Djamila Ribeiro relança livro 9 anos depois: 'Lugar de fala não tem a ver com calar ninguém'
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June 23, 2026
A obra que nasceu em 2017 e que disseminou no país o conceito de "lugar de fala" ganha, em 2026, uma nova edição, que quadruplicou de tamanho. O Estúdio CBN desta terça-feira (23) recebeu Djamila Ribeiro, a filósofa, ativista e escritora que relança sua obra 'Lugar de Fala', nove anos após a primeira publicação, dessa vez com prefácio da prestigiada escritora nigeriana Chimamanda Adichie. O conceito que intitula a obra, “lugar de fala”, refere-se ao lugar social que cada indivíduo ocupa na sociedade. Segundo ela, exerce a importância crítica de marcar esse lugar para entender como os privilégios e as opressões foram construídos historicamente: “Marcar esse lugar é importante até para a gente entender como as opressões e os privilégios foram construídos. (...) Se a gente não compreende a origem social da desigualdade, a gente naturaliza. Uma vez que a gente faz isso e toma consciência, a gente consegue agir para enfrentar isso. Todo mundo tem lugar de fala. E, a partir do seu lugar, exerce uma postura ética”, defendeu. A autora explicou que a nova publicação se deve ao fato do “lugar de fala” ter se tornado uma expressão que se popularizou muito desde 2017, e que sofreu, segundo ela, muitos “esvaziamentos” do seu sentido original. Por isso, a atualização do livro nasce também de suas próprias experiências acumuladas ao longo dos anos, período em que viajou e dialogou com diversos intelectuais. “Não é uma revisão meramente de um livro, mas é uma ampliação substancial para pensar o conceito também em outras perspectivas”, explicou. Impacto no mercado editorial Desde a primeira publicação, 'Lugar de Fala' exerceu um importante papel no mercado editorial brasileiro. Segundo a autora, o primeiro livro da Coleção Feminismos Plurais “abriu muitas portas para os intelectuais que hoje são conhecidos no Brasil”. Ela destacou que a obra já foi utilizado em muitas decisões judiciais, além de ter influenciado também na transformação de “injúria racial” em “racismo”. “A gente tem vários livros na coleção que foram importantes para o debate público e impactaram de modo incontornável, porque o mercado editorial também se viu forçado a publicar mais autores negros (...). A gente impulsionou um movimento que fez com que as grandes editoras também olhassem mais para esse tipo de produção”, afirmou a autora. Djamila compartilhou dados importantes para a compreensão da dinâmica de quem tem voz no mercado editorial: até 2014, 90% dos livros publicados no Brasil eram escritos por pessoas brancas — desses, 70% eram homens brancos. Interpretações equivocadas do conceito A autora também abordou as interpretações erradas que têm sido atribuídas ao conceito de “lugar de fala”. Por ser muito evocado em discussões públicas, o que naturalmente acontece com expressões ou conceitos que são popularizados, ele acabou sendo esvaziado ou distorcido. “Eu respondo a muitos equívocos no livro. E um dos equívocos é esse, que lugar de fala não é o que se fala, é de onde se fala. A gente está se referindo a um lugar social”, comentou Djamila ao ressaltar que “pessoas brancas podem e devem falar sobre racismo”, apesar de falarem de uma outra posição. “Marcar esse lugar é importante até para a gente entender como as opressões e os privilégios foram construídos”, destacou.
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