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Descoberta brasileira pode mudar o que se sabe sobre a evolução dos crocodilos

Galileu [Unofficial] February 25, 2026
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Os crocodilos modernos são conhecidos por um crescimento lento e prolongado, associado a um metabolismo relativamente baixo quando comparado ao de aves e mamíferos. Por quase dois séculos, esse padrão foi interpretado como uma herança profunda da linhagem crocodiliana, mas um novo estudo liderado por pesquisadores do Museu Nacional, vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), indica que essa característica pode ser uma aquisição evolutiva mais recente. Para chegar a tal conclusão, o estudo investigou como crescia Dynamosuchus collisensis, uma espécie que viveu há cerca de 231 milhões de anos, no período Triássico, e cujos fósseis foram encontrados no sítio paleontológico de Várzea do Agudo, no Rio Grande do Sul. O animal pertence aos Ornithosuchidae, um dos ramos mais basais de Pseudosuchia, a linhagem que inclui os crocodilos atuais e seus parentes extintos. A pesquisa foi liderada pelo biólogo Brodsky Dantas Macedo de Farias, pesquisador de pós-doutorado no Museu Nacional, sob a supervisão de Marina Bento Soares, professora do Departamento de Geologia e Paleontologia da instituição. Detalhes da descoberta foram descritos em um artigo publicado no dia 4 de fevereiro na revista científica Royal Society Open Science. O que os ossos revelam? De forma a reconstituir o ritmo de crescimento do animal, os pesquisadores recorreram à paleohistologia, técnica analisa cortes microscópicos de ossos fossilizados. “Essa é uma ferramenta fundamental para entender como os animais cresciam e a idade individual de espécies extintas, nos ajudando a preencher importantes lacunas sobre a vida de vertebrados que viveram há milhões de anos”, aponta Farias, em comunicado enviado à imprensa. Foram examinadas lâminas do úmero, do fêmur e de uma costela do exemplar. A microestrutura revelou ossos altamente vascularizados, com predomínio de tecidos associados a deposição rápida. Esse padrão é típico de animais que apresentam crescimento acelerado durante a juventude. Dynamosuchus collisensis. (A) Localidade e contexto geológico do sítio Várzea do Agudo, no Rio Grande do Sul. (B) Visão geral do afloramento, com a localidade onde o espécime foi coletado, indicada por uma estrela branca. (C) Reconstrução de Dynamosuchus collisensis Brodsky Dantas Macedo Farias et al. Os pesquisadores identificaram, ao todo, três marcas anuais de crescimento no úmero e quatro no fêmur. “Isso nos permite estimar que o exemplar tinha pelo menos quatro anos quando morreu”, explica Soares. A hipótese é reforçada pela ausência de um "sistema fundamental externo", que indica desaceleração definitiva do crescimento. Sem essa estrutura óssea de transição, os autores entenderam que o indivíduo analisado ainda deveria estar longe do ponto de maturidade esquelética. Metabolismo e estratégia de vida Em crocodilos atuais, o crescimento tende a ser mais lento e sustentado ao longo da vida, com deposição óssea menos vascularizada e marcada por ciclos bem definidos. Esse padrão está associado a taxas metabólicas relativamente baixas, compatíveis com estratégias energéticas conservadoras. Microestrutura óssea do úmero direito de Dynamosuchus collisensis. Os quadrados ou retângulos pretos representam vistas ampliadas Brodsky Dantas Macedo Farias et al. No caso de Dynamosuchus collisensis, o cenário era diferente. A predominância de tecido ósseo de deposição rápida e a manutenção de alta vascularização até as camadas mais externas do osso indicam que o animal mantinha crescimento acelerado contínuo no momento da morte. Além das evidências microscópicas, a análise das vértebras mostrou suturas neurocentrais abertas, ou seja, os seus arcos neurais ainda não haviam se fundido completamente aos centros vertebrais — outro indicativo de imaturidade. Juntas, as duas linhas de evidência confirmam que o espécime era juvenil, mas já alcançava cerca de dois metros de comprimento. De acordo com os autores, esse padrão aproxima os ornithosuchídeos de outros grandes arcossauros triássicos que exibiam fases prolongadas de crescimento rápido. Se for confirmado que tal característica é ancestral no grupo crocodilomorfos, isso significa que o padrão lento observado nos crocodilos modernos teria surgido só mais tarde na linha evolutiva desses répteis. Essa evidência pode implicar em uma mudança significativa no paradigma da fisiologia e da estratégia de vida da linhagem desses animais. Daí a importância desse projeto, o qual segue ativo e em busca de novos desdobramentos.

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