Estratégia e instintos
Marcelo
May 8, 2026
Esse texto fala de assédio sexual e por isto talvez não faça muito bem ler ele. Foto de lobos fofinhos só para não ir direto do alerta de assunto sensível pro texto. Quando eu comentei com uma amiga que eu estava arrependido todas as vezes que eu tratei bem um sujeito que dia desses encurralou uma garota no banheiro feminino para assediá-la, ela observou, muito sabiamente, que não tem do que se arrepender (por tratá-lo bem até então) porque o assediador pode ser qualquer um, inclusive qualquer um que se apresente como um chamado homem de bem. Não foi a primeira vez que eu li/ouvi isto, nem foi o primeiro assediador que surpreendeu por ter sido alguém acima de qualquer suspeita (se a empresa que o contratou tivesse feito uma simples consulta teria descoberto que já tinha um B.O. contra ele justamente por assédio, mas da forma como foi, só agora se descobriu que ele já havia ultrapassado a fase de suspeita há muito tempo. Mas talvez por ter sido com gente com quem eu conversei quase diariamente, do outro lado da parede do banheiro que eu usei também quase diariamente (uma parede alta mas que não chega no teto, então de qualquer um dos lados dá pra ouvir as conversas do outro lado) o qualquer um sujeito-acima-de-qualquer-suspeita aparece com um caráter hediondo em um nível um pouco maior. Talvez seja mais ou menos a diferença entre um conhecimento teórico e a experiência concreta – como a diferença entre ter conhecer os efeitos da fome no ser humano, e passar fome por longos períodos durante um bom tempo, por exemplo. «Atingimos aqui o mistério da existência em um dos seus aspectos fundamentais. Elevando-se ao universo dos valores, da realidade que escapa ao alcance dos sentidos, realizando-se segundo o espírito, o homem se aproxima de sua plenitude não só espiritual mas também sensível, plenitude inatingível pelo homem que permanece imerso no mundo sensível. O animal realiza seus fins vitais obedecendo apenas aos instintos. O mesmo não sucede com o homem, porque nele o instinto é totalmente assumido pela razão e parcialmente suprido por ela. Por isso, o homem meramente instintivo desce a níveis de estupidez e de crueldade que o aviltam abaixo dos animais.» (Fé cristã e compromisso social, p. 85) O texto aí em cima de Fé cristã e compromisso social é sobre outra coisa, antropologia cristã e como a fé em Cristo tem como efeitos secundários (mas indispensáveis) o desenvolvimento pleno da humanidade dos fiéis, e nessa parte em particular eles estão argumentando que a salvação de Cristo abrange o corpo e a alma, que formam a unidade indivisível do que se chama ser humano, e Cristo veio salvar o ser humano inteiro, e não só a sua alma. O ponto em que eles querem chegar é que tanto a alma interfere no corpo quanto o corpo interfere na alma, ao contrário que sugere um certo tipo de espiritualismo descomprometido com a realidade em volta. Mais ou menos isso. Mas essa citação em particular, isolada do contexto em que está escrita no livro, me parece o tipo de «aviltamento abaixo dos animais» para onde o «homem instintivo» desce se vive de acordo com seus instintos em detrimento da razão – porque um assediador está obedecendo a um instinto. Se fosse um animal, tudo bem, mas um ser humano fazendo o mal por causa de um instinto é pior do que o animal mesmo que os instintos se equivalham, quer dizer, os animais tem o direito de serem animais, nós não. Mas no caso dos instintos do assediador, ele ainda é pior do que o «homem instintivo» que é pior do que um animal. Ele não é um monstro irracional que não sabia o que estava fazendo, nem um «homem instintivo» que por fraqueza, maldade, algum déficit emocional o cognitivo, ou por qualquer outra coisa, não se contenha, porque ele se contém. Sua razão consegue «assumir o instinto e supri-lo parcialmente», mas ele usa essa razão também para armar emboscadas e arapucas contra mulheres para satisfazer conscientemente um instinto que ele sabe que daquele jeito é errado satisfazer – tanto é que não faz isso na frente dos outros (a menos que saiba que esses outros aprovem isso), mas longe de qualquer olhar que pudesse condená-lo – e com mulheres que por algum motivo ou em determinado momento estejam em uma condição de fragilidade, e ninguém, ou pelo menos quase ninguém nesse mundo é forte o tempo todo. É meio que exatamente o oposto do que os vampiros da Bella em Crepúsculo faziam: enquanto eles subjugam seus instintos assassinos, motivados pela fome (afinal são vampiros) para preservar os seres humanos à sua volta, para somente “liberar o instinto” caçando animais para beber o sangue deles (e mesmo assim fazendo um tipo de “manejo sustentável” para não interferir no equilíbrio ecológico da região), os assediadores subjugam seus instintos de dominação sexual1 até terem uma oportunidade de simularem essa dominação (porque a parte sexual não é o foco, o que eles querem é se sentirem dominadores), não por um impulso irresistível como se estivessem intoxicados por um desejo mais forte do que eles, mas por um cálculo frio e racional que resulta, no máximo, numa simulação grotesca de um frenesi sexual. Não tem conclusão nenhuma. Querer explicar o mal é meio que negociar com o diabo, pelo menos no contexto dessa epidemia de assédio sexual em que vivemos, e esse texto não era uma tentativa de explicação, mas o desenvolvimento da ideia de que um assediador está abaixo até do «homem instintivo», já que não é instintivo, mas bem racional e usa essa razão para satisfazer um instinto que consegue dominar plenamente, mas usa como um veneno para levar sofrimento às mulheres. A foto dos lobos, de Eva Blue na Unsplash, era porque eu ia associar isso tudo com o conto da carochinha do macho alfa (que o próprio criador já corrigiu mas a correção teve bem menos repercussão que o conto), e como os coachs cristãos tentam aplicar a Cristo ignorando que ele é o Cordeiro de Deus (e não o macho alfa de Deus) mas não consegui desenvolver a ideia, então a imagem só serviu mesmo pro texto não vir imedatamente depois do alerta de assunto sensível no texto. —- 1 E eu não sei nem se os animais tem algum instinto de dominação e sexual. Eu sei que tem um instinto de domínio, e outro instinto sexual, mas não sei se eles tem esse instinto de querer “mostrar quem é que manda” por meios sexuais.
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