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"textContent": "\nPor décadas, a imagem de árvores reluzentes pertenceu ao campo da ficção científica, como na série de filmes de Avatar, dirigidos por James Cameron. Mas, ao contrário do fenômeno bioluminescente retratado nas florestas de Pandora, o que pesquisadores agora documentaram em florestas reais tem origem elétrica — e foi finalmente observado fora do laboratório. Meteorologistas registraram, pela primeira vez na natureza, um brilho tênue envolvendo copas de árvores durante tempestades. O fenômeno, conhecido como “corona”, já era suspeito há cerca de meio século, mas só havia sido reproduzido em condições controladas. A confirmação em ambiente real foi detalhada em artigo publicado no dia 12 de fevereiro na revista Geophysical Research Letters. Caça a tempestades Durante tempestades, nuvens carregadas negativamente induzem uma carga positiva no solo. Pela atração entre cargas opostas, o campo elétrico se intensifica na superfície terrestre. Em áreas florestadas, essa carga sobe pelos troncos e galhos, que funcionam como condutores, até alcançar as extremidades das folhas. Nesses pontos, a concentração elétrica pode se tornar suficientemente intensa para ionizar moléculas do ar ao redor, criando um plasma. Quando essas moléculas retornam ao seu estado original ou se recombinam, emitem luz. O resultado é uma cintilação breve e difusa: a corona. Registrar esse tipo de fenômeno não é uma tarefa fácil. Sua dificuldade reside, sobretudo, na detecção óptica. A luminosidade ambiente geralmente impede que a ocorrência seja observada em comprimentos de onda visíveis. Por isso, para contornar o obstáculo, os pesquisadores da Universidade Estadual da Pensilvânia, nos Estados Unidos, decidiram buscar o sinal no ultravioleta (UV). Eles construíram do zero um instrumento que combinava telescópio, periscópio e uma câmera UV de alta velocidade, montado sobre uma minivan. No verão de 2024, percorreram regiões da Florida até a Pensilvânia em perseguição a tempestades. Sinais UV da corona observados sob uma tempestade em 27 de junho de 2024. (a) Localização aproximada de todos os 859 sinais UV da corona observados durante o período de observação de aproximadamente 1,5 hora em uma árvore de liquidâmbar. Cada sinal UV da corona é colorido pelo número total de fótons UV isotrópicos entre 255 e 273 nm emitidos pela descarga corona, estimado a partir dos pixels iluminados observados naquele quadro. Os retângulos representam o campo de visão da câmera UV do Sistema de Telescópio de Observação da Corona (COTS), e as cores indicam o tempo de observação para o galho dentro de cada retângulo. Painel (b) como em (a), mas para todos os 93 sinais UV da corona observados durante o período de observação de aproximadamente 20 minutos em um pinheiro-de-folhas-longas. As localizações dos retângulos e dos sinais UV da corona são apenas aproximadas, pois o vento moveu os galhos para dentro e para fora do campo de visão do COTS Patrick McFarland et al. O momento decisivo ocorreu na Carolina do Norte, onde uma tempestade incomumente longa — cerca de 90 minutos — permitiu observações detalhadas. Duas árvores, um liquidâmbar e um pinheiro, foram monitoradas simultaneamente por câmeras convencional e UV. Pontos cintilantes registrados no ultravioleta coincidiam com as extremidades dos galhos em movimento. As imagens confirmaram não apenas a existência das coronas em ambiente natural, mas também sua ocorrência simultânea em diferentes espécies. Outro achado intrigante foi o comportamento “saltitante” do brilho, que parecia migrar rapidamente entre pontas de folhas em galhos distintos. Isso sugere que a alternância de caminhos de condução elétrica ou variações no campo elétrico podem ser características fundamentais do fenômeno. Observações adicionais ao longo do verão reforçaram o padrão identificado na Carolina do Norte. “Se fosse possível enxergar essas coronas a olho nu sob uma tempestade, veríamos um espetáculo de luzes com incontáveis cintilações surgindo na copa das árvores”, afirma Patrick McFarland, primeiro autor da pesquisa, em entrevista à revista Science. “É fantástico ter uma prova concreta.” Implicações atmosféricas As consequências potenciais do estudo vão além do aspecto visual. As coronas devem produzir radicais hidroxila (OH), moléculas frequentemente chamadas de “detergente da atmosfera”, por reagirem com metano e monóxido de carbono, contribuindo para sua decomposição. Ao mesmo tempo, podem participar da formação de névoas e smog ao interagir com compostos orgânicos voláteis liberados pelas próprias árvores. Embora a quantidade gerada durante uma tempestade seja insuficiente para alterar o clima global, pode haver impacto na qualidade do ar na vizinhança imediata da copa florestal, segundo explica McFarland. Os registros também ajudam a compreender os “streamers” — descargas elétricas que precedem a formação completa de um raio. Ainda que seja improvável que as coronas nas árvores persistam o bastante para evoluir para esses estágios mais intensos, elas parecem anteceder processos semelhantes nas nuvens, cuja investigação direta é complexa. Resta saber se a atividade elétrica provoca danos às plantas. Experimentos laboratoriais anteriores mostraram que pontas de folhas podem apresentar queimaduras visíveis após poucos segundos sob voltagens semelhantes às de uma corona. No entanto, árvores são organismos notavelmente resilientes. Caso o fenômeno cause prejuízos, é plausível que também existam adaptações evolutivas para mitigá-los. Por ora, a equipe interrompeu as expedições para aprimorar a sensibilidade do equipamento, que detectou apenas os brilhos mais intensos. Como destaca McFarland, é possível — e talvez provável — que o fenômeno seja mais disseminado do que os registros atuais indicam. A confirmação de que copas de árvores realmente cintilam sob certas condições atmosféricas não apenas valida uma hipótese antiga, como também acrescenta uma peça importante ao quebra-cabeça da eletrificação das tempestades. Para os cientistas atmosféricos, cada novo dado ajuda a iluminar os mecanismos que culminam no espetáculo dos relâmpagos.",
"title": "Cientistas flagram brilho emitido por árvores durante tempestade pela 1ª vez"
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