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O que é cremação com água, procedimento recém-legalizado por país no Reino Unido

Galileu [Unofficial] March 3, 2026
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A Escócia tornou-se a primeira parte do Reino Unido a legalizar a chamada cremação com água, também conhecida como “aquamação” ou “hidrólise alcalina”. A mudança é considerada a mais significativa na legislação funerária local desde a introdução da cremação tradicional, em 1902. A medida aprovada pelo parlamento escocês reflete a crescente demanda por práticas funerárias ambientalmente mais sustentáveis. Difundido em diferentes regiões do mundo, o procedimento é uma alternativa ecológica ao enterro convencional e à cremação por fogo. De acordo com o portal IFLScience, a Escócia passou nesta segunda-feira (2) a permitir oficialmente essa modalidade, que utiliza um processo químico para acelerar a decomposição natural do corpo humano. O corpo é colocado em um cilindro metálico pressurizado e aquecido, contendo água misturada a cerca de 5% de uma solução alcalina forte, como hidróxido de potássio. A temperatura pode variar entre aproximadamente 90°C e 150°C, enquanto a pressão impede a ebulição do líquido. O processo dura, em média, de três a quatro horas. A combinação de calor, pressão e alcalinidade dissolve os tecidos moles, replicando de forma acelerada o que ocorreria naturalmente após o sepultamento. Ao final, restam apenas os ossos, que são secos e reduzidos a um pó fino. Esse material, semelhante às cinzas da cremação tradicional, é entregue à família, que pode armazená-lo em urna, espalhá-lo ou enterrá-lo. Uma diferença notável é a sua coloração. Enquanto as cinzas da cremação convencional tendem ao cinza, o resíduo da hidrólise é descrito como mais claro, frequentemente branco, e em volume ligeiramente maior. Impacto ambiental A principal justificativa para a legalização da prática é ambiental. A cremação tradicional exige grande quantidade de energia para manter fornos em temperaturas elevadas, liberando milhões de toneladas de dióxido de carbono por ano, além de poluentes atmosféricos como material particulado fino (PM10 e PM2.5), associados a riscos à saúde. Enquanto isso, a aquamação utiliza aproximadamente um sétimo da energia demandada pela cremação convencional e poderia reduzir a pegada de carbono em até 75%. Além disso, não produziria emissões tóxicas diretas para o ar. O líquido resultante do processo é descrito como uma solução estéril de compostos orgânicos — incluindo sais e aminoácidos — que pode ser neutralizada e descartada de forma segura ou até reaproveitada como fertilizante. De acordo com o jornal The Guardian, outro ponto destacado por defensores do método é a possibilidade de diminuir o uso de caixões descartáveis, já que eles não são necessários na hidrólise. A técnica também dispensa a remoção prévia de dispositivos como marcapassos e permite a contenção e reciclagem de mercúrio proveniente de tratamentos dentários, em vez de liberá-lo na atmosfera por combustão. Durante a cremação por água, o corpo é colocado em um cilindro metálico pressurizado e aquecido, contendo água misturada a cerca de 5% de uma solução alcalina forte, como hidróxido de potássio Wikimedia Commons Regulamentação e implementação A ministra da Saúde Pública do governo escocês, Jenni Minto, afirmou, em coletiva de imprensa, que as decisões sobre o destino dos restos mortais são profundamente pessoais e moldadas por valores individuais e crenças familiares. Segundo ela, a nova alternativa responde ao apoio público por maior diversidade de escolhas funerárias e representa a primeira nova opção disponibilizada em mais de 120 anos. Minto ainda ressaltou que a hidrólise estará sujeita aos mesmos requisitos regulatórios aplicáveis aos métodos já existentes. Em outras partes do Reino Unido, a Comissão de Direito da Inglaterra e do País de Gales analisa a criação de um marco regulatório para novos métodos funerários, incluindo tanto a hidrólise quanto a compostagem humana. A empresa Kindly Earth, que detém os direitos exclusivos de fabricação dos equipamentos de hidrólise no Reino Unido, informou que a primeira unidade na Escócia pode levar até nove meses para entrar em operação, uma vez que dependerá de licenças de construção e autorização da autoridade local de água. A gerente geral da companhia, Helen Chandler, descreveu o momento como histórico para o setor funerário escocês, enfatizando que o objetivo não é substituir práticas existentes, mas ampliar as opções disponíveis às famílias. A prática já é legal em 28 estados dos Estados Unidos, além de países como Canadá, Irlanda, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia. O arcebispo sul-africano Desmond Tutu, inclusive, optou pela cremação por água em seu funeral, em 2022, gesto que ajudou a dar visibilidade internacional ao método. Para Andrew Purves, diretor de operações da William Purves Funeral Directors e integrante do grupo que assessora o governo escocês, o interesse crescente por funerais sustentáveis reflete uma consciência ambiental já presente em outras esferas da vida cotidiana. Ele lembra que, há mais de um século, a introdução da cremação tradicional também dividiu opiniões e enfrentou resistência pública.

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