Mariana Salomão Carrara sobre ‘Claudia Vera Feliz Natal’: ‘Não escreveria sem ser defensora pública’
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June 5, 2026
Uma das autoras contemporâneas mais celebradas da literatura brasileira, a escritora e defensora pública Mariana Salomão Carrara lança o romance 'Claudia Vera Feliz Natal'. Na obra, a escritora mergulha primeira vez no universo do sistema de Justiça, que conhece de perto após 15 anos de atuação na Defensoria Pública de São Paulo. Em entrevista a Tatiana Vasconcellos durante a quinta edição d'A Feira do Livro na Praça Charles Miller, em São Paulo, a autora contou como sua experiência pessoal foi importante para escrever 'Claudia Vera Feliz Natal', e que o desejo de criar essa história é antigo. “Eu sou defensora há 15 anos. Acho que precisei acumular esses anos de experiência para me entregar de vez. É uma obra que eu sempre quis fazer”, afirmou. O livro é narrado por um jovem juiz vindo da cidade de São Paulo, que, desenraizado, atua em pequenas comarcas do interior do Mato Grosso. Ao precisar justificar à Corregedoria a demora para concluir uma decisão judicial, ele escreve uma longa defesa que acaba se transformando em uma reflexão sobre sua carreira, suas escolhas e sua própria vida. Um juiz incapaz de decidir Mariana Salomão Carrara explica que a ideia central do romance surgiu de uma inquietação que ela sempre teve em relação ao trabalho dos magistrados. “Eu pude explorar uma coisa que sempre me inquietou na judicatura, que é decidir, decidir o tempo todo. Em cidades pequenas, é um juiz para absolutamente todos os temas do Judiciário. Isso era sufocante para ele.” O protagonista é um homem marcado pela indecisão, pela dificuldade de criar vínculos e pela solidão de ocupar um cargo cuja responsabilidade final recai sempre sobre uma única pessoa. “Ele entende como muito solitário o gesto de decidir, porque depois é o nome dele que está ali. E aí esse processo é muito grave para ele. E tem essa questão também de ele ver os casos que foram errados no Brasil, né? De repente, um juiz errou uma decisão, como vai acontecer sempre, né? E a consequência muito horrorosa de cada caso desse fica na cabeça dele como um pesadelo. Em vez de construir uma personagem inspirada em sua própria profissão, de defensora, a escritora optou por se afastar da sua realidade imediata, e conta que, como em todos os outros livros, gosta de "sair de sua realidade para aumentar muito mais a perspectiva de imaginação.” Na forma de uma peça de defesa judicial, o romance mistura linguagem jurídica, humor e confissões pessoais do narrador. Mariana Salomão Carrara explicou que utilizou o vocabulário tradicional das peças processuais para criar comicidade e, ao mesmo tempo, construir a atmosfera do livro. “Era para passar essa sensação de estarmos lendo uma peça defensiva, só que é uma peça emocionada. Esse juiz está muito revoltado por ter sido representado na Corregedoria. Esse juridiquês vai dando lugar a uma escrita que começa a ficar íntima, ainda que em um linguajar respeitoso." 'Não é um retrato, é olhar alienígena' Embora a história seja ambientada nas cidades mato-grossenses de Claudia, Vera e Feliz Natal, a autora afirma que não buscou construir uma obra documental da região. Ela nunca esteve nos municípios, e ficou sabendo deles por acaso, ao conversar com um colega defensor que já havia trabalhado por lá. “Não é um retrato do interior do Mato Grosso. É um olhar alienígena mesmo, de alguém que está tentando se vincular e não consegue.” Para trazer a verossimilhança do ambiente das pequenas comarcas, a escritora reuniu relatos de juízes, promotores, defensores e outros profissionais da Justiça de diferentes regiões do país. “São personagens criados, mas compostos a partir de relatos que eu coletei do Brasil inteiro.” A escritora esteve presente n'A Feira do Livro para um debate com Carla Madeira, mediado por Iara Biderman. .
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