Cometa 3i/ATLAS se formou em um planeta bem mais frio do que a Terra; estudo
Galileu [Unofficial]
April 24, 2026
Desde que foi identificado pela primeira vez, em 2025, o cometa 3i/ATLAS captou a atenção de astrônomos por não ter sido originado no Sistema Solar - e, mesmo assim, ter dado as caras na vizinhança da Terra. Agora, pesquisadores acreditam que esse objeto interestelar, o terceiro do tipo identificado até hoje, provavelmente se formou em um ambiente muito mais frio do que aquele que deu origem ao nosso sistema. Os cometas têm como característica serem ricos em água congelada que preserva registros químicos do ambiente onde se formaram. Esses traços permitem a astrônomos, muitas vezes, identificar a sua origem. Essa análise foi possível graças a um novo estudo, publicado em 23 de abril na revista Nature Astronomy. Nele, pesquisadores da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, observaram que a água presente no cometa é extremamente rica em deutério, com quantidades muito maiores dessa substância em comparação às encontradas nos oceanos da Terra. Além da água comum (H₂O), esses corpos também contêm uma variante conhecida como água deuterada (HDO), em que um dos átomos de hidrogênio é substituído por deutério, uma versão mais pesada do elemento. No caso dos cometas do Sistema Solar, essa forma é rara: há cerca de uma molécula de água deuterada para cada dez mil de água comum. Mas a relação não é a mesma no caso do 3i/ATLAS. As descobertas, feitas a partir de dados coletados pelo telecópio Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA), no Chile, durante a aproximação do cometa 3i/ATLAS ao Sol, mostraram que ele possui pelo menos 30 vezes a proporção de água semipesada encontrada em cometas do Sistema Solar e mais de 40 vezes a proporção presente nos oceanos da Terra. Segundo os autores, essa proporção elevada de deutério sugere que o cometa tenha vindo de um ambiente especialmente frio e com características químicas diferentes. "A quantidade de deutério em relação ao hidrogênio comum na água é maior do que qualquer coisa que tenhamos visto antes em outros sistemas planetários e cometas planetários", disse Luis Salazar Manzano, estudante de doutorado da Universidade de Michigan e autor principal do estudo, em comunicado. Como explica Manzano em comunicado do ALMA, os processos químicos que elevam o nível de deutério na água funcionam melhor em temperaturas muito baixas, inferiores a 30 Kelvin (cerca de -243 °C) — bem abaixo das condições associadas à formação do Sistema Solar. Além de indicar uma origem em regiões extremamente frias, os resultados mostram que o 3i/ATLAS preserva a composição química do ambiente onde se formou. De acordo os pesquisadores, esta é a primeira vez que ocorre medição de água deuterada em um objeto interestelar. Isso traz uma nova forma de investigação e abre caminho para futuras observações que podem revelar ainda mais sobre como diferentes sistemas planetários se formam. "Cada cometa interestelar traz um pouco de sua história, seus fósseis, de outro lugar. Não sabemos exatamente onde, mas com instrumentos como o ALMA podemos começar a entender as condições desse lugar e compará-las às nossas", destacou Teresa Paneque-Carreño, professor de astronomia da Universidade de Michigan e coautora do estudo.
Discussion in the ATmosphere