Por que sonhar ajuda você a se sentir mais descansado, segundo este estudo
Galileu [Unofficial]
March 27, 2026
Sonhar pode ser parte fundamental da sensação de ter dormido bem. É o que argumenta um novo estudo, feito por pesquisadores da Escola IMT de Estudos Avançados de Lucca, na Itália. A pesquisa indicou que os sonhos vívidos e imersivos estão associados a uma percepção maior de profundidade do sono — mesmo quando a atividade cerebral está elevada. Um artigo que detalha a descoberta foi publicado na última terça-feira (24) na revista PLOS Biology, e e ajuda a explicar por que algumas pessoas acordam se sentindo descansadas após noites com muitos sonhos, enquanto outras relatam sono superficial apesar de parâmetros fisiológicos considerados normais. O trabalho reforça a ideia de que, em vez de atrapalhar o repouso, deixando o momento de descanso mais agitado - como se acreditou por muito tempo - os sonhos podem, na verdade, contribuir diretamente para a experiência subjetiva de descanso. Paradoxo entre atividade cerebral e sono profundo Por décadas, o sono profundo foi definido como um estado de baixa atividade cerebral, caracterizado por ondas lentas e pouca consciência. Já os sonhos, especialmente na fase REM (movimento rápido dos olhos), foram interpretados como sinais de ativação cerebral, quase como uma “quebra” no descanso. O novo estudo questiona essa divisão. Para sustentar essa hipótese, os pesquisadores analisaram 196 noites de sono de 44 adultos saudáveis em laboratório, utilizando EEG (eletroencefalografia) de alta densidade, uma técnica que registra a atividade elétrica do cérebro com grande nível de detalhamento. Ao longo do experimento, os participantes foram acordados mais de mil vezes para relatar o que estavam vivenciando mentalmente e avaliar a profundidade do sono. A atividade foi medida com base em diferentes frequências cerebrais: ondas lentas (delta, de 0,5 a 4 Hz), associadas ao sono profundo, e ondas rápidas (gama, de 25 a 50 Hz), ligadas a estados mais ativos do cérebro. Os cientistas também calcularam a razão entre essas frequências (gama/delta), considerada um indicador do nível geral de ativação da região cortical. Grande parte dos momentos em que os voluntários despertaram ocorreu ainda no sono NREM (não-movimento rápido dos olhos), especialmente no estágio 2, uma fase intermediária que corresponde a cerca de metade do tempo total de sono. Apesar de ser considerada “leve a moderada”, essa etapa pode incluir desde ausência de experiências até sonhos relativamente elaborados. Os resultados mostraram que o sono percebido como mais profundo ocorria em dois cenários: quando não havia qualquer experiência consciente ou quando os sonhos eram vívidos e envolventes. Em contraste, experiências fragmentadas, como pensamentos soltos ou sensações vagas, estavam associadas a uma percepção de sono mais superficial. “Nem toda atividade mental durante o sono é sentida da mesma forma. A qualidade da experiência, especialmente o quão imersiva ela é, parece ser crucial”, afirma Giulio Bernardi, autor do estudo, em comunicado à imprensa. “Isso sugere que sonhar pode remodelar a forma como a atividade cerebral é interpretada por quem dorme.” A própria equipe descreve diferentes tipos de experiências durante o sono, desde sonhos com conteúdo claro até estados em que a pessoa sente apenas uma “presença” ou passagem do tempo, sem imagens ou narrativa. Esses estados mínimos, chamados de “consciência sem conteúdo”, foram os que mais se associaram à sensação de sono superficial. Outro ponto relevante envolve a chamada “pressão do sono” (termo técnico que descreve a necessidade biológica de dormir, a qual diminui ao longo da noite). Mesmo com essa redução, os participantes relataram uma sensação crescente de profundidade do sono. Esse efeito acompanhou o aumento da intensidade dos sonhos, sugerindo que as experiências oníricas ajudam a sustentar a percepção de descanso. Segundo o estudo, isso acontece porque a relação entre atividade cerebral e percepção de profundidade muda quando há sonhos. A presença de experiências conscientes “enfraquece” a associação direta entre maior atividade cerebral e sono superficial, permitindo que a pessoa ainda perceba o sono como profundo mesmo com o cérebro mais ativo. Além disso, análises estatísticas mostraram que quanto mais “imersivo” era o sonho — ou seja, quanto mais vívido, emocional e sensorialmente rico — maior era a sensação de profundidade do sono. Já conteúdos mais abstratos ou reflexivos, semelhantes a pensamentos, estavam ligados a uma percepção mais superficial. Sonhos imersivos como “guardiões do sono” Os autores propõem que sonhos imersivos funcionam como um mecanismo de “desconexão” do ambiente externo, um elemento-chave do sono restaurador. Em termos simples, quanto mais envolvente o conteúdo mental, menor a probabilidade de o cérebro responder a estímulos externos, como ruídos ou luz. Os dados também revelam que, ao longo da noite, a pressão fisiológica para dormir diminui, mas a percepção de profundidade do sono aumenta. Essa divergência foi explicada pelo fato de que os sonhos se tornam progressivamente mais imersivos com o passar das horas, ajudando a sustentar a sensação de descanso mesmo quando o corpo já está mais próximo de acordar.
Discussion in the ATmosphere