Quem canta, os males espanta? Veja como a música mexe com o cérebro e melhora o humor
Galileu [Unofficial]
April 7, 2026
Nem sempre nossos dias começam bem. Às vezes acordamos já meio cansados, vamos para o trabalho um pouco mal-humorados, notamos um desânimo atípico. Acontece com todo mundo. Acontece comigo também, mas absolutamente sem querer descobri uma cura para esse desconforto mal definido. Talvez você também possa experimentar. Tudo começou quando, ainda criança, vi numa banda de igreja alguém tocando um instrumento que não conhecia. Meu pai me explicou que se tratava de uma gaita, e, sem que eu saiba exatamente por quê, ali começou uma história de amor pelo instrumento. Durante muitos anos me mantive numa relação platônica, até que, no fim da adolescência, num curso oferecido pela prefeitura travei meu primeiro contato verdadeiro com a gaita. Não lembro por quanto tempo estudei – pouco, com certeza –, mas mantive o instrumento no fundo da gaveta, junto com minha vontade de um dia estudar de verdade. Foi só agora, beirando meio século de vida, que voltei a estudar gaita. E aí chego finalmente ao antídoto para o mal-estar que por vezes nos atinge a todos. Notei, nos dias em que me sentia mais taciturno, que, após as aulas de gaita, eu voltava ao normal, de volta com o ânimo e a disposição habituais. Penetrar no mundo da música me desligava de todo o resto, conectando meu cérebro a uma outra realidade, o que parecia aliviar quaisquer sentimentos negativos que estivessem presentes no início da aula. Foi com a ajuda do músico e neurocientista Daniel J. Levitin, em seu livro A cura pela música (Objetiva, 2025), que entendi melhor o que estava acontecendo. Todos sabemos que a música mexe com nossas emoções, podendo transmitir e provocar sensações de alegria, melancolia, medo, empolgação. Mas, juntando sua experiência como instrumentista com a de cientista, Levitin nos mostra que não se trata apenas de interferir nos sentimentos: por se tratar de uma experiência multimodal, recrutando redes cerebrais já envolvidas com recompensa, saliência, memória emocional, antecipação, regulação emocional e até mesmo respostas autonômicas, a música modula sistemas corticais e subcorticais envolvidos tanto na geração quanto na regulação das emoções. Quando falamos de tocar um instrumento, então, a experiência é ainda mais profunda, passando a envolver o córtex motor e visual. A prática musical, então, pode ser considerada uma atividade multimodal, que unifica grandes redes cerebrais de regiões diferentes, fazendo-as trabalhar em harmonia em torno de um mesmo fim – o que aparentemente está por trás de suas propriedades neuroprotetoras e mesmo terapêuticas. O livro reúne relatos do impacto da música em diferentes problemas neuropsiquiátricos – do Parkinson ao Alzheimer, da dor ao estresse pós-traumático – a partir da constatação de que o ritmo organiza o movimento, as canções ativam a memória, a composição musical ajuda a dar forma ao trauma, as músicas preferidas reduzem a dor. Claro que nem todas as aplicações têm o mesmo grau de evidência, e ainda estamos longe de substituir remédios por canções. Não existe qualquer dúvida, no entanto, de que a música, com seu poder de penetrar no mais profundo da nossa alma, mobilizando neurônios e redes neurais inteiras, pode, sim, ser um analgésico para as dores mais diversas do nosso dia a dia.
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