Gafanhoto é flagrado pela 1ª vez mudando de cor rosa brilhante para verde
Galileu [Unofficial]
March 18, 2026
Você conhece a frase “prego que se destaca leva martelada”? O ditado se refere a alguém que chama a atenção e que, por conta disso, pode sofrer consequências. No mundo animal, ser o centro das atenções pode jogar contra a perpetuação de uma espécie. Com o Arota festae, um gafanhoto, o destaque é uma característica curiosa: a cor do inseto pode mudar de um rosa vibrante para um verde que imita as folhas de plantas da floresta tropical em menos de duas semanas. Os pesquisadores avistaram um inseto enquanto trabalhavam no Instituto Smithsonian de Pesquisa Tropical na Ilha de Barro Colorado, no Panamá. A surpresa veio quando a fêmea adulta na cor rosa-choque que eles tinham encontrado foi reencontrada completamente verde em apenas onze dias. A partir daí, os especialistas fizeram um estudo sobre o fenômeno, publicado em 7 de março na revista Ecology. A semelhança com uma folha é um mecanismo de sobrevivência que ocorre em diversas outras espécies de insetos, mas a troca de cores é incomum. “Encontrar esse indivíduo foi uma verdadeira surpresa”, afirmou Benito Wainwright, da Universidade de Saint Andrews (Escócia), em comunicado. Por que eles mudam de cor? O fenômeno em si não é novidade, mas sim o mecanismo por trás dele. Desde 1878, naturalistas têm relatado tanto a existência de gafanhotos-do-mato rosa quanto a de indivíduos rosados em espécies relacionadas. Até então, a cor era atribuída a uma mutação genética não competitiva, uma definição equivalente do albinismo em insetos. No entanto, os pesquisadores propõem que a coloração rosa evoluiu para imitar o “esverdeamento tardio”, um fenômeno no qual as folhas tropicais recém-emergidas exibem tons vibrantes de rosa ou vermelho antes de amadurecerem para a cor verde tradicional. “Em vez de uma peculiaridade genética bizarra, isso pode ser uma estratégia de sobrevivência finamente ajustada que acompanha o ciclo de vida das folhas da floresta tropical que esse inseto tenta imitar”, observou Wainwright. Muitas folhas tropicais começam rosas ou vermelhas, tornando-se verdes posteriormente, à medida que a clorofila entra em ação Ecology Para averiguar essa hipótese, a equipe criou uma gafanhoto fêmea em cativeiro por 30 dias, com capturas fotográficas diárias. Eles observaram que, após quatro dias, a cor rosa vibrante desbotou para um tom pastel e, no décimo primeiro dia, a cor já era indistinguível do verde. A fêmea sobreviveu até acasalar, morrendo no mês seguinte de causas naturais. Segundo os pesquisadores, essa troca de cores segue o ciclo da coloração das folhas da ilha de Barro Colorado, onde cerca de 36% das espécies de plantas nativas exibem essa característica durante o ano. Nesse tempo, a coloração alterna entre vermelho, rosa e branco, o que torna os insetos aptos a se camuflarem entre as folhas. Um grilo-do-mato verde após a transformação Ecology Acredita-se que folhas dessas cores sejam menos nutritivas para os animais herbívoros, o que as ajuda chegar à maturidade com segurança. Isso também tem um potencial benéfico para os insetos – que medem 27 milímetros de comprimento e têm menos de um grama de massa –, cuja sobrevivência depende de enganar predadores, o que pode ser auxiliado pela cor rosa que, para o momento, é a menos chamativa. “Você poderia pensar que um inseto rosa brilhante em uma floresta predominantemente verde se destacaria para os predadores. [Mas] a ideia de que um inseto possa mudar gradualmente de cor para acompanhar as folhas que imita mostra o quão dinâmica a floresta tropical pode ser e é um exemplo notável de camuflagem em ação”, disse Matt Greenwell, da Universidade de Reading (Reino Unido). O que não se sabe? As florestas tropicais são ambientes complexos, repletos de surpresas para serem desvendadas. Para os pesquisadores, a descoberta parece ser o primeiro caso registrado de um gafanhoto completar uma mudança de cor total em um único estágio de vida, o que poderá vir a explicar como alguns animais evoluíram para explorar esse fenômeno. Apesar das possíveis vantagens da coloração rosa, os outros 22 gafanhotos encontrados durante a expedição de quatro meses já eram verdes quando foram observados. De acordo com os cientistas, isso pode demonstrar a eficácia da camuflagem rosa, ainda que eles acreditem que os exemplares dessa cor sejam minoria. Além disso, “não se sabe se a mudança de cor é reversível ou se o momento da transição é geneticamente predeterminado, mas, dadas as condições em que o indivíduo em questão foi criado, é possível que a dieta – isto é, o consumo de vegetação verde em sua gaiola de criação – e a cor de fundo – isto é, o repouso sobre vegetação verde em sua gaiola de criação – contribuam para a transição”, escreveram os pesquisadores.
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