Novo mapa desvenda relevo enterrado sob o gelo da Antártida
Galileu [Unofficial]
February 6, 2026
Por décadas, pesquisadores a ciência soube mais sobre a superfície de outros planetas do que sobre o que se esconde sob a vasta camada de gelo da Antártida. Com até 5 km de espessura em alguns pontos, essa cobertura sempre representou um enorme desafio para pesquisadores. Mas, agora, um estudo publicado em 15 de janeiro na revista Science apresenta o mapa mais detalhado já produzido do relevo subglacial antártico, oferecendo uma visão sem precedentes dessa paisagem enterrada. Construído a partir da combinação de imagens de satélite com simulações computacionais baseadas no movimento do gelo, o mapa cobre de forma contínua toda a Antártida. Entre as descobertas estão mais de 30 mil colinas com pelo menos 50 metros de altura e um canal profundo de cerca de 400 km de extensão, largura média de 6 km e paredes íngremes. “É como se antes tivéssemos uma câmera analógica granulada e agora estivéssemos usando uma imagem digital com zoom de alta definição”, explica Helen Ockenden, geocientista da Universidade Grenoble Alpes e coautora do estudo, à BBC News. De radares pontuais a um retrato contínuo Até então, a maior parte do conhecimento sobre o subsolo antártico vinha de levantamentos por radar, feitos a partir de aviões ou de trenós puxados por snowmobiles. Esses instrumentos enviam ondas de rádio que atravessam o gelo e retornam após refletirem no leito rochoso. Fendas e rachaduras em uma geleira que flutua em direção ao mar na Ilha Challenger, na Antártica Wikimedia Commons O problema é que esse tipo de medição ocorre apenas ao longo de trajetos específicos, deixando grandes áreas sem dados. Robert Bingham, glaciologista da Universidade de Edimburgo, na Escócia, e coautor do estudo, compara a situação a tentar mapear os Alpes europeus cobertos de gelo apenas com voos espaçados por vários quilômetros. Esta nova abordagem contorna a limitação ao analisar como o gelo flui na superfície. Assim como a água de um rio reage à presença de rochas submersas, o gelo muda seu comportamento conforme o relevo abaixo dele. Como lembra a revista Smithsonian, a partir dessa relação física, os pesquisadores reconstruíram a topografia subglacial e validaram os resultados comparando-os com dados de radar coletados anteriormente. Impactos para o futuro do nível do mar A Antártida abriga a maior camada de gelo do mundo, cobrindo cerca de 14 milhões de km². Por isso, compreender o relevo sob essa massa é essencial para prever como o gelo se move em direção ao oceano e em que ritmo pode derreter, contribuindo para a elevação do nível global do mar. Ainda que o trabalho represente um marco importante, existem certas limitações. Afinal, a visão generalista não capta todos os detalhes finos do relevo. Os próprios autores reconhecem que a técnica não consegue distinguir feições mais estreitas do que a espessura do gelo. Mesmo assim, o novo mapa representa um avanço crucial para entender a dinâmica do continente gelado. Ao revelar o relevo que controla o fluxo do gelo, a pesquisa oferece uma base mais sólida para projetar o futuro da Antártida, bem como os seus efeitos sobre o clima e os oceanos do planeta.
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