A Lua está encolhendo. Mas o que isso significa exatamente?
Galileu [Unofficial]
February 19, 2026
A afirmação de que a Lua está “encolhendo” não é apenas uma figura de linguagem para se referir à passagem de suas fases ao longo do mês. Na verdade, isso é resultado de um processo geofísico intenso e acompanhado pelos astrônomos. Estima-se que, nos últimos 200 milhões de anos, o satélite natural da Terra tenha perdido cerca de 50 metros em seu raio, à medida que seu interior esfriou e se contraiu. O fenômeno já era conhecido pelos cientistas há pelo menos 15 anos. Mas, agora, ganha novos contornos com o primeiro mapa de pequenas cristas tectônicas espalhadas pelos mares lunares, produzido por especialistas do CEPS (Centro de Estudos da Terra e dos Planetas do Museu Nacional do Ar e do Espaço). Suas observações foram publicadas em um artigo na revista The Planetary Science Journal em dezembro. Atividade tectônica lunar Ao contrário da Terra, que tem crosta segmentada em placas tectônicas que convergem, divergem e deslizam entre si, a Lua não possui placas móveis. Vale lembrar, porém, que nenhum outro mundo do Sistema Solar apresenta essas estruturas e, mesmo assim, isso não impede que seus solos tremam. Desde as missões Apollo, sabe-se que o satélite natural não é geologicamente inerte, e sofre com tremores, que recebem o nome de sismos lunares ou “lunamotos”. No caso, o motor dessas deformações é o resfriamento progressivo do interior lunar. A maioria das montanhas na Terra se forma quando placas tectônicas colidem e a crosta terrestre se deforma. Não é o caso da Lua, onde as montanhas se formam como resultado de impactos, como observado pela sonda Lunar Reconnaissance Orbiter da NASA NASA À medida que suas camadas internas perdem calor, o volume total do corpo diminui. A crosta rígida responde a essa contração fraturando-se e comprimindo-se, formando estruturas características. Uma das feições mais conhecidas desse processo são as chamadas "falhas de pressão" (escarpas em forma de lóbulo que surgem quando a crosta é comprimida e empurrada sobre blocos adjacentes ao longo de uma falha). Encontradas principalmente nas terras altas claras da Lua, essas estruturas são relativamente jovens, tendo se formado nos últimos milhões de anos. Foi a partir da análise dessas escarpas que uma equipe de pesquisadores, liderado por Tom Watters, do CEPS, demonstraram, em 2010, que a Lua está lentamente se contraindo. Pequenas cristas dos mares O novo estudo concentra-se em outra classe de estruturas tectônicas: as SMRs (small mare ridges), cristas localizadas exclusivamente nos mares lunares — as extensas planícies basálticas escuras, como o Mar da Tranquilidade. O catálogo identifica 1.114 segmentos de SMRs na face visível da Lua, elevando o total conhecido para 2.634. Calcula-se que a idade dessas cristas seja de 124 milhões de anos. Tal número é muito próximo à média das falhas de pressão (105 milhões de anos). Isso indica que ambas estão entre as estruturas geológicas mais jovens da Lua. Mais do que isso, a análise mostrou que as SMRs se formam pelo mesmo tipo de falha responsável pelas escarpas nas terras altas. Em diversas regiões, observa-se uma transição direta, nas quais as escarpas das áreas elevadas prolongam-se e se transformam em cristas ao alcançar os mares basálticos. Para Cole Nypaver, que assina o estudo, o achado representa um avanço conceitual importante. “Desde a era Apollo, sabemos da existência das falhas de pressão nas terras altas lunares, mas esta é a primeira vez que cientistas documentam a ocorrência generalizada de feições semelhantes nos mares lunares”, afirma ele, em comunicado. “Este trabalho nos ajuda a obter uma perspectiva global completa do tectonismo lunar recente, o que levará a uma maior compreensão de seu interior e de sua história térmica e sísmica, e do potencial para futuros lunamotos.” Mais áreas sujeitas a tremores A relevância do estudo vai além do mapeamento geomorfológico. Pesquisas anteriores já haviam estabelecido uma ligação entre a atividade tectônica que forma as falhas de pressão e a ocorrência de sismos lunares. Se as SMRs têm a mesma origem estrutural, então é possível que os mares lunares também possam concentrar fontes de abalos. Como observa o portal Live Science, as novas evidências reforçam que a contração da Lua continua a produzir deformações recentes – e potencialmente tremores. Essa ampliação do inventário de possíveis fontes sísmicas cria oportunidades científicas, mas também impõe cautela. A perspectiva de futuras bases humanas ou missões tripuladas torna essencial compreender onde a crosta está sob maior estresse tectônico. O momento é particularmente estratégico, uma vez que campanhas como a Artemis pretendem levar astronautas novamente à superfície lunar ainda nesta década. “Os próximos programas de exploração fornecerão uma grande quantidade de novas informações sobre nossa Lua. Uma melhor compreensão da tectônica e da atividade sísmica lunar beneficiará diretamente a segurança e o sucesso científico dessas e de futuras missões”, avalia Nypaver.
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