Catolicismo ultraprocessado

Marcelo May 19, 2026
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Basta uma leitura rápida e superficial da constituição pastoral Gaudium et spes para perceber o quanto a maioria dos mais renomados influencers católicos está mais empenhada com projeto político pouco ou nada alinhado com a doutrina da Igreja (se bem que nenhum outro é mais nem menos alinhado com ela) do que com uma defesa legítima do que a Igreja entende como valores cristãos: Confundindo, de propósito, “liberdade” com “liberdade irrestrita”: Os homens de hoje apreciam grandemente e procuram com ardor esta liberdade; e com toda a razão. Muitas vezes, porém, fomentam-na dum modo condenável, como se ela consistisse na licença de fazer seja o que for, mesmo o mal, contanto que agrade. (17) “Defendendo a fé” apontando o dedo para o ateísmo, em vez de tentar entender suas causas (esse dedo apontado entre elas): [A Igreja] procura, no entanto, descobrir no espírito dos ateus as causas da sua negação de Deus, e, consciente da gravidade dos problemas levantados pelo ateísmo, e, levada pelo amor dos homens, entende que elas devem ser objecto de um exame sério e profundo. (21) Vangloriando-se de serem os únicos tocados pela graça divina: E o que fica dito, vale não só dos cristãos, mas de todos os homens de boa vontade, em cujos corações a graça opera ocultamente. (22) Vendo no outro um inimigo: O Concílio recomenda a reverência para com o homem, de maneira que cada um deve considerar o próximo, sem excepção, como um «outro eu» (27) O nosso respeito e amor devem estender-se também àqueles que pensam ou actuam diferentemente de nós em matéria social, política ou até religiosa. Aliás, quanto mais intimamente compreendermos, com delicadeza e caridade, a sua maneira de ver, tanto mais fàcilmente poderemos com eles dialogar. (28) Ignorando o apelo da Igreja à justiça social: Além disso, embora entre os homens haja justas diferenças, a igual dignidade pessoal postula, no entanto, que se chegue a condições de vida mais humanas e justas. Com efeito, as excessivas desigualdades económicas e sociais entre os membros e povos da única família humana provocam o escândalo e são obstáculo à justiça social, à equidade, à dignidade da pessoa humana e, finalmente, à paz social e internacional. (29) Ignorando, também, o apelo contra o individualismo: A profundidade e rapidez das transformações reclamam com maior urgência que ninguém se contente, por não atender à evolução das coisas ou por inércia, com uma ética puramente individualística. (30) Sem contar os que acham que, por motivos religiosos, as mulheres devem ser “do lar”: Os homens e as mulheres que, ao ganhar o sustento para si e suas famílias, de tal modo exercem a própria actividade que prestam conveniente serviço à sociedade, com razão podem considerar que prolongam com o seu trabalho a obra do Criador, ajudam os seus irmãos e dão uma contribuição pessoal para a realização dos desígnios de Deus na história. (34) Ou confundem o progresso terreno individual com o progresso do Reino de Deus, ou tentam desdenham da importância do progresso humano Embora o progresso terreno se deva cuidadosamente distinguir do crescimento do reino de Cristo, todavia, na medida em que pode contribuir para a melhor organização da sociedade humana, interessa muito ao reino de Deus. (39) Falam como se a Igreja pensasse que, exceto por Deus, apenas ela se basta: Assim como é do interesse do mundo que ele reconheça a Igreja como realidade social da história e seu fermento, assim também a Igreja não ignora quanto recebeu da história e evolução do género humano. (44) Ao ajudar o mundo e recebendo dele ao mesmo tempo muitas coisas, o único fim da Igreja é o advento do reino de Deus e o estabelecimento da salvação de todo o género humano. (45) Defendem a família mas não as condições sociais necessárias para “fomentar a prosperidade doméstica”: A autoridade civil há-de considerar como um dever sagrado reconhecer, proteger e favorecer a sua verdadeira natureza, assegurar a moralidade pública e fomentar a prosperidade doméstica. (52) Enxergam as manifestações culturais atuais como um perigo: Ainda que a Igreja muito tem contribuído para o progresso cultural, mostra, contudo, a experiência que, devido a causas contingentes, a harmonia da cultura com a doutrina nem sempre se realiza sem dificuldades. Tais dificuldades não são necessàriamente danosas para a vida da fé; antes, podem levar o espírito a uma compreensão mais exacta e mais profunda da mesma fé. (62) Se omitem diante da crescente degradação das condições de trabalho: Finalmente, tendo em conta as funções e produtividade de cada um, bem como a situação da empresa e o bem comum, o trabalho deve ser remunerado de maneira a dar ao homem a possibilidade de cultivar dignamente a própria vida material, social, cultural e espiritual e a dos seus. Dado que a actividade económica é, na maior parte dos casos, fruto do trabalho associado dos homens, é injusto e desumano organizá-la e dispô-la de tal modo que isso resulte em prejuízo para qualquer dos que trabalham. Ora, é demasiado frequente, mesmo em nossos dias, que os trabalhadores estão de algum modo escravizados à própria actividade. Isto não encontra justificação alguma nas pretensas leis económicas. É preciso, portanto, adaptar todo o processo do trabalho produtivo às necessidades da pessoa e às formas de vida (67) Ultraprocessados A lista é maior do que esta (a constituição pastoral tem mais 26 parágrafos e eu não tenho todo esse tempo), e alguém poderia muito bem selecionar outros trechos de parágrafos que, eventualmente, corroborassem o obscurantismo que essa maioria renomada promove. Mas a questão é, eu acho, justamente essa: a Igreja não deixou de se opor ao aborto nem de restringir o casamento a uma mulher e um homem, por exemplo, mas mesmo sem deixar de lado essas doutrinas, projetou uma dedicação maior ao diálogo em vez da acusação, do enfrentamento, e da condeação; alargou sua perspectiva moral para além da sexualidade; discerniu com clareza que Cristo, apesar de ser Rei, é um rei pobre entre os pobres, e por aí vai. Mas não se vê – pelo menos eu não vejo – nada disso na maioria dos perfis de católicos famosos por aí, e sim, quase sempre uma doutrina ultraprocessada com sabor artifical de católica. (A imagem é do blog Colher na laranja)

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