 mil anos De acordo com a equipe de pesquisa, essa redução pode ter começado durante a transição para o sedentarismo e o surgimento da agricultura. No final do Período Neolítico, entre cerca de 5 mil e 4.500 anos atrás, os cães já apresentavam uma redução acentuada no tamanho do cérebro — chegando a até 46% em comparação com lobos que viveram na mesma época. Eles também descobriram que o tamanho do cérebro desses cães antigos era semelhante ao de cães pequenos atuais. Isso, segundo a equipe, “fornece evidências potenciais de seleção comportamental muito precoce”. Ou seja, já naquela época os humanos podem ter começado a selecionar cães pelo comportamento, favorecendo indivíduos mais dóceis e adaptados à convivência com pessoas. Para os pesquisadores, essa mudança pode ter trazido vantagens. Um cérebro menor estaria ligado a uma reorganização do tecido cerebral, com menor participação de áreas responsáveis por processos complexos e maior presença de respostas rápidas e instintivas. Isso pode ter tornado os cães mais alertas, sensíveis a estímulos desconhecidos e propensos a latir — características que, segundo os autores, poderiam transformá-los em eficientes “sistemas de alarme” nas comunidades humanas do Neolítico. "Essa drástica redução no tamanho do cérebro no Neolítico fornece pistas importantes sobre seu potencial uso para alertar o assentamento [comunidade neolítica] contra ameaças, entre outras funções como coleta de carcaças, uma fonte conveniente de carne ou caça", disseram os pesquisadores, em comunicado.
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