Estudo com 413 crianças investigou como ajuda ao próximo muda com a cultura
Galileu [Unofficial]
February 9, 2026
Durante a infância, as crianças são ensinadas a seguir regras universais de comportamento. Mas, dependendo do país de origem, da cultura e das vivências individuais e coletivas dos pequenos, a forma como eles respondem aos ensinamentos pode mudar. Principalmente quando o assunto é ajudar o próximo. Isto é o que revela um estudo publicado na revista Science Advances na última sexta-feira (6). Os pesquisadores analisaram como 413 crianças – de idades entre 5 e 13 anos – do Canadá, Estados Unidos, Peru, Uganda e da comunidade indígena Shuar no Equador se comportavam em situações que envolviam justiça, confiança, perdão e honestidade. Também foram entrevistados 86 adultos desses cinco países para entender como as pessoas acreditavam ser a coisa “certa” a se fazer. A equipe observou que, embora crianças pequenas de diferentes culturas comecem com comportamentos semelhantes, suas escolhas divergem ao longo do tempo. Segundo os autores, essas diferenciações são um reflexo das normas culturais locais das sociedades de origem de cada criança. Dorsa Amir, da Universidade Duke (EUA), afirmou que o objetivo da pesquisa é mapear as regularidades e variações em como a cooperação se desenvolve e se manifesta em diferentes culturas. “Queríamos descobrir as raízes da cooperação humana, que superam as de todas as outras espécies em escala e flexibilidade”, disse, em comunicado. Cooperar por diferentes caminhos No início da vida, a maioria das crianças – independente da sua sociedade de origem – tende a apresentar comportamentos autocentrados. Mas, à medida que elas crescem e chegam na fase intermediária da infância – entre os oito e os treze anos –, as suas escolhas individuais passam a estar mais alinhadas com os valores das suas respectivas comunidades. Isso foi observado após os pesquisadores analisarem como as crianças fazem escolhas. Para isso, a equipe realizou uma série de quatro jogos simples, nos quais elas eram solicitadas a tomar decisões sobre compartilhar recursos – neste caso, bolas –, retribuir favores, perdoar erros e dizer a verdade. Juntos, os jogos mediram como as crianças pensam sobre justiça, confiança, perdão e honestidade em situações sociais cotidianas. Em todas as cinco sociedades, as crianças mais novas tenderam a priorizar seus próprios interesses, comportamento já esperado pela equipe. Métodos e estímulos para as quatro tarefas comportamentais: (A) Jogo da Iniquidade, (B) Tarefa de Confiança, (C) Tarefa do Perdão e (D) Tarefa de Honestidade Science Advances Os jogos revelaram que, durante a infância, crianças aprendem quais tipos de cooperação fazem sentido em seu círculo social. Em algumas sociedades, os pequenos se tornaram mais propensos a rejeitar vantagens injustas ou a compartilhar seus doces com desconhecidos. Crianças da comunidade Shuar, da Amazônia equatoriana, por exemplo, se concentravam em não desperdiçar recursos e em aproveitar ao máximo o que tinham, o que condizia com o funcionamento de sua sociedade. Esse “funcionamento da sociedade” é compreendido pelas crianças em uma período crítico para a sua aprendizagem social: a fase intermediária da infância. De acordo com os pesquisadores, é nessa etapa da vida que elas aprimoram tanto o seu comportamento quanto a sua compreensão de como devem agir em sociedade. “Além de aprenderem as normas ao seu redor, elas também começam a se comportar cada vez mais de acordo com essas normas, o que às vezes é difícil porque pode envolver um preço a pagar”, disse Amir. Também é esse período de aprendizado que permite que as crianças aprimorem seu comportamento para se adequar às expectativas de sua comunidade. Aprender o que é “certo” Amir compartilhou que, por se tratar de uma pesquisa intercultural, era fundamental que a equipe entendesse como as escolhas das crianças se encaixam em seus ambientes. Por isso, eles compararam o que os adultos de cada uma das comunidades acreditava que os outros deveriam fazer com o que as crianças realmente faziam. Em muitos dos casos, como entre as pessoas da comunidade Shuar, o comportamento infantil se aproximava gradualmente das normas adultas ao longo do tempo, especialmente no que dizia respeito à justiça e à confiança. Para outros comportamentos, como honestidade, as crianças frequentemente já “sabiam” o que era considerado “certo” antes de agirem de forma consistente. O perdão, por sua vez, destacou-se como uma exceção. Em todas as cinco sociedades, tanto crianças quanto adultos demonstraram forte concordância de que erros acidentais devem ser perdoados. Estratégias de cooperação Em conjunto, as descobertas esclarecem como os tipos de comportamentos cooperativos se desenvolve dentro e entre culturas Science Advances Assim como as crianças são socialmente estimuladas de maneiras diferentes, há diferentes formas de cooperação. Ao invés de demonstrarem uma única tendência geral de cooperação, elas seguiram uma das três estratégias distintas: maximizar o ganho pessoal, cooperar amplamente com desconhecidos ou cooperar seletivamente, dependendo da situação. A ocorrência de cada uma dessas estratégias mudou conforme a idade da criança e, claro, de acordo com a sua sociedade de origem. Crianças com origem em países mais industrializados, como os EUA e Canadá, por exemplo, eram mais propensas a cooperarem com estranhos; enquanto crianças de sociedades com relacionamentos mais próximos e co-dependentes tendiam a se concentrar em usar os recursos disponíveis de forma mais eficiente. Esses resultados, no entanto, não significam que um grupo de crianças seja mais ou menos “cooperativo” do que o outro. O que eles revelam, na verdade, é que a cooperação em si é uma construção social e cultural, podendo assumir formas variadas. Além disso, a pesquisa reforça que não existem padrões globais de comportamento, principalmente àqueles estabelecidos pelas sociedades ocidentais industrializadas. “Não existe um único 'padrão de desenvolvimento normal' quando se trata de comportamento, porque tudo o que observamos acontece dentro de um contexto cultural”, concluiu Amir.
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