'Kiki ou bouba?': fenômeno psicológico que afeta humanos é identificado também em pintinhos
Galileu [Unofficial]
March 11, 2026
O que você, leitor, e um pintinho recém-nascido têm em comum? Talvez a sua resposta seja “nada”, mas um estudo publicado na revista Science em 19 de fevereiro revelou que os nossos cérebros são estranhamente semelhantes aos dessas aves. Bom, pelo menos no que diz respeito ao fenômeno psicológico bouba-kiki, que envolve uma curiosa associação entre formas e sons. O fenômeno funciona em todas as pessoas, seja qual for a sua origem cultural, as suas experiências pessoais ou o seu idioma nativo. Ele é definido pelo fato de que nós, seres humanos, associamos a palavra sem sentido “bouba” a formas arredondadas e disformes, enquanto “kiki” parece combinar com formas pontiagudas e irregulares. O mesmo efeito, curiosamente, também acontece com os pintinhos durante os seus primeiros dias de vida. Testes em pintinhos As pesquisas anteriores feitas sobre o efeito bouba-kiki partiram do pressuposto de que, independentemente do idioma, o cérebro humano possui uma maneira universal de conectar som e visão. Em outras palavras, isso quer dizer que “sentimos” certos sons como mais agudos ou mais suaves do que outros. Psicólogos da Universidade de Pádua, na Itália, perceberam que esse fenômeno poderia ir além da percepção humana e, por isso, decidiram descobrir quão fundamentalmente primitiva era essa associação. Foi daí que vieram os pintinhos. Com apenas três dias de vida, os animais foram colocados em um recinto onde a comida permaneceu escondida atrás de um painel decorado. A privação os estimulou a aprenderem a andar rapidamente ao redor do painel e, logo, eles o associaram a uma refeição recompensadora. Após essa etapa da pesquisa, os pintinhos foram apresentados a dois painéis. Dessa vez, o efeito bouba-kiki foi mais explorado pela equipe de cientistas: um dos painéis foi decorado com uma forma arredondada e o outro, com uma forma pontiaguda. O efeito bouba-kiki é um famoso experimento psicolinguístico que oferece um panorama sobre como o cérebro humano conecta experiências sensoriais. Na imagem, "kiki" à esquerda, "bouba" à direita Wikimedia Commons Mas ainda era preciso que os pintinhos fizessem a associação entre as formas e as palavras. Então, enquanto os animais escolhiam para onde ir, os pesquisadores repetiram continuamente o som “bouba” ou “kiki”. Quando “bouba” era reproduzido, os pintinhos tendiam a se dirigir para a forma arredondada. Já quando a palavra “kiki” ecoava, eles se deslocaram em direção ao painel pontiagudo. Testar esses animais com três dias de vida não foi o bastante para a equipe. Os pesquisadores decidiram ir além e submeteram pintinhos com apenas um dia de vida a outro experimento que, dessa vez, envolvia duas telas de vídeo que exibiam objetos em movimento. Os resultados seguiram os obtidos no experimento anterior: os animais demonstraram maior tendência a se dirigir para a forma pontiaguda quando os locutores pronunciavam a palavra "kiki" e vice-versa. Semelhança presente em vertebrados Os resultados demonstraram que não é apenas o cérebro humano que está predisposto a criar associações psicológicas entre sons e formas. Para os pesquisadores, esse resultado indica que os cérebros dos vertebrados podem compartilhar vias ancestrais em comum, que os ajudam a processar o mundo de maneira semelhante, apesar de os indivíduos pertencerem a espécies distintas. “Estes resultados revelam que o efeito bouba-kiki está profundamente enraizado na filogenia dos vertebrados, sugerindo que aves e mamíferos – e, por inferência, seu ancestral comum reptiliano – nascem com uma predisposição para associar certos tipos de sons a certos tipos de estímulos visuais”, escreveram os pesquisadores no artigo. Essa possibilidade, por outro lado, não significa que animais e seres humanos possuam linguagem ou pensamento simbólico parecidos. Na verdade, o fenômeno opera mais como uma manifestação da capacidade humana, que transcende qualquer meio específico de comunicação. Isso quer dizer que uma possível ligação entre os cérebros de todos os vertebrados ainda é um mistério.
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