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Vírus podem espionar uns aos outros, diz estudo

Galileu [Unofficial] March 31, 2026
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Os vírus são capazes de fazer algo inesperado: “escutar” conversas químicas de outros vírus para decidir o que fazer dentro de uma célula. Mas um novo estudo mostra que essa espécie de espionagem nem sempre funciona, podendo até prejudicar quem tenta se aproveitar da informação. Em um novo estudo, publicado nesta terça-feira (31) pela revista científica Cell, pesquisadores da Universidade de Exeter, na Inglaterra, descrevem esse comportamento em bacteriófagos, também chamados de fagos, vírus que infectam bactérias. Eles descobriram que esses organismos podem detectar sinais químicos produzidos por outros vírus, mesmo quando pertencem a espécies diferentes. Micrografia eletrônica de transmissão mostra bacteriófagos com cauda Citizen Phage Library e Bioimaging Centre / University of Exeter Biofilme de Bacillus subtilis com 24 horas de idade. A fluorescência verde indica células vivas, enquanto a vermelha indica células mortas ou danificadas Elvina Smith / University of Exeter Esses sinais fazem parte de um sistema chamado “arbítrio”, no qual os vírus liberam pequenas moléculas chamadas peptídeos durante uma infecção. A concentração dessas moléculas funciona como uma espécie de “termômetro” do ambiente: níveis altos de peptídeos indicam que há poucos hospedeiros disponíveis, enquanto níveis baixos sugerem que ainda há muitas células para infectar. Com isso, ao invadir uma célula bacteriana, esses vírus precisam decidir entre duas opções: matar a célula hospedeira, liberando novas partículas virais para infectar outras bactérias próximas, ou ficar “adormecido” dentro dela, sem causar danos, até que esteja em melhores condições. Esses processos são conhecidos, respectivamente, como lise e lisogenia. De acordo com os pesquisadores, em comunicado, esses sinais não são exclusivos de uma mesma espécie. Os bacteriófagos, mesmo quando pertencem a espécies distantes do emissor desses sinais, conseguem captar mensagens e respondê-las, ainda que elas não tenham sido destinadas a eles e não reflitam a situação em que se encontram. De forma mais simples, é como se os vírus estivessem espionando uma conversa alheia. Entretanto, essa estratégia nem sempre dá certo e o fago pode acabar tomando decisões de forma equivocada. Se há muitas células disponíveis para infectar, mas o vírus presta atenção em uma mensagem alheia que diz o contrário, ele vai “adormecer” e esperar o momento certo, quando, na verdade, deveria atacar essas células. Dessa forma, ele perde a oportunidade de se multiplicar imediatamente e infectar mais bactérias. Esse erro pode sair caro: ao optar pela lisogenia no momento errado, o vírus passa a depender da sobrevivência da bactéria para continuar existindo. Já quando escolhe matar as células, sem que exista hospedeiros suficientes, ele acaba produzindo cópias que não conseguem infectar novas células e são destruídas no ambiente. Mas, para o vírus que emitiu a mensagem, a situação pode ser vantajosa. Quando um fago já está dormente dentro da bactéria, ele pode se beneficiar se outro vírus que chega depois “ouvir” sua mensagem e também decidir permanecer inativo, em vez de destruir a célula que os dois dividem. “Isso pode beneficiar o vírus que enviou o sinal, pois impede que outro vírus mate as células, mas pode ter um custo para o vírus que responde“, explica Robyn Manley, ecologista molecular da Universidade de Exeter e autora do estudo. “Em outras palavras, a comunicação viral não é apenas cooperação. Às vezes, é manipulação.” Segundo os pesquisadores, a descoberta abre caminho para entender melhor como os vírus interagem entre si e pode ter implicações futuras em diversas áreas da ciência.

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