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Malária pode afetar a cognição de crianças até uma década após a infecção

Galileu [Unofficial] April 21, 2026
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Um estudo de longo prazo realizado na Uganda, publicado na revista JAMA no último sábado (18), acompanhou quase mil crianças por até 15 anos após episódios de malária grave e retornou com resultados alarmantes. Os autores verificaram que crianças que sobreviveram à malária cerebral ou à anemia severa causada pela doença apresentaram desempenho significativamente inferior em testes de cognição geral e matemática, mesmo muitos anos depois da infecção. De acordo com Chandy John, pesquisador da Universidade de Indiana e coautor do projeto, os déficits equivalem a uma perda de quatro a sete pontos de QI. “Isso pode não parecer muito, mas há pelo menos um milhão de crianças, provavelmente perto de dois milhões, que são afetadas a cada ano. É um grande impacto populacional”, afirma ele, em entrevista à revista Science. Vale lembrar que, segundo os dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), a malária infectou mais de 282 milhões de pessoas em 2024 e ainda causou 610 mil mortes. O novo estudo agora sugere que, mesmo os sobreviventes ainda podem enfrentar complicações severas e silenciosas que comprometem o seu futuro acadêmico e social. Desafio de compreender os mecanismos Os pesquisadores Paul Bangirana, do Hospital Universitário Makerere, e Chandy John lideraram a investigação. O estudo inicial, entre 2008 e 2015, já havia mostrado déficits cognitivos em crianças com malária cerebral dois anos após a infecção. Surpreendentemente, crianças com anemia grave também apresentaram prejuízos semelhantes, mesmo sem sintomas neurológicos aparentes. Bebê de seis meses recebe a primeira vacina contra malária em Gedaref, no Sudão UNICEF/Ahmed Mohamdeen Elfatih Um segundo projeto, conduzido entre 2014 e 2018, confirmou os achados, mas indicou que outras formas de malária grave — como aquelas que causam convulsões — não estavam associadas a déficits duradouros. Em 2020, a equipe conseguiu localizar 939 dos 1.438 participantes originais e aplicou novos testes, em média 8,4 anos após a inscrição inicial. Os resultados mostraram que muitas crianças nunca recuperaram totalmente o atraso. “Ainda é um mistério o que causa os danos duradouros”, reconhece Bangirana. Por mais que as lesões cerebrais agudas ajudem a explicar os déficits da malária cerebral, os resultados em casos de anemia são mais difíceis de compreender. Daí a importância de reavaliar os níveis de hemoglobina dos participantes para verificar se a anemia persistia. Prevenção além da sobrevivência As descobertas reforçam a necessidade de ampliar estratégias de prevenção. Redes mosquiteiras e vacinas recentemente introduzidas contra a malária ganham ainda mais relevância diante da possibilidade de sequelas cognitivas permanentes. “Estamos salvando vidas de crianças com antimaláricos, mas isso não é suficiente. Precisamos fazer mais”, afirmou Audrey John, especialista em doenças infecciosas pediátricas do Hospital Infantil da Filadélfia, em comentário publicado na Science. O estudo mostra que a luta contra a malária não se resume a evitar mortes, mas também a proteger o potencial intelectual de milhões de crianças. A prevenção é chave para o desenvolvimento humano e social em escala global.

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