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"Teologia experimental"
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"textContent": "Normalmente eu escrevo por algum incômodo, não necessariamente os grandes incômodos da humanidade, mas os pequenos incômodos do dia a dia ou, pelo menos, aqueles sobre os quais dá pra escrever (pois tem aqueles sobre os quais não dá vontade nem de pensar, outros que não há condições nem de serem pensados, etc). Mas no momento, não. E não digo isso pra me gabar. Tem as coisas mal equilibradas com pedaços de pau e cordas improvisadas com lençóis no passado, que se tentar ajeitar pode ser que melhore mas também pode ser que desmorone tudo. Tem o mapa do futuro, com os trechos de rua bem iluminados e os becos obscuros de um mapa impossível de conferir se está correto. E ainda tem as certezas, os pontos cegos e as boas e más surpresas do presente. Talvez isso seja, ou talvez seja ao menos parecido, com a ideia de paz. Não uma tranquilidade que permita dormir até sonhar com muita frquência, nem baixar a guarda por mais do que um segundo, e sim conseguir lembrar de respirar pelo nariz e soltar o ar pela boca, planejar a longo prazo (dois meses, no meu caso) e ter uma ou duas rotas de fuga imprevisíveis, mas possíveis, sem nenhum abismo no final delas. Inclusive, desta vez, também exclui devidamente a sensação de “finalmente cheguei lá”, uma miragem que o que esconde não é nem o mesmo deserto do qual se destaca, mas as areias movediças de um triunfalismo catastrófico. Apesar da referência à “esperança equilibrista que dança na corda bamba de sombrinha” não é pelo equilíbrio (que já me explicaram que numa corda bamba circense só pode ser alcançado desequilibrando-se ao longo de toda a sua extensão) que, eu acho, vem esse tipo de paz – que sem fazer do que foi dito acima uma definição, talvez se pareça com o que se costuma chamar de paz de Cristo. A esperança dança na corda bamba de sombrinha, e em cada passo dessa linha pode se machucar. Azar!, a esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar. De todas as partes que podem emocionar alguém na missa, por muito tempo eu tinha que me preparar especialmente não para o ápice que é a transubstanciação do pão e do vinho, mas para a parte do Cordeiro de Deus: eu sempre passei numa boa pelo “Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo, tende piedade de nós”, mas precisava de muito autocontrole na parte do “dai-nos a paz”. Apesar de naquela época parecer um pedido dolorido (mais ou menos no sentido de para que me fazerem pedir alguma coisa que nunca vai ter?), talvez fosse porque a minha expectativa fosse a paz triunfalista catastrófica de antes: as consequências de não ter paz eram ruins, e as consequências de ter paz, também. E talvez, reforçando mais uma vez que isso não é uma tentativa de definição, fosse assim por faltar a perspectiva de que Paz de Cristo, no sentido de um dom dado por Cristo, não é no entanto uma coisa que acontece num estalar de dedos de Jesus. É um dom que não “funciona” sem uma construção ao mesmo tempo posterior e paralela a ele1. Enfim, talvez paz tenha mais a ver com conseguir caminhar na corda bamba de sombrinha em vez de ficar dependurado nela pelas mãos no mesmo lugar o tempo todo, do que com a ideia de “chegar lá”. E talvez eu tenha que aprender a escrever não só a partir de estar dependurado num problema, mas também de estar caminhando nessa corda. Foto de Sheila C na Unsplash — 1 Deus pode fazer tudo sozinho se quiser mas o que quis foi fazer as coisas conosco, com a nossa participação etc (mesmo a nossa redenção por Jesus, que dependeu só do sacrifício de Cristo, mesmo assim não é imposta por Deus, mas abriu a possibilidade de aceitarmos ser redimidos, o que era impossível até o sacrifício na cruz, por exemplo).",
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