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Usar IA para escolher o que você vai comer resulta em refeições menos saudáveis

Galileu [Unofficial] February 26, 2026
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Cada vez mais as redes de fast food têm adotado as IAs para atender aos pedidos, sobretudo os feitos por drive-thru. Agora, pesquisadores da Universidade Estadual da Pensilvânia (Estados Unidos) descobriram que, com a substituição dos atendentes humanos, os consumidores tendem a optar por refeições menos saudáveis. As conclusões da equipe serão publicadas na edição de abril do International Journal of Hospitality Management, mas já podem ser conferidas online. Em comunicado, Chandler Yu, da Universidade, afirmou que a pesquisa se destaca por mostrar que não há como o uso da tecnologia ser neutro. “Até mesmo pequenos detalhes de design – como se os clientes interagem com um humano, uma voz de IA ou uma IA com um avatar – podem mudar a tomada de decisões de maneiras significativas”. Como o estudo foi feito? Para realizar o estudo, os pesquisadores recrutaram 117 pessoas online, que foram aleatoriamente designadas para uma interação com IA de voz ou para uma interação com um humano. Em seguida, eles assistiram a um vídeo de um minuto que simulava o espectador fazendo um pedido no estilo drive-thru antes de fazer o seu pedido. Foram apresentadas duas combinações de comida: uma mais calórica, com cheeseburger e batatas fritas; e outra mais saudável, com bife grelhado acompanhado de uma salada de frutas. Com o desgaste mental do dia a dia, as pessoas têm mais dificuldade em escolher se alimentar de maneira equilibrada e saudável Pexels Os resultados revelaram uma diferença significativa entre os grupos. Aqueles que interagiram com a IA de voz demonstraram maior propensão a escolher a combinação mais calórica, enquanto os participantes que fizeram o pedido com um atendente humano tenderam a optar com mais frequência pela alternativa saudável. “Enquanto as redes de fast food adotaram a tecnologia de IA para pedidos no drive-thru, outras estavam encerrando seus programas devido a preocupações com precisão e satisfação do cliente”, explicou Yu. “Esses desenvolvimentos contrastantes nos deixaram curiosos. A pesquisa mostrou que sistemas de pedidos com IA podem, discretamente, direcionar os clientes para alimentos mais calóricos. Para as empresas, isso significa que a própria tecnologia está moldando o comportamento do consumidor.” Mas o que explica esse efeito? Para responder essa pergunta, os pesquisadores conduziram um segundo estudo, recrutando mais 123 participantes online. O procedimento foi idêntico ao anterior, mas, desta vez, a equipe mediu os níveis de depleção cognitiva, isto é, o cansaço mental provocado pela interação. Segundo Yu, conversar com uma IA de voz pode gerar um desgaste momentâneo. Diferentemente de uma interação humana, o sistema automatizado exige atenção redobrada: é preciso falar de forma clara, confirmar se a solicitação foi compreendida corretamente e acompanhar as informações sem contar com expressões faciais, entonações naturais ou outras pistas sociais exclusivamente humanas. Yu contou que, quando as pessoas estão mentalmente cansadas, elas tendem a pensar menos e ficam mais propensas a escolher o que lhes oferece prazer imediato, um fator que acaba sendo bem aproveitado com a intermediação das IAs. “Após um dia exaustivo, é comum desejar sorvete, batatas fritas ou fast food em vez de uma refeição equilibrada. Escolher algo saudável exige mais esforço mental e autocontroles”. Diante desse cenário, a equipe decidiu investigar se seria possível reduzir o impacto da IA de voz nas decisões alimentares. Os alimentos mais calóricos disponíveis nas redes fast foods são mais aprazíveis no final do dia e a sua escolha acaba sendo potencializada com o envolvimento do atendimento das IAs Wikimedia Commons No terceiro estudo, 164 novos participantes foram recrutados online. Eles assistiram a um vídeo simulando um pedido em um drive-thru com IA de voz. Desta vez, o estudo contou com uma variação: parte do grupo interagiu com um sistema que incluía um avatar semelhante a um humano; a outra parte utilizou apenas a voz automatizada. Em seguida, todos precisaram escolher entre a refeição mais calórica ou a saudável. Os resultados foram promissores para uma alimentação mais saudável: “pequenas alterações no design, como adicionar um avatar amigável, podem reduzir a fadiga mental e levar a decisões mais equilibradas”, disse Yu. As conclusões têm implicações diretas para o mercado. Marcas focadas em alimentos mais calóricos podem se beneficiar da adoção de sistemas de pedidos por voz, já que a tecnologia tende a aumentar a demanda por comidas reconfortantes. Por outro lado, empresas que desejam incentivar hábitos mais saudáveis precisam avaliar com cautela a implementação dessas ferramentas. Além das estratégias comerciais, há também uma dimensão ética a ser considerada. Os pesquisadores alertam que muitos consumidores podem não perceber que suas escolhas estão sendo influenciadas pela interface tecnológica. Se sistemas de IA acabam incentivando decisões menos saudáveis, surgem preocupações relacionadas ao bem-estar do consumidor. “Essas descobertas vão além do setor de alimentação. À medida que a IA se torna mais presente nas decisões cotidianas, fica evidente que suas interfaces podem influenciar sutilmente o comportamento humano”, observou Yu. Para a pesquisadora, compreender esses efeitos é fundamental para que empresas, designers e formuladores de políticas desenvolvam sistemas que sejam eficientes, responsáveis, transparentes e alinhados ao bem-estar do consumidor.

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