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Cientistas criam cueca inteligente para medir quantos puns soltamos por dia

Galileu [Unofficial] February 13, 2026
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Pesquisadores da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, desenvolveram a primeira “cueca inteligente” capaz de medir objetivamente a quantidade de puns produzida por uma pessoa ao longo do dia. O equipamento utiliza sensores eletroquímicos para rastrear hidrogênio presente nos gases intestinais e promete reformular suposições antigas da medicina sobre os padrões das flatulências. Em nota compartilhada na terça-feira (10), os autores explicam que o dispositivo consiste basicamente em um pequeno módulo que se encaixa discretamente em qualquer roupa íntima e monitora, em tempo real, a produção de gases ao longo de 24 horas. O seu interesse é oferecer uma medida objetiva para um fenômeno que, até hoje, dependia basicamente de relatos pessoais — método sujeito a falhas de memória, constrangimento e à impossibilidade de registrar eventos durante o sono. Problema antigo da gastroenterologia Há décadas, médicos enfrentam dificuldades para avaliar queixas relacionadas aos gases intestinais. Até então, a ausência de métricas confiáveis sempre limitou diagnósticos e tratamentos para os excessos de gases. Daí a importância do dispositivo. Modelo de roupa íntima inteligente com o dispositivo detector de flatulências Brantley Hall/Universidade de Maryland Liderada por Brantley Hall, professor assistente do Departamento de Biologia Celular e Genética Molecular, a equipe publicou seus resultados em outubro de 2025 na revista Biosensors and Bioelectronics: X. O estudo revelou que adultos saudáveis produzem, em média, 32 episódios de flatulência por dia. Achou muito? Os cientistas também: o número representa quase o dobro dos 14 eventos diários frequentemente citados na literatura médica. A variação individual, no entanto, mostrou-se expressiva. Enquanto alguns participantes registraram apenas quatro episódios em 24 horas, outros chegaram a 59. Para os autores, essa amplitude desafia a ideia de que um valor mediano possa descrever adequadamente a fisiologia humana. Medição na prática A maioria dos gases intestinais é composta por hidrogênio, dióxido de carbono e nitrogênio. Em alguns indivíduos, também é possível encontrar metano nas flatulências. O hidrogênio tem papel central no monitoramento porque é produzido exclusivamente por microrganismos do intestino durante a fermentação de substratos alimentares. Assim, acompanhar continuamente sua liberação equivale a observar, em tempo real, a atividade metabólica do microbioma intestinal. Hall compara o aparelho a um “monitor contínuo de glicose”, mas voltado para gases intestinais. Como descreve a revista Scientific American, o equipamento foi utilizado por 38 adultos saudáveis durante uma semana. Os participantes seguiram uma dieta controlada com baixo teor de fibras; parte deles recebeu suplementação de fibra ao longo do estudo para estimular maior produção de hidrogênio. O dispositivo detectou o aumento da atividade microbiana com sensibilidade de 94,7%, segundo os dados apresentados. O estudo não avaliou o odor ou a intensidade sonora dos gases, apenas a sua frequência e os níveis de hidrogênio associados a eles. Revisando o que é “normal” A discrepância entre as estimativas antigas e os novos dados se explica, em grande parte, pela metodologia aplicada. Pesquisas anteriores dependiam de amostras pequenas, técnicas invasivas ou relatos pessoais. Além disso, a sensibilidade visceral varia amplamente: duas pessoas podem produzir volumes semelhantes de gases, mas perceber a experiência de maneira muito diferente. Visão geral da roupa íntima inteligente: (A, B) A versão final da roupa íntima inteligente é o resultado de cinco iterações consecutivas com várias melhorias em tamanho (26 × 29 × 9 mm), conforto e confiabilidade. (C) A Smart Underwear é fixada à parte externa da roupa íntima usando um prendedor disponível em diferentes tamanhos para se adequar a quase todos os tipos de roupa íntima. (D) A Smart Underwear possui dois componentes sensores principais para detecção de gases, além de sensores de temperatura, umidade e acelerômetro para rastrear quando o dispositivo está sendo usado. Além disso, o dispositivo se conecta via Bluetooth a um telefone para transmissão de dados Santiago Botasini et al. “Não sabemos realmente qual é a produção normal de flatos”, explica Hall, no comunicado. “Sem essa linha de base, é difícil determinar quando a produção é realmente excessiva.” Para enfrentar essa lacuna, o laboratório lançou o projeto "Human Flatus Atlas", que pretende mapear padrões de flatulência em larga escala nos Estados Unidos. Os dispositivos são enviados diretamente aos voluntários, permitindo participação remota. O objetivo é estabelecer parâmetros populacionais comparáveis aos já existentes para glicemia ou colesterol. A equipe está recrutando participantes em três categorias principais: Digestores Zen: pessoas que consomem dietas ricas em fibras (25 a 38 gramas por dia) mas produzem poucos gases, potencialmente um modelo de adaptação eficiente do microbioma; Hiperprodutores de Hidrogênio: pessoas que produzem grande quantidade de flatos; e Grupo intermediário: representando o padrão mais comum. Nos extremos, os pesquisadores também coletarão amostras de fezes para análise do microbioma. Sua ideia é buscar entender quais microrganismos e quais vias metabólicas estão associadas à maior ou menor produção de hidrogênio. Implicações clínicas e científicas Além de satisfazer uma curiosidade universal, o dispositivo pode ter implicações clínicas relevantes. Conhecer a faixa normal de produção de gases pode, por exemplo, orientar tratamentos para pacientes com queixas de flatulência excessiva ou distensão abdominal. Mais amplamente, o projeto pode ainda ajudar a transformar a compreensão funcional do microbioma intestinal. Como destaca Hall, a ciência já avançou muito na identificação de quais microrganismos habitam o intestino, mas ainda sabe pouco sobre o que eles estão fazendo em cada momento. Monitorar hidrogênio continuamente pode oferecer um marcador funcional direto da fermentação microbiana em resposta à dieta, probióticos ou prebióticos. Se depender da nova “cueca inteligente”, o que antes era motivo de constrangimento pode se tornar uma das ferramentas mais promissoras para entender a saúde intestinal. Tudo isso, com rigor científico e dados objetivos substituindo suposições baseadas em evidências questionáveis.

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