A bagagem (Conto)
gab
May 5, 2026
A BAGAGEM
Sou apenas uma bagagem sem qualidade, cujo conteúdo raramente importa. Consigo ver no olhar deles a necessidade de tentar continuar comigo: um couro sintético falso, uma alça remendada com fita crepe, totalmente desgastada. Sinto que meus dias úteis acabaram.
Quem me dera ser jovem novamente! Ter uma etiqueta no zíper e um valor razoável para um camelô... Mas esses dias de vitrine se foram. Cá estou eu, vendo-os olhar vitrines cheias de jovialidade.
Caberá a mim aquele amargurado fim? Acabar num quartinho escuro, cheio de itens sem valor, acumulando poeira e sendo roído por ratos
Novamente em uma rotina de viagens, passo por alarmes e raios X - algo tão intrusivo, sem qualquer permissão ou pedido gentil. Apenas vêm à tona tudo o que está dentro de mim. Após isso, uma esteira fria me leva a outro local, cheio de malas. A única coisa que me diferencia delas é uma etiqueta com o nome do meu portador e números aleatórios. Depois, sou levada a outro local: uma breve volta em uma espécie de trem. Então, chego a essa comunal aeronave. Aqui, neste bagageiro - como o de um carro -, me encontro com outras bagagens. Mas, infelizmente, essas são mais quietas do que eu. Há também animais, cães e gatos, latindo e miando tão alto que quase não escuto o motor dessa geringonça.
Queria, ao menos uma vez, ver o céu - essa paisagem da qual meus portadores tanto falam. Com o passar do tempo, tudo fica meio escuro e silencioso. "O céu... o que é isso?"
Um barulho ensurdecedor. O avião está caindo! Meu corpo é lançado no ar, batendo no teto. Caramba, o que está acontecendo? A porta do avião está sendo arrancada! Meu corpo é sugado para fora, puxado pelo vácuo. Vejo meus companheiros bagagens sendo jogados para fora junto comigo. Até os animais domésticos estão sendo libertados de suas gaiolas.
Ao me virar, vejo aquela aeronave despencando em uma bola de fogo, suas asas em chamas. Estou caindo na água. O impacto estrondoso me faz submergir, e o ar escapa dos meu corpo uma explosão de bolhas que sobem à superfície.
Todas as roupas e documentos que carrego dentro de mim estão molhados e danificados. Sinto a correnteza me puxando para algum lugar. O sol se põe, e eu vou à deriva, até ser lançada numa ilha. Lá, meu couro sintético encontra-se encharcado, coberto de areia.
A noite passa, e o amanhecer traz um sol quente que faz meu corpo encolher. Estou no meio da praia, onde vejo o que as ondas trazem: além de plástico e roupas, há destroços. Corpos sem vida de pessoas e animais.
Mas vejo aquilo... o que são? Cães saindo do mar. Eles estão cansados, deitam-se na areia esperando o sol secá-los. Um deles vem em minha direção e me lambe. Hehehe, faz cócegas! Ah, não... o que...? Ele está me mordendo! Solta! Solta!
Meu couro é rasgado, meu zíper quebra. Estou aberta. As roupas que guardava agora se espalham pela areia. Entre elas, vejo as roupas de meus portadores... e seus documentos. Ali está a identificação deles, com fotos lado a lado. Seus papéis parecem sussurrar: Nosso fim foi juntos.
Bom... essa foi minha história. Meu fim não foi no escuro, mas sob um sol quente, numa areia limpa, de onde posso ver o céu.
Sinceramente... não poderia ter tido um fim melhor.
Palavras do autor :Agradeço pela leitura, gostaria também de agradecer minha amiga blairkingautora que me ajudou com seus conselhos nesse e em
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