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"textContent": "\nDurante décadas, a história das origens humanas foi contada de forma relativamente consensual: nossos primeiros ancestrais teriam surgido na África há cerca de 7 milhões de anos, onde também teria evoluído o bipedalismo — a capacidade de caminhar sobre duas pernas, considerada um dos marcos definidores da evolução humana. Contudo, a descoberta de um fêmur na Bulgária tem obrigado cientistas a reavaliar essa narrativa. O fóssil em questão foi escavado no sítio arqueológico de Azmaka, próximo à cidade de Chirpan, na Planície da Trácia Superior. Segundo a equipe internacional de pesquisadores que conduziram a sua análise, ele data de 7,2 milhões de anos e apresenta características associadas aos primeiros hominídeos. Suas observações renderam a publicação nessa quarta-feira (4) de um artigo na revista Palaeodiversity and Palaeoenvironments. Ao que tudo indica, o osso pertence a um indivíduo do gênero Graecopithecus sp., um primata pré-histórico cuja classificação como ancestral humano vem sendo debatida desde 2017, quando fragmentos de mandíbula e dentes do grupo foram encontrados na Grécia. O novo fóssil fornece pistas inéditas sobre a forma como esse animal se locomovia — e é justamente aí que está o potencial revolucionário da descoberta. Um candidato a ancestral humano Segundo os cientistas, o fêmur apresenta características anatômicas compatíveis com a locomoção bípede. Entre elas estão um colo femoral alongado e orientado para cima, além de pontos específicos de inserção muscular e uma espessura particular da camada externa do osso — traços semelhantes aos observados em ancestrais humanos e nos próprios humanos modernos. “A morfologia externa e interna do fêmur apresenta semelhanças com fósseis de ancestrais humanos bípedes”, afirma o paleontólogo Nikolai Spassov, pesquisador do Museu Nacional de História Natural da Bulgária e coautor do artigo, em comunicado divulgado pela Universidade de Tübingen. O osso pertenceu provavelmente a uma fêmea que pesava cerca de 24 quilos, que viveu às margens de um rio em um ambiente de savana. Na época, a região teria uma paisagem semelhante à das savanas da atual África Oriental. Por mais que apresentasse tais características, o Graecopithecus sp. não caminhava exatamente como os humanos atuais. O fêmur tinha uma combinação de traços típicos de grandes símios e de bípedes posteriores, sugerindo uma forma intermediária de locomoção. Para os pesquisadores, isso indica que o animal possivelmente se movia alternando entre o bipedalismo e o quadrupedalismo, em um estágio de transição evolutiva. O fêmur reconstruído FM3549AZM6, incluindo o fragmento distal separado, mas unido (ver Texto principal, Figura 1 ), com fêmures de Pan e Australopithecus afarensis (AL 288-1) sobrepostos Nikolai Spassov et al. Se a interpretação estiver correta, o exemplar pode alterar a forma como desenhamos a evolução dos hominídeos. “Com 7,2 milhões de anos, este ancestral que classificamos como pertencente ao gênero Graecopithecus sp. pode ser o humano mais antigo conhecido”, aponta o antropólogo David Begun, professor da Universidade de Toronto, no Canadá, e coautor da produção. Atualmente, o título de hominíneo mais antigo amplamente aceito pertence ao gênero Orrorin sp., descoberto no Quênia e datado de aproximadamente 7 milhões de anos. Esse primata já possuía indícios claros de bipedalismo, característica que o distingue dos chimpanzés e de outros grandes símios. Caso o Graecopithecus sp. seja confirmado como membro da linhagem humana, ele não apenas antecederia o Orrorin sp., como também deslocaria a origem dos hominídeos da África para a Eurásia. Origem eurasiática Segundo os pesquisadores, o Graecopithecus sp. provavelmente descende de primatas que viviam nos Bálcãs e na Anatólia entre 8 e 9 milhões de anos atrás, como Ouranopithecus sp. e Anadoluvius sp. Esses animais, por sua vez, teriam evoluído a partir de ancestrais ainda mais antigos da Europa Ocidental e Central. Mudanças climáticas ocorridas entre 8 e 6 milhões de anos atrás podem ter desempenhado um papel crucial nesse processo evolutivo. Durante o final do Mioceno, transformações ambientais no Mediterrâneo oriental e na Ásia Ocidental provocaram a expansão de regiões áridas e semidesérticas. A redução das florestas teria pressionado diversos primatas a se adaptar a ambientes mais abertos, favorecendo a locomoção terrestre e, possivelmente, o surgimento do bipedalismo. Ao mesmo tempo, essas mudanças ambientais teriam impulsionado ondas de migração de mamíferos eurasiáticos para a África, processo que ajudou a moldar a fauna das savanas africanas atuais. Para a paleontóloga Madelaine Böhme, coautora da Universidade de Tübingen, os grandes símios podem ter seguido esse mesmo caminho. Nesse cenário, populações de primatas originárias da Eurásia teriam migrado para o continente africano, onde mais tarde surgiriam formas mais reconhecíveis da linhagem humana. Nesse contexto evolutivo, Graecopithecus sp. pode ocupar uma posição intermediária. “O Graecopithecus sp. representa um estágio na evolução humana entre nossos ancestrais arborícolas e terrestres. Certamente poderíamos descrevê-lo como um elo perdido”, avalia Begun. Se essa interpretação estiver correta, os primeiros representantes da linhagem humana podem ter surgido na Eurásia e apenas posteriormente se estabelecido na África, onde evoluíram os gêneros hominídeos posteriores, como os Australopithecus sp., grupo ao qual pertence o famoso fóssil “Lucy”, e, finalmente, o gênero Homo sp. Debate longe de terminar Apesar do entusiasmo em torno da descoberta, os próprios cientistas reconhecem que a hipótese ainda precisa ser testada. A classificação do Graecopithecus sp. como hominíneo permanece controversa, e novas evidências fósseis serão essenciais para esclarecer sua posição na árvore evolutiva. Escavações continuam em Azmaka e em outros sítios arqueológicos dos Bálcãs, na esperança de encontrar mais espécimes que ajudem a reconstruir a biologia e o ambiente desse primata primitivo.",
"title": "Fóssil que pertenceria ao 1º ancestral humano sugere que humanidade não surgiu na África"
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