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"description": "Governo da Zâmbia cancelou evento dias antes do início; pressão diplomática chinesa e ambiente político pré-eleitoral estão entre os motivos",
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"textContent": "A RightsCon 2026 ocorreria de 5.mai a 8.mai.26, mas foi cancelada em 29.abr pelo Governo da Zâmbia, país que seria sede do evento neste ano. A organização responsável pela conferência afirma que a decisão ocorreu após pressão diplomática da China. Entidades arcam com os prejuízos do cancelamento.\n\nA Access Now, ONG que organiza a conferência desde o início, em 2011, confirmou o cancelamento em 30.abr. Segundo a organização, eram mais de 2.600 inscritos presenciais e outros 1.100 online, de mais de 150 países e 750 instituições.\n\n#### O que é a RightsCon\n\nA RightsCon é a principal conferência da sociedade civil global sobre direitos humanos no ambiente digital. Criada em 2011 no Vale do Silício, reúne ativistas, pesquisadores, jornalistas, formuladores de política e representantes de empresas de tecnologia para debater vigilância, censura, inteligência artificial, liberdade de expressão e temas relacionados.\n\nA programação de 2026 tinha mais de 500 sessões em 18 eixos temáticos.\n\nDiferente do Fórum de Governança da Internet (IGF), convocado pela ONU e com forte presença de governos e setor privado, a RightsCon é organizada e frequentada principalmente pela sociedade civil — ativistas, pesquisadores e organizações que atuam fora das estruturas institucionais. É onde se discutem ferramentas para driblar censura, se treinam ativistas em segurança digital e se articulam redes de proteção para pessoas em risco.\n\n### O que se perde com o cancelamento\n\nOrganizações brasileiras participam da RightsCon há anos. Fernanda Campagnucci, doutora em administração pública e diretora executiva do InternetLab, diz que o evento não tem substituto simples. \"Não basta simplesmente fazer um online. Um encontro presencial é muito importante para gerar conexões, para fortalecer a articulação entre grupos e organizações que atuam em diferentes contextos.\"\n\nAs organizações brasileiras Data Privacy Brasil, Instituto Sumaúma, InternetLab, Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) e Sleeping Giants Brasil eram painelistas no evento.\n\nA respeito da baixa repercussão do tema no Brasil, Fernanda acrescenta:\n\n> \"Isso ter acontecido e não despertar um debate no Brasil talvez signifique que estamos desconectados do debate público [...]. Acho que é um sinal de que a gente talvez não esteja como sociedade olhando para onde os ventos estão soprando nesse campo digital.\"\n\nRafael Zanatta, doutor em direito e codiretor da Data Privacy Brasil, aponta duas dimensões do impacto. A primeira é financeira e recai de forma desproporcional sobre as entidades menores. A segunda é sobre a articulação das entidades para pautar temas de direitos humanos na era digital.\n\n> Tem centenas de entidades do sul global que são menores [...] e que dedicam o seu orçamento e usam a RightsCon estrategicamente pra poder articular melhor as agendas de defesa de direitos do próprio sul global.\n\nA Global South Alliance, rede de ONGs do sul global criada em 2022 para articular agendas de direitos digitais, publicou uma nota em 30.abr, que, entre outros, cita a preocupação com os recursos institucionais e financeiros de organizações que foram comprometidos para participar da RightsCon.\n\n### O que aconteceu?\n\nA versão mais detalhada do que ocorreu nos bastidores é a da própria Access Now, publicada em 1.mai em comunicado no site. Em 26.abr, o governo elogiou evento e seu \"alinhamento com a agenda nacional de desenvolvimento\".\n\nNo dia seguinte, segundo a organização, a Access Now recebeu uma ligação do Ministério de Tecnologia e Ciência informando que diplomatas chineses haviam pressionado o governo zambiano por causa da participação presencial de representantes da sociedade civil de Taiwan.\n\nA Access Now abriu canal imediato com os participantes taiwaneses e acreditou que conseguiria resolver a situação com o governo. Mas, enquanto as negociações ocorriam, agentes de imigração já abordavam participantes que chegavam ao país dizendo que o evento estava cancelado, na véspera de um feriado nacional, o que dificultou qualquer contato formal.\n\nA mídia estatal publicou o \"adiamento\" na noite de 28 de abril sem que os organizadores tivessem sido avisados. No dia 29, a organização afirma ter recebido uma carta do Ministério pelo WhatsApp dizendo que o adiamento era necessário para \"garantir pleno alinhamento com os valores nacionais, prioridades políticas e considerações de interesse público\" da Zâmbia. O texto não especificava quais valores ou quais participantes estariam em questão.\n\nComunicado oficial do governo da Zâmbia sobre o cancelamento da conferência\n\nO que o governo exigia para o evento continuar, segundo a Access Now, foi passado apenas por canais informais: a organização teria que \"moderar tópicos específicos e excluir comunidades em risco, incluindo nossos participantes taiwaneses, da participação presencial e online\". A organização recusou e confirmou o cancelamento total em 30 de abril.\n\n\"Acreditamos que interferência estrangeira é a razão pela qual a RightsCon 2026 não vai acontecer na Zâmbia ou on-line\", afirmou a Access Now no comunicado.\n\n### Pressão chinesa\n\nA edição anterior da RightsCon foi realizada em fev.25 em Taipei. A vice-presidente de Taiwan, Hsiao Bi-khim, e a vice-premiê Cheng Li-chiun discursaram na abertura e falaram sobre democracia e oposição ao uso de tecnologia por regimes autoritários. A China não interferiu porque Taiwan tem autonomia orçamentária e recursos próprios, o que limita a capacidade de pressão de Pequim.\n\nEm Lusaka, o cenário é outro. A China é o maior credor bilateral da Zâmbia e inclusive financiou (como um \"presente\") a renovação do Centro de Conferências Mulungushi, onde a RightsCon aconteceria, com cerca de US$ 60 milhões.\n\nEm nov.25, o premier Li Qiang visitou Lusaka e assinou acordos envolvendo mineração e infraestrutura. Na ocasião, o presidente Hichilema declarou que a Zâmbia \"adere firmemente ao princípio de uma só China\" e apoia a oposição chinesa à independência de Taiwan.\n\nO cancelamento também tem um contexto político interno. Em ago.26, ocorrem as eleições na Zâmbia e o presidente Hakainde Hichilema pretende se candidatar. Um pesquisador da Human Rights Watch afirmou que \"o ambiente de direitos humanos na Zâmbia se tornou cada vez mais hostil à dissidência percebida e à oposição política antes das eleições de 2026\".\n\nVale registrar o contexto em que a conferência aconteceria: a Zâmbia criminaliza a homossexualidade, com penas que podem chegar à prisão perpétua. A programação da RightsCon, como em todos os anos, incluía sessões sobre direitos LGBTQ+ e treinamento de ativistas em segurança digital. A nota do governo que cita \"valores nacionais\" não tem maiores explicações.\n\n> \"Você tem o risco de pegar um tema — os temas de direitos digitais, que são temas de direitos humanos ou direitos fundamentais para tecnologia — e torná-los geopolíticos, torná-los marginalizados.\" - Rafael Zanatta, codiretor da Data Privacy Brasil\n\n### Reação da ONU e de outras 132 organizações\n\nGina Romero, Relatora Especial da ONU para Liberdade de Reunião Pacífica e de Associação, classificou o cancelamento como \"uma obstrução deliberada de uma das assembleias mais vitais da comunidade global de direitos digitais\" e afirmou que o governo zambiano violou critérios de legalidade, necessidade e proporcionalidade.\n\nUma carta aberta da Net Rights Coalition, reuniu 132 organizações condenando o cancelamento. O texto afirma que o episódio \"levanta preocupações sobre o fechamento do espaço cívico e o fomento de uma cultura de autocensura às vésperas das eleições de agosto de 2026\". A Anistia Internacional, a Human Rights Watch, a Article 19 e a Front Line Defenders também se manifestaram.\n\nTabani Moyo, diretor regional do Media Institute for Southern Africa (MISA), alerta para o risco de precedente.\n\n> \"Embora possa parecer algo específico do contexto zambiano, isso vai se espalhar pelo continente africano como fogo em campo seco. O que temos observado no contexto africano é que basta um dar o primeiro passo ousado para que outros imitem\".\n\n### Pressão de todos os lados\n\nO cancelamento da RightsCon ocorre em um momento em que organizações que defendem direitos humanos sofrem pelas medidas tomadas pelo governo Trump. No ano passado, a administração Trump fechou a USAID, fundo que distribuía bilhões para lidar com causas humanitárias em todo o mundo.\n\nO governo americano também cortou programas do Departamento de Estado voltados para liberdade na internet e democracia, o que fragilizou significativamente as organizações já que os EUA investiam mais do que qualquer outro país na área.\n\nResistência digital nos EUAComo cidadãos norte-americanos estão rastreando, mapeando e documentando os impactos devastadores das políticas de Donald Trump.Núcleo JornalismoGiovana Romano Sanchez\n\nSegundo levantamento do Tech Global Institute, ainda em 2025, 71% das organizações de direitos digitais em países do sul global já haviam reduzido atividades por causa dos cortes americanos.\n\n> \"Isso foi uma medida que preocupa todo mundo por esse precedente e por estar dentro de um contexto em que a gente tem cada vez menos espaços como esse e cada vez menos capacidade de reunir por falta de financiamento e outras dificuldades geopolíticas. Estamos em um contexto em que espaços como esses são muito raros.\" - Fernanda Campagnucci, diretora executiva do InternetLab\n\n###### Reportagem **Sofia Costa**\nArte **Aleksandra Ramos**\nEdição **Alexandre Orrico**",
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