Pecados e penducricalhos

Marcelo February 4, 2026
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Em 2005, quando era arcebispo de Buenos Aires, o então cardeal Bergoglio reciclou um texto dele mesmo de 1991 para apresentar numa assembleia arquidiocesana, que mais tarde se tornou um pequeno livro chamado Corrupção e Pecado.

Neste texto, ele explica a diferença entre pecado e corrupção, começando por expandir a abrangência da corrupção para além da esfera das autoridades, mas mesmo atingindo também a nós, meros mortais, por tabela, ainda assim é inevitável pensar nas autoridades ao ler o texto do futuro papa.

Uma das piores consequências de se retirar a ideia de pecado do pensamento geral e relegá-la ao âmbito religioso é que a ideia fica nas mãos de um grupo mais ou menos homogêneo de pessoas que usa o pecado para manipular culpas, associando ele quase que exclusivamente coisas sexuais, e mais ainda, a coisas privadas e particulares.

Apesar disto, existe o pecado social, em cuja raiz estão males como a fome, o desemprego, etc, inclusive a corrupção, que é do que se trata o texto do livro, que no entanto não trata a corrupção como um pecado nem social, nem pessoal.

Capa do livro Corrupção e Pecado (algumas reflexões a respeito da corrupção), de Jorge M. Bergoglio, publicado pela editora Ave-Maria. Além dessas informações, a capa é ilustrada  por uma teia de aranha banhada de sereno.

A ideia toda do livro (na verdade, um artigo) é que o pecador se reconhece como um pecador, e reconhece o pecado quando peca, o que lhe permite ver, ao menos no horizonte, a misericórdia de Deus.

O corrupto não vê o mal que faz como uma corrupção. Entre outras coisas, o corrupto reelabora sua maldade para que ela se torne "socialmente aceitável (p. 22), embora isso não faça com deixe de ter um "cheiro de podre" (p. 18):

Ocorre como com o mau hálito: dificilmente aquele que tem mau hálito o percebe. Os outros é que o sentem e têm que lhe dizer. (p. 19)

Embora a misericórdia divina seja suficentemente ampla para alcançar também o corrupto, ele não consegue vê-la no seu horizonte, afinal ele está firmemente apegado à aparência de que está tudo ok. Pra ele, não tem nada ali que precise ser perdoado.

Um dos melhores exemplos disso pra mim é o presidente do TJSP dizendo que vai manter os penduricalhos (que ele chama por um nome mais suave) porque "Nada é pago, nenhum centavo é pago, sem que haja, ou lei, ou decisão do Supremo, ou autorização normativa do Conselho Nacional. Nenhum centavo é pago além disso", o que pra mim é um jeito muito elegante de tornar a corrupção socialmente aceitável, e mais do que isso, legalizada.

Essa ideia também vale pra resistência do STF em aceitar um código de ética, e por mais males que essas corrupções legalizadas tragam, talvez o pior seja que a maioria das pessoas vai normalizando a corrupção, ou, nas palavras do então futuro papa Francisco:

Fomos nos acostumando mais à palavra [corrupção]... e aos fatos, como se fizessem parte da vida coditidana. (p. 8)

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