Como esta espécie de palmeira inédita foi descoberta na Amazônia
Galileu [Unofficial]
March 18, 2026
A cada vez que a Amazônia é explorada, algo novo ganha luz no mundo científico. Dessa vez, na porção da floresta que se estende pelo território da Colômbia, dois pesquisadores da Universidade de Zurique (Suíça) descobriram e descreveram uma nova espécie de palmeira. A planta recebeu o nome de Attalea táam e foi descrita em uma publicação na revista científica Phytotaxa, em 23 de janeiro. Há 14 anos, Rodrigo Cámara-Leret e Juan Carlos Copete exploram as matas em busca de novas espécies de palmeiras, mas foi apenas no ano passado que obtiveram sucesso com as buscas. Os dois contaram com a ajuda da comunidade indígena Cacua, localizada no sudoeste da Colômbia, região de origem da árvore recém-descoberta. “Nossa descoberta da nova espécie de palmeira foi pura coincidência”, disse Copete, em comunicado. O incentivo veio de uma dica de um professor local que chamou a atenção dos dois pesquisadores, que viajaram para conhecer a comunidade. Os Cacua são cerca de 200 indígenas que vivem no coração da floresta primitiva e que têm pouquíssimo contato com o mundo exterior. Mesmo falando línguas diferentes, já que os indígenas se comunicam na sua língua nativa, os pesquisadores conseguiram conversar com a tribo, fazendo perguntas sobre os frutos por ali cultivados. O contato direto revelou, posteriormente, que as palmeiras que produziam os frutos, na verdade, cresciam em estado selvagem nos arredores da comunidade. A partir dessa informação, a curiosidade científica ganhou novas proporções. Uma descoberta conjunta Cámara-Leret e Copete contaram com a ajuda de anciãos e jovens caçadores Cacua para localizarem as populações de palmeiras que cresciam na floresta. Identificadas, eles coletaram e documentaram material vegetal sem colocar em risco a espécie. “(...) Eles [os Cacua] sabiam exatamente onde cada palmeira estava localizada”, disse Cámara-Leret. Quando retornaram à Suíça, os pesquisadores analisaram detalhadamente as características morfológicas das palmeiras e de seus frutos, examinaram suas flores e, claro, consultaram a literatura científica para saber se a espécie já tinha sido identificada. Ao mesmo tempo, os Cacua continuaram a mapear a distribuição dessas palmeiras pelo local com fotografias e registros sobre as condições do solo. Para chegar ao local onde a palmeira foi encontrada foi preciso uma fazer uma longa viagem barco seguida de uma caminhada de duas horas Juan Carlos Copete O nome Attalea táam deriva da palavra Cacua para “palmeira”. A planta é reconhecível pelas cicatrizes foliares em forma de anel, de cor marrom-alaranjada e bastante aparentes em seu tronco. Além disso, elas podem atingir até 23 metros de altura, coroadas por uma copa de folhas eretas que podem chegar a 12 metros de comprimento. O que mais surpreende sobre essa palmeira é que ela está entre as mais frequentes nas florestas tropicais de planície da Amazônia. No entanto, as suas diversas espécies são difíceis de se identificar, uma vez que exibem diferenças morfológicas significativas dentro de uma mesma espécie, com a maioria delas possuindo inflorescências masculinas e femininas, enquanto algumas são híbridas. Dividindo o trabalho Se não fosse pela ajuda dos Cacua, Cámara-Leret e Copete não teriam conseguido mapear a diversidade de espécies da região com rapidez. Segundo Cámara-Leret, eles puderam “fazer ciência de uma maneira diferente”, com o compartilhamento mútuo de conhecimentos. Pelo trabalho em conjunto, era importante que a comunidade indígena também participasse dos resultados do estudo. Então, de volta à Colômbia, os pesquisadores elaboraram um mapa de toda a região em conjunto com os Cacua e um artista colombiano, e permitiram que crianças em idade escolar desenhassem nele. “Insistimos em uma revisão por pares local para mostrar aos Cacua o quão valiosas são suas contribuições e opiniões. Não queríamos explorar o conhecimento indígena sem oferecer algo em troca”, disse Cámara-Leret. Um dos resultados dessa cooperação é o mapa, que foi apresentado à comunidade e apresenta os nomes dos rios, colinas e espécies de plantas que rodeiam a comunidade Cacua. Agora, os pesquisadores planejam obter imagens de satélite da região e, assim, proporcionar aos Cacua uma visão panorâmica de seu entorno. “Essa é a beleza da ciência: se você estiver aberto ao inesperado e dedicar o tempo necessário, será ricamente recompensado”, refletiu Cámara-Leret. O mapa colaborativo que mostra a localização da nova palmeira, "Attalea táam", foi produzido em colaboração com a Cacua Juan Carlos Copete
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