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Múmia de 700 anos achada na Bolívia carrega bactéria da dor de garganta

Galileu [Unofficial] April 21, 2026
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Pesquisadores identificaram a presença da bactéria Streptococcus pyogenes, responsável por infecções de garganta e escarlatina, no dente de uma múmia de cerca de 700 anos na Bolívia. O achado, descrito em um artigo publicado no dia 13 de abril na revista Nature Communications, confirma que o patógeno circulava na América antes mesmo da chegada dos europeus. O material pertencia a um jovem que viveu entre 1283 e 1383 d.C., cujo crânio foi naturalmente mumificado graças às condições frias e secas do altiplano. O exemplar encontra-se atualmente preservado no Museu Nacional de Arqueologia de La Paz (MUNARQ). Segundo os registros, ele foi encontrado em uma chullpa, uma estrutura funerária típica da região. A identificação do patógeno ocorreu durante análises genéticas amplas. “Não estávamos procurando especificamente por esse patógeno”, afirma Frank Maixner, diretor do Instituto de Estudos de Múmias da Eurac Research e líder do projeto, em comunicado à imprensa. “Ao realizar análises genéticas de múmias, analisamos não apenas o DNA humano, mas também o dos inúmeros microrganismos presentes nos restos mortais.” Reconstrução genética Para decifrar o DNA altamente fragmentado, os cientistas utilizaram um método chamado “montagem de novo”, capaz de reconstruir genomas sem depender de referências modernas. “Você pode pensar nisso como montar um quebra-cabeça sem conhecer a imagem na caixa”, explica o microbiologista Mohamed Sarhan, coautor da produção. O resultado foi a recuperação de um genoma quase completo do Streptococcus pyogenes. A análise revelou que a cepa antiga apresenta fortes semelhanças com variantes modernas, especialmente aquelas que afetam a garganta. Isso sugere que infecções semelhantes às atuais já ocorriam há séculos. Essas chullpas funerárias são os vestígios de uma civilização que antecedeu o Império Inca Eurac Research “A excelente preservação do DNA nos permitiu reconstruir um genoma quase completo, demonstrando, por exemplo, que a bactéria já era capaz de causar doenças”, destaca o bioquímico Guido Valverde, que também contribuiu para a pesquisa. Hoje amplamente disseminada, a bactéria pode causar desde quadros leves até doenças graves, como síndrome do choque tóxico. Historicamente, a escarlatina foi uma das principais causas de mortalidade infantil antes da introdução dos antibióticos. História evolutiva do patógeno Os dados obtidos também ajudam a esclarecer a origem e a evolução do microrganismo. Evidências indicam que as principais linhagens modernas do Streptococcus pyogenes começaram a se diversificar há cerca de 5 mil anos, possivelmente impulsionadas pelo aumento da densidade populacional humana e pela maior proximidade entre indivíduos. Uma outra análise sugere que a linhagem encontrada nos Andes pode ter se separado de outras há até 10 mil anos. Além disso, vestígios da bactéria foram identificados em outras amostras antigas, incluindo restos humanos europeus e até em gorilas africanos, apontando para uma longa história evolutiva ainda pouco compreendida. Apesar dos avanços, ainda não é possível determinar quais doenças específicas afetaram o jovem boliviano ou se a infecção teve relação com sua morte. Fatores como nutrição deficiente e mobilidade populacional podem ter influenciado sua vulnerabilidade a doenças. Para os pesquisadores, o estudo abre novas perspectivas: “Para o campo de pesquisa, isso significa algo como o início de uma nova era”, afirma Maixner. A expectativa é que futuras análises ampliem o entendimento sobre como patógenos antigos moldaram a saúde humana ao longo da história.

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