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“Efeito Breaking Bad”: diagnóstico de câncer pode aumentar em 14% a chance de condenação criminal, sugere estudo

Galileu [Unofficial] March 14, 2026
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Receber um diagnóstico de câncer não é fácil e pode desencadear respostas psicológicas complexas no paciente. Ansiedade, angústia e depressão podem estar entre os sintomas, além de que muitas pessoas passam a enxergar aspectos da vida de outra forma. Um novo estudo sugere, inclusive, que a notícia pode trazer um efeito inesperado: a maior incidência de ações criminosas. Segundo uma pesquisa publicada em janeiro na revista científica American Economics Journal: Applied Economics, pessoas que têm câncer possuem probabilidades maiores de serem condenadas por crimes nos anos seguintes ao diagnóstico. A conclusão do estudo lembra muito o que acontece com o professor de química Walter White, personagem da série de TV Breaking Bad que, após ser diagnosticado com um câncer de pulmão inoperável, começa a produzir metanfetamina em um trailer na busca de garantir o futuro financeiro de sua família após sua morte. Até mesmo os autores da pesquisa apelidaram o fenômeno de “efeito Breaking Bad”. Porém, a realidade, claro, não é tão mirabolante quanto a da série. Dados administrativos da Dinamarca, incluindo informações demográficas, trabalhistas, educacionais, de renda, patrimonial, de saúde e de antecedentes criminais, mostraram que os crimes reais praticados após o diagnóstico de câncer são bem menos complexos que os de White. Foram identificadas infrações especialmente associadas a furto em lojas e posse de drogas. Mergulho no crime Ao todo, foram analisados perfis de 368.317 pessoas diagnosticadas com câncer entre os anos de 1980 e 2018. Conforme matéria do site Science Alert destaca, o cruzamento dos registros de saúde com os registros criminais permitiu comparar o comportamento dos pacientes com um grupo controle que não havia recebido diagnósticos de câncer. O primeiro dado obtido foi que os pacientes recém-diagnosticados não apresentam sinais de criminalidade, com a taxa de condenações diminuindo. Isso porque, segundo os pesquisadores, grande parte dos pacientes passam o primeiro ano pós-diagnóstico em terapias intensivas e que demandam muito do corpo, como a quimioterapia e a radioterapia. Entretanto, o cenário muda a partir do segundo ano pós-diagnóstico. A chance dos pacientes serem condenados por crimes aumenta significativamente em relação ao nível pré-diagnóstico. O “efeito Breaking Bad” tende a crescer durante os cinco primeiros anos até estabilizar. Num geral, esse aumento nas condenações se encontra na faixa dos 14%. "A principal razão para essa diminuição inicial é intuitiva", escrevem os pesquisadores. Submeter-se a um tratamento contra o câncer é fisicamente desgastante e obriga o paciente a visitar ou permanecer no hospital por longos períodos”, escrevem os autores Reprodução/Freepik Efeitos do diagnóstico no bolso e na mente Os cientistas também procuraram entender as razões desse fenômeno acontecer, explorando fatores da vida de um paciente que poderiam influenciá-lo indiretamente a cometer crimes. O primeiro fator possível que foi sugerido é a economia. Mesmo que todos os diagnosticados tenham seguros de saúde gratuitos para cobrir o tratamento de câncer na Dinamarca, os impactos financeiros da doença podem vir de outras formas. Chances e disponibilidade para empregos diminuem, o que pode ter efeitos diretos na renda total. Só que crimes econômicos e contra o patrimônio não foram os únicos observados nas análises: o estudo também constatou um aumento grande associado a delitos violentos, sugerindo a presença de outros fatores. É possível até que uma morte prematura possa diminuir a preocupação geral diante de consequências de longo prazo. Leia mais notícias: De fato, os cientistas perceberam uma relação mais forte entre o câncer e a criminalidade em pacientes cujas chances de sobrevivência em cinco anos caíram mais acentuadamente durante o ano em que receberam o diagnóstico. Esse aumento de criminalidade de pacientes também foi verificado em locais em que programas de apoio social haviam sido reduzidos. “Programas de assistência social que atenuam as repercussões econômicas dos choques de saúde são eficazes na mitigação da externalidade negativa resultante sobre a sociedade”, observam os autores.

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